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sábado, abril 25, 2026

O PONTO DE ÔNIBUS

 

ELA (Sentada, enquanto aguarda; cantarola algo que parece não ter começo nem fim).

ELE (Chega, observa ao redor como quem procura algo invisível; olha para ela; ela esboça certo receio) – Boa tarde!

ELA (Meneia a cabeça, quase imperceptível) – Tarde.

ELE – A senhora sabe se aqui passa o 65?

ELA – Oi?

ELE – O 65. Ele costuma atrasar quando chove vento.

ELA – Quando chove… vento?

ELE – Sim. É mais fino que a chuva, mas molha por dentro.

ELA – 65… não me lembro. Pra onde ele vai?

ELE – Para a lua. Mas só até a metade. Depois é integração.

ELA (Esboça um sorriso desconfiado) – Integração com o quê?

ELE – Com o silêncio. De lá, cada um segue como pode.

Pausa. Um carro passa, mas não há rua.

ELA – Creio que aqui não passa, não.

ELE – Tem certeza? Ontem ele passou duas vezes e não levou ninguém.

ELA – Talvez ninguém quisesse ir.

ELE – Ou talvez ninguém tivesse voltado pra contar.

Silêncio. ELA observa o horizonte como se ele estivesse muito perto.

ELA – O senhor está esperando há muito tempo?

ELE – Desde amanhã.

ELA – Entendo… (Pausa) Quer dizer, não entendo, mas aceito.

ELE – É o que todos fazem. Aceitam primeiro, entendem nunca.

Um vento leve. ELE segura algo invisível para não deixar cair.

ELA – O que foi?

ELE – Quase perdi meu lugar na fila.

ELA – Mas não tem fila.

ELE – Justamente por isso é perigoso.

Pausa longa. ELA levanta-se devagar.

ELE – Ué, a senhora não vai esperar o ônibus?

ELA – Lembrei que o meu não passa aqui.

ELE – E pra onde a senhora vai?

ELA – Vou pra Marte. Dizem que lá os ônibus chegam antes das pessoas.

ELE – Faz sentido. Aqui, às vezes, as pessoas chegam depois que já foram.

ELA começa a sair.

ELE – E qual o número do seu?

ELA (Sem olhar para trás) – Não tem número. Só direção.

ELE – Isso é complicado…

ELA – Nem tanto. Complicado é saber se a gente quer chegar.

Pausa. ELE pensa. Olha ao redor.

ELE – A senhora sabe se aqui passa alguém?

ELA já não está mais. O ponto permanece. Um silêncio que parece anunciar algo.)

ELE (Senta-se no lugar onde ela estava) – Boa tarde… alguém?

 

terça-feira, abril 21, 2026

Aprendizagem das águas

 

As águas, em seus fluxos persistentes, guardam modos de ensinar que escapam à pressa do mundo contemporâneo. Entre o gesto artístico e a escuta ancestral, este texto aproxima experiências distintas do teatro e dos saberes indígenas, de modo a refletir sobre forma, essência e movimento. Evoco três mestres e três modos de ver um mesmo elemento: a água, que se adapta sem perder sua natureza.

Há alguns anos, eu estava apresentando em um festival de teatro. O espaço era uma grande arena, nos moldes gregos, com capacidade para milhares de pessoas. Seríamos (pois se tratava do coletivo do qual eu fazia parte) a última apresentação da noite, encerrando a programação. Estávamos todos preocupados, e eu, particularmente, ainda mais apreensivo.

Manifestei essa inquietação a um dos nossos mestres do teatro, Amir Haddad, que também participava do festival como convidado. Ele me olhou e disse algo mais ou menos nestes termos: imagine que o conteúdo do seu espetáculo é a água dentro de um balde; o balde é a forma atual. Porém, quando você esparramar essa água no espaço, naquela arena, ela não deixará de ser água. Seu conteúdo continuará a comunicar. Portanto, esparrame-o nesse espaço. A forma pode mudar, mas a essência permanece.

Ontem, no programa Roda Viva[1], Daniel Munduruku contou uma história vivida com seu avô. Como relatou, em conflito com a vida urbana, Daniel se sentia angustiado. Certo dia, já na aldeia, o avô, percebendo seu estado, chamou-o para um banho em uma queda d’água. Pediu que o neto escutasse o rio. Ele obedeceu, mas, depois de muito tentar, disse que nada havia escutado. O avô insistiu: o rio falou, sim; o neto não escutou porque estava muito cheio, e quando estamos assim, só ouvimos as vozes de nossa própria cabeça.

