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sexta-feira, novembro 15, 2024

Josivaldo e a República

 Josivaldo acordou com o barulho distante de fogos de artifício que explodiam no céu ainda acinzentado do amanhecer. O feriado se anunciava com estardalhaço, mas para ele, o dia era apenas uma pausa rara no relógio inclemente que regia sua vida. Passara os últimos dias no batente, como sempre, esmagado nas filas do transporte público, preso na rotina que parecia projetada para esgotar o pouco que restava de sua energia. Aos domingos, quando finalmente o calendário lhe concedia a esmola de um dia de "descanso", ele se encontrava de joelhos consertando o que a casa precisasse, ajustando a vida que insistia em desandar. A folga era apenas uma ilusão — um intervalo extenuante para manter em funcionamento uma engrenagem já desgastada.

Hoje, contudo, o cansaço não o deteria. Havia algo diferente no ar, um chamado que ele não podia ignorar. Josivaldo sabia, de algum canto da memória, que “República” significava coisa pública, algo que deveria pertencer a todos e todas. Mas, enquanto se preparava para sair, uma ironia amarga lhe escorria pela mente: se a República era de todos, por que era tão difícil enxergá-la no bairro onde morava? Ali, a realidade não condizia com discursos de igualdade e cidadania; não havia parques, as ruas eram esburacadas, e o transporte era uma roleta russa de atrasos e apertos. Não era à toa que, todos os dias, ele e os seus vizinhos se espremiam como sardinhas para ir ao trabalho — para sustentar uma rotina que o tornava cada vez mais exausto, cada vez mais esvaziado.

Mas hoje não. Hoje ele iria à rua, cansado e tudo, para se somar à multidão que reivindicaria o fim da jornada de trabalho 6x1, uma jornada que ele conhecia bem demais. Havia anos que seu corpo era sugado, semana após semana, deixando-lhe apenas cansaço e uma vontade latente de se insurgir. Sentia, nas horas extras que se acumulavam como um fardo invisível sobre seus ombros, o peso de um sistema que parecia criado para espremer até a última gota de suor. E quando não houvesse mais nada a espremer, ele sabia o que acontecia: o sistema simplesmente o descartaria.

Enquanto caminhava pela avenida principal, Josivaldo notou que as ruas estavam mais cheias do que o habitual para aquele horário. O som de tambores e palavras de ordem se misturava ao ar, e, por um momento, ele sentiu algo que quase havia esquecido: esperança. Lá estavam eles, os rostos anônimos, gente como ele, que deixara para trás o cansaço, as contas atrasadas, a rotina esmagadora, para estar ali. O som das palavras de ordem pulsava em seu peito como um segundo coração, revigorando-o a cada passo que dava em direção ao centro do protesto.

O cheiro de pipoca, churrasquinho e fumaça se espalhava no ar, criando um contraste quase grotesco com a seriedade das pautas que enchiam as faixas e cartazes. "Trabalho para viver, não para morrer", "Chega de escravidão moderna", "Queremos vida, não só sobrevivência". Josivaldo sentiu uma espécie de alegria crua ao ver aquelas palavras estampadas em letras vermelhas. Ele não estava só; sua dor era a dor de tantos outros.

Quando finalmente se aproximou do núcleo da manifestação, uma energia elétrica percorria o espaço, como se a própria rua estivesse viva, pulsando junto com aqueles que a ocupavam. Havia gente de todas as idades, mães com filhos no colo, jovens de rostos pintados, idosos que empunhavam bandeiras desbotadas pelo tempo. Josivaldo se permitiu sorrir, uma ruga nova se formando no canto dos lábios enquanto ele erguia o punho em uníssono com os demais. Ali, entre estranhos, ele encontrara algo que quase havia esquecido: pertencimento.

De repente Josivaldo, tomado pela emoção daquela energia da multidão, paralisa. Para enquanto o grupo segue em caminhada. Um vislumbre de futuro, as imagens de seu cotidiano martelando sua cabeça, ele não sabe explicar a paralisia. Mas então, um braço forte o segurou. Era um jovem, rosto coberto por um pano, olhos determinados.

— Vamos, companheiro! Não desiste agora!

E, com um puxão decidido, o jovem o colocou em movimento outra vez. Josivaldo arfava, mas continuava caminhando... O sol brilhou em seus rostos, como se os saudasse por sua resistência. Só aí olhou para o lado e se dirigiu ao jovem:

— Obrigado, meu irmão... — murmurou Josivaldo, apertando a mão do jovem.

— A luta é nossa, companheiro. 

