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sábado, dezembro 13, 2025

Semeador

 

Eduardo era um homem de quarenta e poucos anos, com um emprego razoável que lhe proporcionava o suficiente para viver bem, mas não o suficiente para se considerar de fato alguém privilegiado. Com um ciclo de amizades diversificado, suas conversas eram também diversas: política, literatura, filosofia. As conversas eram recheadas de uma profundidade que surpreendia todos à sua volta. O que mais intrigava as pessoas era a variedade de suas falas, que carregavam uma lógica e embasamento, então se perguntavam, sem nunca conseguirem encontrar uma resposta lógica, “de onde ele tirava todo aquele saber?” Não havia se quer indício de que fosse um aficionado pela internet, embora a utilizasse.

À primeira vista, Eduardo parecia ser o tipo de pessoa que se conformava com a rotina, com um estilo de vida sem grandes mudanças, mas que, ao mesmo tempo, possuía algo diferente, algo que o tornava especial. Seu olhar era atento, seus gestos calculados, e suas palavras, sempre certeiras. Ele era uma pessoa que, mesmo não aparentando, era um grande leitor, daqueles sempre atentos às novidades literárias e científicas.

Mas sua casa era vazia de livros. Isso intrigava seu círculo de amizade. Os móveis, embora simples e bem arrumados, não guardavam o cheiro característico de um lar de leitores. Às vezes viam um único volume jogado de forma um tanto desleixada em algum móvel da casa, mas se alguém o folheasse, perceberia que era um livro já lido e rabiscado à mão. A ausência de livros, embora não seja a única maneira de adquirir conhecimento, realmente causava estranheza ao perceber a solidez argumentativa de Eduardo.

"Ele deve ter uma biblioteca em outro lugar da casa", pensava uma amiga de longa data. "Mas onde, se conheço todos os cômodos? E por que alguém esconderia uma biblioteca?"

Ninguém sabia. Nenhuma pista óbvia surgia. E quando perguntavam diretamente para ele, logo desconversava e mudavam de assunto.

A verdade estava em outro lugar. De fato, Eduardo era um excelente leitor, aliás, nada comum. Os livros não serviam para acumular prateleiras e mais prateleiras de conhecimento. Ele havia estabelecido certa missão para si, pouco visível, mas que via como transformadora – se não fosse transformadora do mundo era para ele mesmo, pois o levava ao desapego e um trabalho constante de sua memória: Eduardo era um semeador.

Pensava consigo que conhecimento não estava em acumular livros ou em exibi-los, mas em espalhá-los. Tornou-se um jardineiro de palavras, lançando sementes por onde passava. Cada livro lido era uma semente que ele deixava cair em algum ponto, para quem sabe, dali nascer um novo leitor. Cada semente jogada era um salto no vazio, um salto às cegas, um gesto tateante, porém, estratégico, afinal nem toda semente plantada será uma árvore frondosa. Mas sabia que para colher o saber, era preciso apostar, vai que o gesto semanalmente repetido não só colhesse leitores, mas também novos semeadores.

Assim, sempre que terminava de ler um livro, Eduardo fazia questão de não guardá-lo na estante. Deixava-o. Em uma praça movimentada, sobre um banco qualquer, onde um passageiro de metrô poderia dar uma olhada, em um ônibus, um uber, num café, qualquer lugar onde o livro pudesse ser deixado de lado, como um presente anônimo, uma mensagem a ser lida por quem se sentisse atraído por suas páginas. Pouco importava quem seria e mesmo se leria... procurava não pensar muito sobre isso, afinal livros foram feitos para serem lidos.

Aos olhos de seus amigos, Eduardo parecia ser um autodidata que absorvia tudo a seu redor – embora soubessem de sua graduação em economia –, mas seria suficiente, se perguntavam. Mas ele colhia conhecimento, absorvia e depois jogava as sementes por toda a cidade. Ele não tinha medo de que seus livros pudessem cair nas mãos de alguém que não soubesse aproveitar. Seguia firme na sua ação, pequena, tinha consciência, mas acreditava que o primeiro passo de tudo é tornar acessível, por isso acreditava que a distribuição era importante, muito mais do que acumular tais objetos para si.

