Diziam que João era homem de fazer serviço pequeno, mas ninguém sabia ao certo o tamanho do que ele fazia. Arrumava telha, trocava resistência de chuveiro, consertava a fiação que insistia em chiar quando o vento vinha do sul. Dizia que o mundo era cheio de curtos e vazamentos, e que o trabalho dele era remendar o tempo, não as coisas.
Chegava cedo, como quem pede
licença ao dia. Trazia nas mãos o peso das ferramentas e no rosto a calma de
quem não espera muito, porque já entendeu que o pouco é mais seguro. Na casa de
seu Rogério, homem de letras, de livros e de fala demorada, João se demorava
também, mas de outro modo: demorava-se nos silêncios, nas observações que
nasciam do chão e subiam, lentas, até o pensamento.
— O senhor já reparou, doutor,
que o telhado é o único lugar da casa que toca o céu? — dizia, enquanto
alinhava uma telha torta.
— Nunca pensei nisso, João. —
respondia Rogério, com uma curiosidade infantil.
— Pois é. E ainda assim, é o primeiro a sofrer quando o céu se zanga.
O professor gostava daquelas
conversas. Sentia que havia mais filosofia nas mãos calejadas de João do que em
muitos tratados que ele havia lido. João não falava com palavras difíceis e
havia pausas. E cada pausa deixava o ar cheio de sentido.
Quando o trabalho terminava,
sentavam-se à sombra do muro. O café fumegava em copos de vidro, e as abelhas
rondavam o açúcar como se também quisessem ouvir.
— O senhor estuda muito, né,
doutor? João perguntava, mexendo o café devagar.
— É o que me resta fazer,
João. Na verdade, é parte do meu trabalho, mas às vezes acho que estudo demais
e entendo de menos.
João sorriu.
— Saber demais entorta o olhar...
Às vezes a gente precisa fechar o olho pra ver direito.
Rogério nunca soube se João
inventava aquelas ideias ou se as colhia do vento. Talvez fosse o vento mesmo
quem lhe soprava o entendimento das coisas.
Um dia, após ser chamado, João
não veio. O relógio de parede marcou o meio-dia, o café esfriou, e o silêncio
se instalou na varanda como uma visita inesperada. Rogério esperou, ainda uns
dias, até ouvir pela boca do padeiro que João tinha partido: tosse forte, febre
curta, dessas que o corpo não sustenta.
Na manhã seguinte, Rogério subiu
ao telhado, ele mesmo, pela primeira vez. Quis ver de perto o lugar onde João
se encontrava com o céu. O vento batia nas telhas e fazia um som que parecia
fala. Rogério não sabia se era a brisa ou a lembrança dizendo algo que não se
diz em voz alta.
Ali, sentado entre as telhas
quentes, entendeu o que João dissera um dia, rindo: “O mundo é um telhado
grande demais, doutor, e nós, uns pobres de alma, tentando tapar o buraco por
onde o tempo entra”.