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sábado, dezembro 13, 2025

Semeador

 

Eduardo era um homem de quarenta e poucos anos, com um emprego razoável que lhe proporcionava o suficiente para viver bem, mas não o suficiente para se considerar de fato alguém privilegiado. Com um ciclo de amizades diversificado, suas conversas eram também diversas: política, literatura, filosofia. As conversas eram recheadas de uma profundidade que surpreendia todos à sua volta. O que mais intrigava as pessoas era a variedade de suas falas, que carregavam uma lógica e embasamento, então se perguntavam, sem nunca conseguirem encontrar uma resposta lógica, “de onde ele tirava todo aquele saber?” Não havia se quer indício de que fosse um aficionado pela internet, embora a utilizasse.

À primeira vista, Eduardo parecia ser o tipo de pessoa que se conformava com a rotina, com um estilo de vida sem grandes mudanças, mas que, ao mesmo tempo, possuía algo diferente, algo que o tornava especial. Seu olhar era atento, seus gestos calculados, e suas palavras, sempre certeiras. Ele era uma pessoa que, mesmo não aparentando, era um grande leitor, daqueles sempre atentos às novidades literárias e científicas.

Mas sua casa era vazia de livros. Isso intrigava seu círculo de amizade. Os móveis, embora simples e bem arrumados, não guardavam o cheiro característico de um lar de leitores. Às vezes viam um único volume jogado de forma um tanto desleixada em algum móvel da casa, mas se alguém o folheasse, perceberia que era um livro já lido e rabiscado à mão. A ausência de livros, embora não seja a única maneira de adquirir conhecimento, realmente causava estranheza ao perceber a solidez argumentativa de Eduardo.

"Ele deve ter uma biblioteca em outro lugar da casa", pensava uma amiga de longa data. "Mas onde, se conheço todos os cômodos? E por que alguém esconderia uma biblioteca?"

Ninguém sabia. Nenhuma pista óbvia surgia. E quando perguntavam diretamente para ele, logo desconversava e mudavam de assunto.

A verdade estava em outro lugar. De fato, Eduardo era um excelente leitor, aliás, nada comum. Os livros não serviam para acumular prateleiras e mais prateleiras de conhecimento. Ele havia estabelecido certa missão para si, pouco visível, mas que via como transformadora – se não fosse transformadora do mundo era para ele mesmo, pois o levava ao desapego e um trabalho constante de sua memória: Eduardo era um semeador.

Pensava consigo que conhecimento não estava em acumular livros ou em exibi-los, mas em espalhá-los. Tornou-se um jardineiro de palavras, lançando sementes por onde passava. Cada livro lido era uma semente que ele deixava cair em algum ponto, para quem sabe, dali nascer um novo leitor. Cada semente jogada era um salto no vazio, um salto às cegas, um gesto tateante, porém, estratégico, afinal nem toda semente plantada será uma árvore frondosa. Mas sabia que para colher o saber, era preciso apostar, vai que o gesto semanalmente repetido não só colhesse leitores, mas também novos semeadores.

Assim, sempre que terminava de ler um livro, Eduardo fazia questão de não guardá-lo na estante. Deixava-o. Em uma praça movimentada, sobre um banco qualquer, onde um passageiro de metrô poderia dar uma olhada, em um ônibus, um uber, num café, qualquer lugar onde o livro pudesse ser deixado de lado, como um presente anônimo, uma mensagem a ser lida por quem se sentisse atraído por suas páginas. Pouco importava quem seria e mesmo se leria... procurava não pensar muito sobre isso, afinal livros foram feitos para serem lidos.

Aos olhos de seus amigos, Eduardo parecia ser um autodidata que absorvia tudo a seu redor – embora soubessem de sua graduação em economia –, mas seria suficiente, se perguntavam. Mas ele colhia conhecimento, absorvia e depois jogava as sementes por toda a cidade. Ele não tinha medo de que seus livros pudessem cair nas mãos de alguém que não soubesse aproveitar. Seguia firme na sua ação, pequena, tinha consciência, mas acreditava que o primeiro passo de tudo é tornar acessível, por isso acreditava que a distribuição era importante, muito mais do que acumular tais objetos para si.

Os amigos seguiam desconfiados. Certa vez, durante um jantar, alguém comentou sobre um livro de filosofia que estava na moda. Eduardo, com um sorriso discreto, comentou sobre as ideias daquele pensador como se tivesse sido seu aluno. O grupo se espantou. Foi Luana quem perguntou, misto de curiosidade e espanto: "Você tem tantos livros na cabeça, Eduardo. Como você consegue?"

Ele deu um gole no vinho e olhou para os amigos, respondeu que os semeava.

A resposta soou enigmática. Todos riram, imaginando tratar-se de ironia, quando era, na verdade uma metáfora da sua ação. Eduardo sabia o que estava dizendo.

No dia seguinte, Eduardo estava no centro da cidade, com um movimento quase imperceptível, retirou de sua mochila um livro de poesia. Ele olhou para os lados, e, com um gesto tranquilo, deixou o livro em um banco de praça, antes de continuar seu caminho, como se nada tivesse acontecido. E ali, naquele banco da praça, o livro ficou a esperar o próximo leitor que o encontrasse... Eduardo e o futuro leito nunca se encontrariam, mas alguma conexão seria criada entre eles.

domingo, dezembro 07, 2025

BRECHA


A região era um enclave estreito e abrupto, encravado entre montes que pareciam ter sido empilhados às pressas pelos deuses. As encostas, eram íngremes e pedregosas, formavam caminhos tortuosos que serpenteavam como cicatrizes antigas. Pequenos terraços cultivados se equilibravam nos barrancos, sustentados por muros de pedras empilhadas à mão. Tudo a seu tempo era intenso: o calor, o vento, o frio, a chuva. No centro de tudo erguia-se a Montanha do Meio. Não era a maior ou a mais bela, mas lançava sua sombra diária sobre o povoado espremido abaixo, moldando suas rotinas, superstições e, mais tarde, seu destino.

