Pesquisar este blog

domingo, maio 18, 2025

o voo do menino

 Dizia o avô, com a voz pesada de lenda:

— O coração do beija-flor, ainda quente,
te dará olhos de flecha e alma de caça.

E ele, menino de pés nus e alma crua,
acreditava no que lhe contavam com solenidade de reza.

Sabia mirar.
Sabia esperar.
E trazia nos olhos a febre dos que buscam
sem saber o que perderão ao encontrar.

Caçava cores.
Caçava cantos.
Caçava levezas.

Um dia — desses que mudam tudo sem avisar —
avistou um beija-flor em pleno gesto de milagre:
bailava entre as flores com a pressa de quem vive pouco.
E ele, o menino, silenciou o mundo.
Mirou.
Respirou.
Disparou.

A ave caiu, poema interrompido.
Ele a recolheu com mãos trêmulas
e, como lhe haviam ensinado,
arrancou o coração ainda morno,
e o engoliu como se fosse destino.

Mas algo mudou.

Naquela noite, não dormiu.
No escuro da rede, ouviu um zumbido —
não de asa, mas de arrependimento.
Sonhou que voava com o corpo do pássaro,
mas sem saber como pousar.
Sonhou que flores murchavam ao vê-lo chegar.

Amanheceu com os olhos mais atentos, sim,
mas não para o sangue,
nem para a presa —
mas para o espanto.

Passou a caminhar menos armado.
Parava ao ver as flores dançarem com o vento.
Desaprendeu a fome de caçador
e aprendeu a sede de contemplador.

Um dia, jogou fora o bodoque.
Outro, começou a plantar.
As crianças da aldeia o viram, certo dia,
deixar um coco cheio de água fresca
pendurado na árvore das visitas aladas.

E dizem — embora ninguém saiba ao certo —
que um beija-flor pousou em sua mão,
sem medo, sem pressa,
como se o perdoasse.

O menino, que já não era criança,
sorriu.
Naquele instante, aprendeu a voar.

domingo, maio 11, 2025

A ponte

 

Durante toda a sua vida, Madalena soube que não deveria atravessar a ponte.

Não era uma proibição explícita, tampouco um decreto de sua família — era mais como um sussurro enraizado na memória, um aviso que havia se instalado em seu corpo desde a infância, no tempo em que as coisas não precisavam ser explicadas para serem temidas. A ponte de madeira arqueava-se sobre o igarapé, um fio d’água escuro que cortava a mata e que, nas épocas de cheia, tornava-se um braço largo e lento que desaguava no rio próximo dali. O nome do igarapé, Demarcação, fora dado pelos mais velhos, e ninguém nunca explicou por quê. Só diziam: “Não vá por ali, Madalena. Isso não é lugar de menina”.

Ela cresceu ouvindo isso com a naturalidade de quem aprende que fogo queima e que a noite tem bicho. Era mais uma verdade, dentre as tantas que aprendera. Um dia, ainda pequena, Madalena escutou um rumor à beira do poço: algo sobre uma mulher que atravessara a ponte e nunca mais voltara. “Virou bicho, ou virou árvore”, disse alguém. “Ou se libertou”, murmurou outra voz, quase inaudível.

Agora, aos dezesseis anos, Madalena estava diante da ponte.

A madeira, velha e marcada por musgos e sol, rangia sob suaves ventos da tarde. Era uma estrutura simples, nada imponente, mas diante dela o coração de Madalena batia como se estivesse prestes a desatar uma enchente. Ela trazia um caderno de anotações — onde registrava seus sonhos, dúvidas e pressentimentos. Ali, rabiscara o desejo, uma vontade estranha e crescente de saber o que havia do outro lado. Não era curiosidade, tornara-se necessidade.

A mãe havia saído para vender produtos da horta na vila, o pai dormia depois do roçado, e os irmãos brincavam com cacos de frutos do outro lado da casa. Madalena saiu sem que ninguém percebesse. Chegara ali sozinha, o céu aberto e a água do igarapé refletindo sombras da mata. Fechou os olhos por um instante e lembrou da primeira vez que vira a ponte com medo: tinha sete anos, e estava procurando uma animal que se afastara do curral. Quando viu a estrutura adiante, sentiu um calafrio — como se uma mão invisível a puxasse para trás. Há leis inscritas em nossa mente que, mesmo sem saber sua origens, nos prendem e nos condenam.

Mas agora não. Agora, algo empurrava Madalena para a frente. 

Deu o primeiro passo. A madeira estalou. O som fez seu peito doer, como se cada estalo fosse o romper de uma linha invisível com o passado. Outro passo. Lembrou-se da avó, que dizia: “A gente carrega o mundo nos pés, menina. Cada caminho que se pisa é uma escolha”.

Ao chegar ao meio da ponte, parou. Olhou o rio. A água, escura como o silêncio, parecia guardar segredos. O cheiro da floresta era forte, e por um instante Madalena sentiu-se pequena demais, quase desfeita. Pensou em voltar.

Mas então, ouviu. Não era voz, nem som. Era como um calor que vinha de dentro. Como se a ponte estivesse viva, e a convocasse a marchar adiante.

Ela continuou.

Do outro lado, a mata se abria em um descampado, grande e rodeado pela floresta. Madalena sentiu o cheiro de terra mudada, de memória ressignificada.

Mas também algo mais: ao longe, uma mulher plantava algo. Curvada, com as mãos no chão, ela pressionava pequenas sementes na terra. Ao vê-la, Madalena sentiu o coração disparar de novo, mas não de medo — era reconhecimento. A mulher olhou para ela e sorriu. Era a mesma mulher da história de sua infância. Estava ali. Tinha certeza que era ela. Não havia virado bicho, nem árvore. Havia permanecido.

Madalena se aproximou. A mulher ofereceu-lhe uma semente e apontou para o solo.

Sem perguntar nada, Madalena ajoelhou-se e plantou.