Minha memória voa a um tempo de meninez, marcada pelo cheiro e pela imaginação sertaneja. Uma imagem salta:
No dia, o sol, redondo e brabo, esmagava a terra com seu peso de fogo. O céu, largo e azulado, parecia uma tampa de panela sobre o sertão, onde o vento, quando vinha, trazia consigo histórias antigas, murmúrios de almas penadas e o cheiro seco da caatinga. Os homens, de pé no chão rachado, olhavam para o horizonte como se esperassem um milagre, mas o milagre já estava ali, naquela paisagem dura, seca e, contraditoriamente, bela, que só os fortes entendiam. E o rio, minguado e teimoso, seguia seu caminho, cortando a terra como uma faca cega, levando consigo segredos que ninguém jamais desvendaria.
À noite, saudade maior, a roda em volta da fogueira pra se contar histórias. O fogo, ao tempo que espantava as muriçocas, criava máscaras e sombras assustadoras naquelas pessoas, ia calcificando um imaginário atravessado de lobisomens, almas penadas e aventuras reais - tudo era real. Para se proteger, o jeito era grudar na saia da mãe e permanecer colado até ser vencido pelo sono, embalado pelo cheiro de fumaça nas noites do sertão, em uma época sem eletricidade, mas atravessado por imensa energia imaginativa.
Um tempo imaginoso de saudadamor!