O avô então prosseguiu: o rio não reclama, ele segue seu curso. Quando encontra um obstáculo, passa por cima, por baixo, pelo lado; encontra um jeito, pois não pode parar de correr. Um rio que não corre apodrece, perde sua vitalidade. Ele precisa continuar, porque tem uma missão a cumprir: mergulhar no mar. Há, nessa imagem, uma ética do movimento e da persistência, uma sabedoria antiga em que precisamos mergulhar.

Ailton Krenak, outro pensador e liderança indígena, ao se referir ao Rio Doce, em Minas Gerais, o nomeia como Watu, que, em sua língua, significa “avô”. Ele lembra que, para o povo Krenak, o rio não é apenas um recurso natural, mas um ente vivo, ancestral. Portanto, parte da família, digno de respeito e proteção. Na cosmologia Krenak, como em muitos outros povos originários, a natureza tem nome, tem espírito, é familiar; por isso, é possível dialogarmos com esses entes.

É por meio do seu avô, o rio, que se reafirma o vínculo com a ancestralidade e com o próprio povo. Desse modo, Ailton Krenak contrapõe a ideia de que o rio, e outros elementos naturais, sejam apenas recursos à nossa disposição, prontos para exploração. Ao contrário, são presenças com as quais nos relacionamos. Não por acaso, ele abre seu livro Futuro ancestral (Companhia das Letras, 2022) com o seguinte chamado-alerta: “Os rios, esses seres que sempre habitaram os mundos em diferentes formas, são quem me sugerem que, se há futuro a ser cogitado, esse futuro é ancestral, porque já estava aqui”.



[1] O programa completo pode ser assistido no YouTube, disponível em: https://www.youtube.com/live/dXb9i01WKhQ?si=3RL5k2z_0NOs6Yrm.

domingo, abril 12, 2026

livre-pensar


estudar é lento espinho e flor
tece crítica, liberdade, dor
quanto mais se ergue o pensar
mais se aprende a solidão habitar
chamam-te estranho, sábio vão
porque preferem a servidão
crêem antes de indagar
algoritmos vêm para apertar
por que, livres, calçamos pés alheios
se o pensamento nos faz inteiros?

sexta-feira, abril 03, 2026

cada dia...

cada dia que passa
diminuem as certezas
somam-se as dúvidas
mas é preciso seguir
dividindo as dores
multiplicando afetos

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

A luta vã da escrita

 Carlos Drummond de Andrade, em seu poema O lutador, abre a escrita afirmando que apesar da luta ser vã, mal raia o dia e já se debate com as palavras. Carrego essa imagem como um espelho do momento em que vivo: há três anos me debato com um pequeno livro — pequeno aí talvez tenha muitas dimensões e significados, muitas camadas de sentido. É um livro que me atravessa. Não sei se o livro nascerá, mas o desejo de trazê-lo à luz persiste, como se existisse em alguma zona escura dentro de mim, guardando temas que ainda não compreendo totalmente.

O destino pareceu contrariar ou alertar acerca do projeto quando perdi quase tudo em uma pane no computador. Restaram poucos arquivos, salvos nas nuvens — essas estruturas invisíveis, sustentadas por máquinas e que bebe muitos recursos naturais, mas distantes da nossa percepção cotidiana. Mas o livro mesmo, daquela versão tudo se perdeu. Era já o segundo rascunho, e a perda teve gosto de recomeço forçado, quase como se o texto pedisse outra forma de existir.

Retomei porque a origem dele nunca esteve no digital. A primeira escrita foi à mão. Ainda tenho o caderno: páginas de palavras empilhadas, rápidas anotações... Há algo de orgânico nisso, como se o pensamento deixasse rastros físicos. Voltar ao caderno foi voltar ao impulso inicial, ao momento em que a história ainda não tinha medo de ser imperfeita (nenhum escritor deveria ter medo da imperfeição, afinal, estamos fatalmente condenados).

É um livro profundamente pessoal, mas atravessado pela imaginação, pela invenção. Aproximo-me da autoficção, ainda que desconfie dos rótulos, mas é a “moda” vigente. Talvez toda escrita carregue fragmentos de quem escreve, mesmo quando disfarçados pela fantasia. Tenho evitado ler autores do momento nesse campo, especialmente os franceses, talvez por cautela. Sei que sou permeável às vozes alheias, e agora preciso ouvir a minha até o fim.