Por não recorrerem a calendários, ninguém sabia exatamente quando começou. O fato é que tudo se originara de uma trivialidade tão pequena, tão ridícula, que qualquer registro pareceria uma piada. A Montanha do Meio, um afloramento de pedra cinzenta entre dois vales apertados, projetava uma sombra irregular sobre o chão ao amanhecer. E era essa sombra, apenas isso, que estava no centro da discórdia. A humanidade tem tido a capacidade de, ao longo de sua história, cair na armadilha de se autodestruir por pequenas banalidades. Coisas insignificantes, mas que captadas por imagens de prestígio ou poder, leva à perdição.

A região era um fiapo de mundo comprimido entre penhascos: meia dúzia de casas espremidas, hortas que mal se equilibravam no desnível, rios ou fios d`água que corriam montanha abaixo com sua pressa habitual. Ali vivia a Comunidade da Serra, gente acostumada a dividir o pouco e a rir do próprio azar. Certo dia, no entanto, por puro capricho da vida ou de algum deus cultuado por aquela gente, a sombra da Montanha do Meio avançou alguns passos a mais sobre o terreno do senhor Mirta. E isso bastou.

— A sombra é minha, sempre foi — assim disse ele. E emendou: Foi assim no tempo do meu pai.

— A sombra não tem dono — retrucou seu vizinho, Raul —, e mesmo que tivesse, caiu hoje no meu terreno. É o que vale. Não se pode controla-la, pois como temos observado ao longo dos tempos, ela muda. Só o sol sabe e a montanha saberá.

A discussão espalhou-se como fumaça, ardendo olhos e corações. Primeiro vieram as risadas, depois as zombarias, depois as tentativas de mediação. Mas cada pessoa que se metia no assunto passava a defender um lado. Será que os homens se cansam da monotonia e por isso buscam aventuras? Pode ser, mas deveriam lembrar que quase sempre há violência no final. Era vida espremida, mas em harmonia. Assim, aquela disputa foi só um pretexto que incendiou o lugar.

Em pouco tempo, dividiram-se em dois grupos: Os Donos da Sombra e Os Guardiões do Sol. Os nomes começaram como chacota, mas rapidamente ganharam peso, bandeiras improvisadas, slogans, músicas. Uma verdadeira disputa de mentes e corações instalou-se pela região. Os Donos da Sombra diziam que a estabilidade vinha do passado, e que a sombra simbolizava tradição. Os Guardiões do Sol afirmavam que o futuro só poderia existir onde a luz tocava o chão.

E assim, por causa de um retalho escuro sobre o solo, ergueram-se paliçadas, cavaram trincheiras, esconderam ferramentas que antes eram de uso comum. A violência surgiu como um tropeço: primeiro uma pedrada, depois um empurrão, mais tarde uma casa incendiada, um corpo esquecido no desfiladeiro.

As crianças passaram a aprender a ignorar e esnobar seus vizinhos, depois aos insultos, tudo isso antes mesmo de aprender a ler. As festas comuns desapareceram. Os casamentos entre as duas comunidades foram proibidos e aqueles que já viviam nesse tipo de união passaram a ser ignorados ou hostilizados pelos dois lados; era preciso ter lado a qualquer custo. Qualquer tentativa de reconciliação era vista como traição. A Montanha do Meio, silenciosa e indiferente, continuava lançando sua sombra sobre o vale, às vezes maior, às vezes menor, sempre mudando, como tem sido o movimento da vida natural e, desse modo, ignorava por completo o destino daquelas pessoas.

A guerra tornou-se permanente. Não havia batalhas grandiosas, apenas emboscadas contínuas, agressões permanentes e volta e meia, uma morte que alimentava a continuidade daquele absurdo. Era uma guerra que não cabia nos mapas, pois acontecia em pedaços ínfimos de terra, em olhos semicerrados, em pequenas vinganças acumuladas. O passado de harmonia foi sendo esquecido. Ninguém teve a capacidade de perguntar em alto e bom som:

— Mas por que estamos lutando mesmo?

Ninguém. A memória é sempre seletiva, por isso é importante cuidá-la, alimentá-la, pois um lapso e ela pode se perder. Foi assim que uma simples sombra instalou a cizânia naquela região. Na verdade, a sombra foi apenas o pequeno motivo para um coração mal cuidado, de uma raiva casual transformou-se em obsessão de poder. Assim, todos que viviam na Comunidade da Serra sabiam que o inimigo estava do outro lado, e que desistir daquela disputa, seria perder.

A sombra, alheia, seguia seu percurso diário. A cada manhã, estendia-se sobre o terreno de um, de outro, de ninguém. A guerra, ao contrário, permanecia imóvel, como uma pedra cravada no peito de cada habitante e que estranhamente, alimentada pelo ódio, crescia tomando todo o corpo daquela gente.

terça-feira, dezembro 02, 2025

Dezembro

 Chegou dezembro, o mundo gira e se enfeita,

as luzes dançam e o cansaço espreita;

o ano termina, mas a vida insiste em dizer

que todo fim é só um novo jeito de viver.


Velhas promessas em roupa de esperança,

a gente jura mudar — como quem dança;

mas no fundo sabe: o tempo é um espelho

devolve o que somos, sem brilho no conselho.


Família reunida, mesa cheia, ritual sagrado,

repete-se a cena, e no coração se escreve

entre risos, memórias e um gole exagerado:

dezembro outra vez, que ano cagado!