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domingo, outubro 19, 2025

O homem do telhado

Diziam que João era homem de fazer serviço pequeno, mas ninguém sabia ao certo o tamanho do que ele fazia. Arrumava telha, trocava resistência de chuveiro, consertava a fiação que insistia em chiar quando o vento vinha do sul. Dizia que o mundo era cheio de curtos e vazamentos, e que o trabalho dele era remendar o tempo, não as coisas.

Chegava cedo, como quem pede licença ao dia. Trazia nas mãos o peso das ferramentas e no rosto a calma de quem não espera muito, porque já entendeu que o pouco é mais seguro. Na casa de seu Rogério, homem de letras, de livros e de fala demorada, João se demorava também, mas de outro modo: demorava-se nos silêncios, nas observações que nasciam do chão e subiam, lentas, até o pensamento.

— O senhor já reparou, doutor, que o telhado é o único lugar da casa que toca o céu? — dizia, enquanto alinhava uma telha torta.

— Nunca pensei nisso, João. — respondia Rogério, com uma curiosidade infantil.
— Pois é. E ainda assim, é o primeiro a sofrer quando o céu se zanga.

O professor gostava daquelas conversas. Sentia que havia mais filosofia nas mãos calejadas de João do que em muitos tratados que ele havia lido. João não falava com palavras difíceis e havia pausas. E cada pausa deixava o ar cheio de sentido.

Quando o trabalho terminava, sentavam-se à sombra do muro. O café fumegava em copos de vidro, e as abelhas rondavam o açúcar como se também quisessem ouvir.

— O senhor estuda muito, né, doutor? João perguntava, mexendo o café devagar.

— É o que me resta fazer, João. Na verdade, é parte do meu trabalho, mas às vezes acho que estudo demais e entendo de menos.

João sorriu.

— Saber demais entorta o olhar... Às vezes a gente precisa fechar o olho pra ver direito.

Rogério nunca soube se João inventava aquelas ideias ou se as colhia do vento. Talvez fosse o vento mesmo quem lhe soprava o entendimento das coisas.

Um dia, após ser chamado, João não veio. O relógio de parede marcou o meio-dia, o café esfriou, e o silêncio se instalou na varanda como uma visita inesperada. Rogério esperou, ainda uns dias, até ouvir pela boca do padeiro que João tinha partido: tosse forte, febre curta, dessas que o corpo não sustenta.

Na manhã seguinte, Rogério subiu ao telhado, ele mesmo, pela primeira vez. Quis ver de perto o lugar onde João se encontrava com o céu. O vento batia nas telhas e fazia um som que parecia fala. Rogério não sabia se era a brisa ou a lembrança dizendo algo que não se diz em voz alta.

Ali, sentado entre as telhas quentes, entendeu o que João dissera um dia, rindo: “O mundo é um telhado grande demais, doutor, e nós, uns pobres de alma, tentando tapar o buraco por onde o tempo entra”.

E foi nesse instante que Rogério percebeu que a sabedoria tem muitos caminhos e que saber observar e também consertar as pequenas coisas do mundo, devagar, sem pressa, é uma das maneiras...  Aprendeu que o que se conserta hoje, amanhã o vento leva de novo.

domingo, outubro 12, 2025

O sorriso na Consolação

 

O dia terminava pesado nos ombros de Maria. Deixava para trás a casa de portões altos e pisos encerados, onde o brilho das pratarias não escondia a secura com que a patroa lhe entregava ordens. No fundo da sacola, duas frutas, restos do banquete alheio, mas que eram sua pequena vitória: levaria aos filhos que a esperavam em casa. O ano era 1976, a cidade, São Paulo, com sua concretude habitual. As periferias pareciam mais distantes do que hoje.

O primeiro ônibus veio cheio, abafado, com cheiro de pressa e cansaço. Maria segurava a barriga como quem protege um segredo. Quando desceu para a troca da linha, as pernas já eram chumbo, e os pés, inchados, latejavam sob o peso da noite.

Foi então que, ao erguer os olhos, viu a fachada iluminada da Igreja da Consolação. Havia ali um convite silencioso, um respiro no meio do concreto. Entrou.

O ar fresco lhe apagou a poeira do corpo. Sentou-se num banco lateral e deixou que o silêncio fizesse por ela o que nenhuma palavra faria. Rezou sem rezar, mais com o coração do que com a boca: que a vida fosse menos dura, que houvesse pão suficiente, que os filhos crescessem.

Não soube se adormeceu, se cochilou ou se apenas se perdeu no próprio cansaço. O que aconteceu depois se gravou como sonho, embora tivesse a nitidez da vigília: uma mulher de azul e branco atravessava o corredor da igreja. Não havia pressa em seus passos. Ao passar diante dela, voltou-se e lhe ofereceu um sorriso breve, tão simples quanto uma brisa que levanta as folhas.

Maria respirou fundo. Não sentiu o corpo ser curado, mas sim acolhido. As dores já não pesavam tanto. Levantou-se devagar, ajeitou a sacola de frutas e caminhou para fora.

Na rua, o barulho da cidade retomava sua cadência. Mas algo permanecia. Era como se dentro dela houvesse agora uma reserva de silêncio, uma pequena chama capaz de sustentar o resto da jornada.

No ônibus, encostou a cabeça no vidro e sorriu sozinha. Não sabia se vira uma visão, um sonho ou apenas o reflexo de sua esperança. Mas sabia, com a certeza mansa das coisas íntimas, que aquele sorriso a acompanharia até chegar em casa — e talvez por muitos caminhos ainda por vir.