Talvez demore. Quiçá, quando terminar (se terminar), o mundo já tenha mudado de interesse e autoficção seja apenas uma lembrança... Ainda assim, escreverei como um gesto de minha permanência, uma tentativa de existir além do silêncio do que vivi. Do que será real disso tudo? Quem sabe, já que tudo que é recontado carrega muito de invento e devaneio.

quinta-feira, janeiro 22, 2026

VIVER-MORRER

 

          Disse Utnapishtim:

Nada permanece. Será que construímos uma casa para ficar para sempre, será que selamos um contrato para que valha em todos os tempos? Dividem os irmãos uma para guardarem para sempre, perdurará o tempo da inundação dos rios? Só a crisálida da libélula é que solta a sua larva e vê o sol na sua glória. Desde os dias antigos que nada permanece. Que semelhantes são aos mortos os que dormem – são como uma morte pintada!

Gilgamesh – Épico sumério

Nascer é lançar-se a um abismo desconhecido, abrir-se à morte que caminha conosco. Cada dia vivido aproxima o fim, mas também amplia a experiência. Sobrevivemos por meio dos filhos, das obras, dos gestos que permanecem como memória compartilhada. Morrer cedo pode parecer um bem, fuga do desgaste, contudo viver é precioso justamente por ser transitório. A vida, incógnita radical, nos joga no reino das possibilidades e da escolha. Por isso, diariamente, devemos penetrar o mundo com sensibilidade, pensá-lo com cuidado, agir com responsabilidade, sabendo que tudo passa, mas nada vivido é inútil, quando lembrado, partilhado, assumido, sentido, narrado com verdade.

sexta-feira, janeiro 16, 2026

CORAGEM

 

O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

João Guimarães Rosa

 

Enfrentar nossos medos é um ato de coragem. O medo pode ser de vários tamanhos para quem o ver de fora, mas quem o vivencia, apesar de diversos, parece ter o mesmo tamanho. Pegar um ônibus sozinho, entrar em uma briga, sair finalmente de casa, mudar de cidade, no intuito de construir sua vida...

Toda mudança, por exemplo, requer coragem. Mudar de trabalho, de cidade, finalizar uma relação, nada disso é fácil, pois tirar de nossa frente o que estamos habituados, acostumados, não é fácil, já que é sempre um mergulho no desconhecido. Dará certo? Seremos felizes?

A  vida, no entanto, é mudança constante, movimento. Nada permanece como está, ainda que na aparência tudo “pareça” igual. Interno e externamente estamos em permanente mudança, então que ouçamos Guimarães Rosa, pois a vida sempre nos pede coragem. E como estamos em início de novo ciclo, começo de ano, tempo de realizarmos planos, que tenhamos a coragem de enfrentar o que nos desafia.

sábado, dezembro 13, 2025

Semeador

 

Eduardo era um homem de quarenta e poucos anos, com um emprego razoável que lhe proporcionava o suficiente para viver bem, mas não o suficiente para se considerar de fato alguém privilegiado. Com um ciclo de amizades diversificado, suas conversas eram também diversas: política, literatura, filosofia. As conversas eram recheadas de uma profundidade que surpreendia todos à sua volta. O que mais intrigava as pessoas era a variedade de suas falas, que carregavam uma lógica e embasamento, então se perguntavam, sem nunca conseguirem encontrar uma resposta lógica, “de onde ele tirava todo aquele saber?” Não havia se quer indício de que fosse um aficionado pela internet, embora a utilizasse.

À primeira vista, Eduardo parecia ser o tipo de pessoa que se conformava com a rotina, com um estilo de vida sem grandes mudanças, mas que, ao mesmo tempo, possuía algo diferente, algo que o tornava especial. Seu olhar era atento, seus gestos calculados, e suas palavras, sempre certeiras. Ele era uma pessoa que, mesmo não aparentando, era um grande leitor, daqueles sempre atentos às novidades literárias e científicas.

Mas sua casa era vazia de livros. Isso intrigava seu círculo de amizade. Os móveis, embora simples e bem arrumados, não guardavam o cheiro característico de um lar de leitores. Às vezes viam um único volume jogado de forma um tanto desleixada em algum móvel da casa, mas se alguém o folheasse, perceberia que era um livro já lido e rabiscado à mão. A ausência de livros, embora não seja a única maneira de adquirir conhecimento, realmente causava estranheza ao perceber a solidez argumentativa de Eduardo.

"Ele deve ter uma biblioteca em outro lugar da casa", pensava uma amiga de longa data. "Mas onde, se conheço todos os cômodos? E por que alguém esconderia uma biblioteca?"

Ninguém sabia. Nenhuma pista óbvia surgia. E quando perguntavam diretamente para ele, logo desconversava e mudavam de assunto.

A verdade estava em outro lugar. De fato, Eduardo era um excelente leitor, aliás, nada comum. Os livros não serviam para acumular prateleiras e mais prateleiras de conhecimento. Ele havia estabelecido certa missão para si, pouco visível, mas que via como transformadora – se não fosse transformadora do mundo era para ele mesmo, pois o levava ao desapego e um trabalho constante de sua memória: Eduardo era um semeador.