E, mesmo exausto, mesmo sabendo que a vitória ainda parecia distante, Josivaldo sentiu algo dentro dele reacender. Naquele feriado, ele havia descoberto que sua vida não era só a repetição exaustiva de dias sem fim. Ele podia, mesmo que por um instante, sentir-se dono da própria existência. A República, afinal, ainda poderia ser de todos.

domingo, novembro 10, 2024

A cultura de um tempo fluido

 

Adailtom Alves Teixeira[1]

Se como seres humanos somos o resultado cultural de onde fomos socializados (Laraia, 2005), em um mundo globalizado, integrado por um único modo de produção que regula nossas vidas, somos todos/as afetados e formados (postos na forma) por esse tempo e sistema do qual não temos como nos desvincularmos. Mesmo a crítica ou oposição, é feita a partir de um ponto de vista de dentro. Como alerta Terry Eagleton: “Cultura é uma dessas raras ideias que têm sido tão essenciais para a esquerda política quantos são vitais para a direita [...]” (2005, p. 11). Mas nosso ponto aqui será as mudanças profundas realizadas pelo capitalismo tardio.    

Tanto Zygmunt Bauman em Vidas Desperdiçadas (2005), como Richard Sennett em A Cultura do Novo Capitalismo (2006), apresentam uma crítica contundente à forma como a sociedade contemporânea foi moldada pelo capitalismo tardio. Ao abordar a fluidez e a volatilidade que caracterizam a modernidade atual, eles destacam como as mudanças no trabalho, no chamado “talento” e no consumo afetaram profundamente a vida humana. Essa transformação cultural, segundo ambos os autores, não trouxe a tão prometida e propagandeada liberdade, mas, ao contrário, aprisionou os indivíduos em novas formas de insegurança, precariedade e alienação.

Sennett descreve como a aceleração do tempo se tornou uma característica central da vida moderna. Na cultura capitalista contemporânea, o tempo não é apenas um recurso, mas um campo de batalha onde todos lutam para não ficarem para trás. A lógica de mercado demanda que os trabalhadores migrem constantemente de uma tarefa para outra, de um emprego para outro, de um lugar para outro. O "ideal do artesanato", que valorizava a dedicação e o aprofundamento em uma habilidade específica, foi relegado ao passado. Para Bauman, esse deslocamento contínuo reflete a liquidez da modernidade, pois nesse nosso tempo tudo é transitório e descartável, inclusive as pessoas.

O tempo, que antes oferecia um senso de continuidade e planejamento (como nas carreiras lineares do passado), tornou-se uma série de momentos fragmentados, em que a acumulação de experiência ou conhecimento a longo prazo é desvalorizada. O trabalhador deve ser flexível, capaz de se adaptar rapidamente a novas demandas. Nesse cenário, a estabilidade e a profundidade dão lugar à superficialidade e ao imediatismo.

A Crise do Artesanal

Para Sennett, o novo capitalismo destrói o ideal do trabalho artesanal. Fazer algo bem feito, simplesmente pelo prazer de fazê-lo, perdeu sentido em um contexto onde o que importa é a capacidade de executar múltiplas tarefas, muitas vezes desconectadas entre si. “A especialização profunda é substituída pela "portabilidade de habilidades”, valorizando-se profissionais que podem ser deslocados para diferentes funções sem muita preparação.

Bauman complementa essa análise ao mostrar que, em um mundo governado pela lógica do consumo, o valor do trabalho está atrelado à sua utilidade imediata e descartabilidade. Se no passado havia um vínculo entre a identidade do trabalhador e o seu ofício, hoje, essa relação é fragmentada. Os trabalhadores tornaram-se meras engrenagens, peças substituíveis, sempre à mercê das demandas do mercado.

Daí a chamada modernidade líquida de Bauman, enfatizar o conceito de "vidas desperdiçadas" ou refugos humanos. A aceleração do tempo e a superficialidade no trabalho levam a um aumento no número de indivíduos considerados descartáveis, ou como chamou Fernando Henrique Cardoso, "inimpregáveis" – pessoas que, devido à sua idade, falta de qualificação ou até mesmo obsolescência tecnológica, são descartadas pelo sistema. Sennett reforça essa ideia ao observar que a lógica do capital privilegia o jovem, flexível e barato, enquanto os mais velhos, com suas habilidades que se tornam obsoletas rapidamente, são deixados de lado.

O medo de se tornar supérfluo, redundante, isto é, refugo humano, assombra os trabalhadores, que precisam constantemente requalificar-se para se manterem relevantes. A incerteza e o medo se tornam os novos motores de uma economia que demanda eficiência e lucratividade instantâneas. Desse modo, a criação de espantalhos é outro aspecto desse problema, isto é, o outro, sobretudo o imigrante para as economias desenvolvidas, passa a ser o inimigo de plantão.

