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sábado, fevereiro 08, 2025

Imagem da memória


Minha memória voa a um tempo de meninez, marcada pelo cheiro e pela imaginação sertaneja. Uma imagem salta:

No dia, o sol, redondo e brabo, esmagava a terra com seu peso de fogo. O céu, largo e azulado, parecia uma tampa de panela sobre o sertão, onde o vento, quando vinha, trazia consigo histórias antigas, murmúrios de almas penadas e o cheiro seco da caatinga. Os homens, de pé no chão rachado, olhavam para o horizonte como se esperassem um milagre, mas o milagre já estava ali, naquela paisagem dura, seca e, contraditoriamente, bela, que só os fortes entendiam. E o rio, minguado e teimoso, seguia seu caminho, cortando a terra como uma faca cega, levando consigo segredos que ninguém jamais desvendaria.

À noite, saudade maior, a roda em volta da fogueira pra se contar histórias. O fogo, ao tempo que espantava as muriçocas, criava máscaras e sombras assustadoras naquelas pessoas, ia calcificando um imaginário atravessado de lobisomens, almas penadas e aventuras reais - tudo era real. Para se proteger, o jeito era grudar na saia da mãe e permanecer colado até ser vencido pelo sono, embalado pelo cheiro de fumaça nas noites do sertão, em uma época sem eletricidade, mas atravessado por imensa energia imaginativa.

Um tempo imaginoso de saudadamor!

quarta-feira, fevereiro 05, 2025

Rio Madeira

 Dos Andes, ele nasce pequenino,

Depois o Madeira é pujança e canto,
Levando no seu seio o eterno encanto,
Das águas que abraçam seu destino.


Seu curso, outrora livre, era altivo,
Um gigante a cantar seu próprio pranto,
Mas hoje sofre o peso do quebranto,
Do garimpo voraz, da draga, cativo.


As usinas, com suas mãos de aço,
Aprisionam-lhe a alma, a voz, o passo,
E o rio, outrora rei, agora geme.


Que futuro terá essa corrente,
Se a ganância, insistentemente,
Transforma vida em morte e o espreme?