Pensava consigo que conhecimento não estava em acumular livros ou em exibi-los, mas em espalhá-los. Tornou-se um jardineiro de palavras, lançando sementes por onde passava. Cada livro lido era uma semente que ele deixava cair em algum ponto, para quem sabe, dali nascer um novo leitor. Cada semente jogada era um salto no vazio, um salto às cegas, um gesto tateante, porém, estratégico, afinal nem toda semente plantada será uma árvore frondosa. Mas sabia que para colher o saber, era preciso apostar, vai que o gesto semanalmente repetido não só colhesse leitores, mas também novos semeadores.

Assim, sempre que terminava de ler um livro, Eduardo fazia questão de não guardá-lo na estante. Deixava-o. Em uma praça movimentada, sobre um banco qualquer, onde um passageiro de metrô poderia dar uma olhada, em um ônibus, um uber, num café, qualquer lugar onde o livro pudesse ser deixado de lado, como um presente anônimo, uma mensagem a ser lida por quem se sentisse atraído por suas páginas. Pouco importava quem seria e mesmo se leria... procurava não pensar muito sobre isso, afinal livros foram feitos para serem lidos.

Aos olhos de seus amigos, Eduardo parecia ser um autodidata que absorvia tudo a seu redor – embora soubessem de sua graduação em economia –, mas seria suficiente, se perguntavam. Mas ele colhia conhecimento, absorvia e depois jogava as sementes por toda a cidade. Ele não tinha medo de que seus livros pudessem cair nas mãos de alguém que não soubesse aproveitar. Seguia firme na sua ação, pequena, tinha consciência, mas acreditava que o primeiro passo de tudo é tornar acessível, por isso acreditava que a distribuição era importante, muito mais do que acumular tais objetos para si.

Os amigos seguiam desconfiados. Certa vez, durante um jantar, alguém comentou sobre um livro de filosofia que estava na moda. Eduardo, com um sorriso discreto, comentou sobre as ideias daquele pensador como se tivesse sido seu aluno. O grupo se espantou. Foi Luana quem perguntou, misto de curiosidade e espanto: "Você tem tantos livros na cabeça, Eduardo. Como você consegue?"

Ele deu um gole no vinho e olhou para os amigos, respondeu que os semeava.

A resposta soou enigmática. Todos riram, imaginando tratar-se de ironia, quando era, na verdade uma metáfora da sua ação. Eduardo sabia o que estava dizendo.

No dia seguinte, Eduardo estava no centro da cidade, com um movimento quase imperceptível, retirou de sua mochila um livro de poesia. Ele olhou para os lados, e, com um gesto tranquilo, deixou o livro em um banco de praça, antes de continuar seu caminho, como se nada tivesse acontecido. E ali, naquele banco da praça, o livro ficou a esperar o próximo leitor que o encontrasse... Eduardo e o futuro leito nunca se encontrariam, mas alguma conexão seria criada entre eles.

domingo, dezembro 07, 2025

BRECHA


A região era um enclave estreito e abrupto, encravado entre montes que pareciam ter sido empilhados às pressas pelos deuses. As encostas, eram íngremes e pedregosas, formavam caminhos tortuosos que serpenteavam como cicatrizes antigas. Pequenos terraços cultivados se equilibravam nos barrancos, sustentados por muros de pedras empilhadas à mão. Tudo a seu tempo era intenso: o calor, o vento, o frio, a chuva. No centro de tudo erguia-se a Montanha do Meio. Não era a maior ou a mais bela, mas lançava sua sombra diária sobre o povoado espremido abaixo, moldando suas rotinas, superstições e, mais tarde, seu destino.

Por não recorrerem a calendários, ninguém sabia exatamente quando começou. O fato é que tudo se originara de uma trivialidade tão pequena, tão ridícula, que qualquer registro pareceria uma piada. A Montanha do Meio, um afloramento de pedra cinzenta entre dois vales apertados, projetava uma sombra irregular sobre o chão ao amanhecer. E era essa sombra, apenas isso, que estava no centro da discórdia. A humanidade tem tido a capacidade de, ao longo de sua história, cair na armadilha de se autodestruir por pequenas banalidades. Coisas insignificantes, mas que captadas por imagens de prestígio ou poder, leva à perdição.