Uma política para ser consumida

Sennett também explora como o consumo permeia não apenas o mercado, mas todas as esferas da vida, incluindo a política. Os cidadãos são tratados como consumidores, cuja insatisfação é capitalizada para gerar lucros e manipular o mercado político. Bauman identifica esse fenômeno como uma alienação extrema, onde até mesmo os desejos e as aspirações das pessoas são moldados por uma lógica consumista. A política torna-se um produto, com plataformas que mais se assemelham a estratégias de marketing do que a ideais de transformação social. Conforme salienta Sennett, cinco aspectos afastam o consumidor-espectador-cidadão da política progressista: ele é

[...] (1) convidado a aprovar plataformas políticas que mais parecem plataformas de produtos e (2) diferenças laminadas a ouro; (3) convidado a esquecer a “retorcida madeira humana” (como se referia a nós Immanuel Kant) e (4) dar crédito a políticas de mais fácil utilização; (5) aceitar constantemente novos produtos políticos em oferta (2006, p. 148).

 

Nesse contexto, o engajamento político autêntico é corroído, pois os cidadãos-consumidores tornam-se passivos, movidos mais pelo desejo de satisfação imediata do que pela reflexão crítica. A democracia, assim, é simplificada e diluída, transformando-se em um espetáculo onde a participação se resume a um "comprar" simbólico de ideias políticas, muitas vezes já mastigadas e pré-formatadas para fácil digestão.

Uma falsa liberdade para consumo

Os defensores do novo capitalismo argumentam que ele oferece maior liberdade, mas tanto Bauman quanto Sennett discordam. A liberdade prometida é ilusória: em vez de promover uma autonomia real, ela aprisiona os indivíduos em um ciclo constante de consumo e atualização. A liberdade de escolha, evidentemente, é superficial, pois, na prática, as opções são limitadas às mercadorias e às experiências oferecidas pelo mercado, seja ele de um novo governo, seja de um novo mundo.

A "paixão consumptiva", como Sennett descreve, reflete a necessidade constante de buscar algo novo, mesmo que esse algo não satisfaça plenamente. No entanto, essa busca constante é, paradoxalmente, uma fonte de alienação e solidão. A frustração gerada pela insaciabilidade do consumo é frequentemente canalizada para o campo político, criando um ambiente onde o populismo e as respostas simplistas ganham força.

Considerações finais

A reflexão sobre a cultura no capitalismo contemporâneo, a partir de Bauman e Sennett, revela um cenário sombrio: um mundo onde o tempo é acelerado, o talento é descartável, e o consumo se tornou o único paradigma válido. A promessa de liberdade e progresso se desfaz diante de uma realidade em que os indivíduos são constantemente substituídos, descartados e manipulados. Assim, o capitalismo tardio não trouxe a liberdade que prometia, mas sim uma sociedade mais fragmentada, onde as vidas são desperdiçadas em nome de um progresso que serve apenas a uma elite cada vez mais rica. Kohei Saito em O capital no antropoceno afirma que “[...] que os 26 capitalistas mais ricos do mundo controlam tanta riqueza quanto os 3,8 bilhões mais pobres (aproximadamente metade da população mundial)” (2024, p. 143).

Medo, por rumarmos ao desconhecido e por estarmos pressionados pelo iminente descarte, nos sobra a ânsia de mergulhar cada vez mais fundo no mundo das mercadorias, seja ela reais ou simbólicas:

Em suma, as mercadorias encarnam a derradeira falta de razão e a capacidade que as escolhas têm de serem revogáveis, assim como a extrema descartabilidade dos objetos escolhidos. Mais importante ainda, parecem colocar-nos no controle. Somos nós, os consumidores, que traçamos a linha divisória entre o útil e o refugo. Tendo por parceiras as mercadorias, podemos deixar de nos preocuparmos em terminar na lata de lixo (Bauman, 2005, p. 161).

 

Ao final, se temos todos/as nos tornado meros consumidores/as, resta-nos a pergunta: é possível resgatar um sentido de pertencimento e propósito em um mundo que valoriza mais o efêmero do que o duradouro? Teremos capacidade de realizarmos as mudanças necessárias? Fato é que é mais que necessário repensar radicalmente as estruturas que regem nossas vidas, antes que nos tornemos, todos, meros consumidores em um espetáculo sem fim.

 

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. Trad.: Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

EAGLETON, Terry. A ideia de cultura. Trad.: Sandra Castello Branco. São Paulo: EdUnesp, 2005.

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 18ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

SAITO, Kohei. O capital no antropoceno. Trad.: Caroline M. Gomes. São Paulo: Boitempo, 2024.

SENNETT, Richard. A cultura do novo capitalismo. Trad.: Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2006.



[1] Professor adjunto da Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Doutor e Mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp); graduado em História; autor dos livros Circo Teatro Palombar: somos periferia; potência criativa (Fala, 2024), Teatro de rua: identidade, território (Giostri, 2020) e coorganizador de Paky`op: experiência, travessias, práxis cênica e docência em teatro (Edufro, 2022).