Os amigos seguiam desconfiados. Certa vez, durante um jantar, alguém comentou sobre um livro de filosofia que estava na moda. Eduardo, com um sorriso discreto, comentou sobre as ideias daquele pensador como se tivesse sido seu aluno. O grupo se espantou. Foi Luana quem perguntou, misto de curiosidade e espanto: "Você tem tantos livros na cabeça, Eduardo. Como você consegue?"

Ele deu um gole no vinho e olhou para os amigos, respondeu que os semeava.

A resposta soou enigmática. Todos riram, imaginando tratar-se de ironia, quando era, na verdade uma metáfora da sua ação. Eduardo sabia o que estava dizendo.

No dia seguinte, Eduardo estava no centro da cidade, com um movimento quase imperceptível, retirou de sua mochila um livro de poesia. Ele olhou para os lados, e, com um gesto tranquilo, deixou o livro em um banco de praça, antes de continuar seu caminho, como se nada tivesse acontecido. E ali, naquele banco da praça, o livro ficou a esperar o próximo leitor que o encontrasse... Eduardo e o futuro leito nunca se encontrariam, mas alguma conexão seria criada entre eles.

domingo, dezembro 07, 2025

BRECHA


A região era um enclave estreito e abrupto, encravado entre montes que pareciam ter sido empilhados às pressas pelos deuses. As encostas, eram íngremes e pedregosas, formavam caminhos tortuosos que serpenteavam como cicatrizes antigas. Pequenos terraços cultivados se equilibravam nos barrancos, sustentados por muros de pedras empilhadas à mão. Tudo a seu tempo era intenso: o calor, o vento, o frio, a chuva. No centro de tudo erguia-se a Montanha do Meio. Não era a maior ou a mais bela, mas lançava sua sombra diária sobre o povoado espremido abaixo, moldando suas rotinas, superstições e, mais tarde, seu destino.

Por não recorrerem a calendários, ninguém sabia exatamente quando começou. O fato é que tudo se originara de uma trivialidade tão pequena, tão ridícula, que qualquer registro pareceria uma piada. A Montanha do Meio, um afloramento de pedra cinzenta entre dois vales apertados, projetava uma sombra irregular sobre o chão ao amanhecer. E era essa sombra, apenas isso, que estava no centro da discórdia. A humanidade tem tido a capacidade de, ao longo de sua história, cair na armadilha de se autodestruir por pequenas banalidades. Coisas insignificantes, mas que captadas por imagens de prestígio ou poder, leva à perdição.

A região era um fiapo de mundo comprimido entre penhascos: meia dúzia de casas espremidas, hortas que mal se equilibravam no desnível, rios ou fios d`água que corriam montanha abaixo com sua pressa habitual. Ali vivia a Comunidade da Serra, gente acostumada a dividir o pouco e a rir do próprio azar. Certo dia, no entanto, por puro capricho da vida ou de algum deus cultuado por aquela gente, a sombra da Montanha do Meio avançou alguns passos a mais sobre o terreno do senhor Mirta. E isso bastou.

— A sombra é minha, sempre foi — assim disse ele. E emendou: Foi assim no tempo do meu pai.

— A sombra não tem dono — retrucou seu vizinho, Raul —, e mesmo que tivesse, caiu hoje no meu terreno. É o que vale. Não se pode controla-la, pois como temos observado ao longo dos tempos, ela muda. Só o sol sabe e a montanha saberá.

A discussão espalhou-se como fumaça, ardendo olhos e corações. Primeiro vieram as risadas, depois as zombarias, depois as tentativas de mediação. Mas cada pessoa que se metia no assunto passava a defender um lado. Será que os homens se cansam da monotonia e por isso buscam aventuras? Pode ser, mas deveriam lembrar que quase sempre há violência no final. Era vida espremida, mas em harmonia. Assim, aquela disputa foi só um pretexto que incendiou o lugar.