A região era um fiapo de mundo comprimido entre penhascos: meia dúzia de casas espremidas, hortas que mal se equilibravam no desnível, rios ou fios d`água que corriam montanha abaixo com sua pressa habitual. Ali vivia a Comunidade da Serra, gente acostumada a dividir o pouco e a rir do próprio azar. Certo dia, no entanto, por puro capricho da vida ou de algum deus cultuado por aquela gente, a sombra da Montanha do Meio avançou alguns passos a mais sobre o terreno do senhor Mirta. E isso bastou.

— A sombra é minha, sempre foi — assim disse ele. E emendou: Foi assim no tempo do meu pai.

— A sombra não tem dono — retrucou seu vizinho, Raul —, e mesmo que tivesse, caiu hoje no meu terreno. É o que vale. Não se pode controla-la, pois como temos observado ao longo dos tempos, ela muda. Só o sol sabe e a montanha saberá.

A discussão espalhou-se como fumaça, ardendo olhos e corações. Primeiro vieram as risadas, depois as zombarias, depois as tentativas de mediação. Mas cada pessoa que se metia no assunto passava a defender um lado. Será que os homens se cansam da monotonia e por isso buscam aventuras? Pode ser, mas deveriam lembrar que quase sempre há violência no final. Era vida espremida, mas em harmonia. Assim, aquela disputa foi só um pretexto que incendiou o lugar.

Em pouco tempo, dividiram-se em dois grupos: Os Donos da Sombra e Os Guardiões do Sol. Os nomes começaram como chacota, mas rapidamente ganharam peso, bandeiras improvisadas, slogans, músicas. Uma verdadeira disputa de mentes e corações instalou-se pela região. Os Donos da Sombra diziam que a estabilidade vinha do passado, e que a sombra simbolizava tradição. Os Guardiões do Sol afirmavam que o futuro só poderia existir onde a luz tocava o chão.

E assim, por causa de um retalho escuro sobre o solo, ergueram-se paliçadas, cavaram trincheiras, esconderam ferramentas que antes eram de uso comum. A violência surgiu como um tropeço: primeiro uma pedrada, depois um empurrão, mais tarde uma casa incendiada, um corpo esquecido no desfiladeiro.

As crianças passaram a aprender a ignorar e esnobar seus vizinhos, depois aos insultos, tudo isso antes mesmo de aprender a ler. As festas comuns desapareceram. Os casamentos entre as duas comunidades foram proibidos e aqueles que já viviam nesse tipo de união passaram a ser ignorados ou hostilizados pelos dois lados; era preciso ter lado a qualquer custo. Qualquer tentativa de reconciliação era vista como traição. A Montanha do Meio, silenciosa e indiferente, continuava lançando sua sombra sobre o vale, às vezes maior, às vezes menor, sempre mudando, como tem sido o movimento da vida natural e, desse modo, ignorava por completo o destino daquelas pessoas.

A guerra tornou-se permanente. Não havia batalhas grandiosas, apenas emboscadas contínuas, agressões permanentes e volta e meia, uma morte que alimentava a continuidade daquele absurdo. Era uma guerra que não cabia nos mapas, pois acontecia em pedaços ínfimos de terra, em olhos semicerrados, em pequenas vinganças acumuladas. O passado de harmonia foi sendo esquecido. Ninguém teve a capacidade de perguntar em alto e bom som:

— Mas por que estamos lutando mesmo?

Ninguém. A memória é sempre seletiva, por isso é importante cuidá-la, alimentá-la, pois um lapso e ela pode se perder. Foi assim que uma simples sombra instalou a cizânia naquela região. Na verdade, a sombra foi apenas o pequeno motivo para um coração mal cuidado, de uma raiva casual transformou-se em obsessão de poder. Assim, todos que viviam na Comunidade da Serra sabiam que o inimigo estava do outro lado, e que desistir daquela disputa, seria perder.

A sombra, alheia, seguia seu percurso diário. A cada manhã, estendia-se sobre o terreno de um, de outro, de ninguém. A guerra, ao contrário, permanecia imóvel, como uma pedra cravada no peito de cada habitante e que estranhamente, alimentada pelo ódio, crescia tomando todo o corpo daquela gente.

terça-feira, dezembro 02, 2025

Dezembro

 Chegou dezembro, o mundo gira e se enfeita,

as luzes dançam e o cansaço espreita;

o ano termina, mas a vida insiste em dizer

que todo fim é só um novo jeito de viver.


Velhas promessas em roupa de esperança,

a gente jura mudar — como quem dança;

mas no fundo sabe: o tempo é um espelho

devolve o que somos, sem brilho no conselho.


Família reunida, mesa cheia, ritual sagrado,

repete-se a cena, e no coração se escreve

entre risos, memórias e um gole exagerado:

dezembro outra vez, que ano cagado!