Em pouco tempo, dividiram-se em dois grupos: Os Donos da Sombra e Os Guardiões do Sol. Os nomes começaram como chacota, mas rapidamente ganharam peso, bandeiras improvisadas, slogans, músicas. Uma verdadeira disputa de mentes e corações instalou-se pela região. Os Donos da Sombra diziam que a estabilidade vinha do passado, e que a sombra simbolizava tradição. Os Guardiões do Sol afirmavam que o futuro só poderia existir onde a luz tocava o chão.

E assim, por causa de um retalho escuro sobre o solo, ergueram-se paliçadas, cavaram trincheiras, esconderam ferramentas que antes eram de uso comum. A violência surgiu como um tropeço: primeiro uma pedrada, depois um empurrão, mais tarde uma casa incendiada, um corpo esquecido no desfiladeiro.

As crianças passaram a aprender a ignorar e esnobar seus vizinhos, depois aos insultos, tudo isso antes mesmo de aprender a ler. As festas comuns desapareceram. Os casamentos entre as duas comunidades foram proibidos e aqueles que já viviam nesse tipo de união passaram a ser ignorados ou hostilizados pelos dois lados; era preciso ter lado a qualquer custo. Qualquer tentativa de reconciliação era vista como traição. A Montanha do Meio, silenciosa e indiferente, continuava lançando sua sombra sobre o vale, às vezes maior, às vezes menor, sempre mudando, como tem sido o movimento da vida natural e, desse modo, ignorava por completo o destino daquelas pessoas.

A guerra tornou-se permanente. Não havia batalhas grandiosas, apenas emboscadas contínuas, agressões permanentes e volta e meia, uma morte que alimentava a continuidade daquele absurdo. Era uma guerra que não cabia nos mapas, pois acontecia em pedaços ínfimos de terra, em olhos semicerrados, em pequenas vinganças acumuladas. O passado de harmonia foi sendo esquecido. Ninguém teve a capacidade de perguntar em alto e bom som:

— Mas por que estamos lutando mesmo?

Ninguém. A memória é sempre seletiva, por isso é importante cuidá-la, alimentá-la, pois um lapso e ela pode se perder. Foi assim que uma simples sombra instalou a cizânia naquela região. Na verdade, a sombra foi apenas o pequeno motivo para um coração mal cuidado, de uma raiva casual transformou-se em obsessão de poder. Assim, todos que viviam na Comunidade da Serra sabiam que o inimigo estava do outro lado, e que desistir daquela disputa, seria perder.

A sombra, alheia, seguia seu percurso diário. A cada manhã, estendia-se sobre o terreno de um, de outro, de ninguém. A guerra, ao contrário, permanecia imóvel, como uma pedra cravada no peito de cada habitante e que estranhamente, alimentada pelo ódio, crescia tomando todo o corpo daquela gente.

terça-feira, dezembro 02, 2025

Dezembro

 Chegou dezembro, o mundo gira e se enfeita,

as luzes dançam e o cansaço espreita;

o ano termina, mas a vida insiste em dizer

que todo fim é só um novo jeito de viver.


Velhas promessas em roupa de esperança,

a gente jura mudar — como quem dança;

mas no fundo sabe: o tempo é um espelho

devolve o que somos, sem brilho no conselho.


Família reunida, mesa cheia, ritual sagrado,

repete-se a cena, e no coração se escreve

entre risos, memórias e um gole exagerado:

dezembro outra vez, que ano cagado!

domingo, novembro 30, 2025

O Brasil que nos perde e nos salva

 

Quando olhamos atentamente nossa realidade, percebemos que o sistema tem nos deixado todos doentes, uma realidade gritando por mudanças profundas e uma parte querendo segurar ou retroceder por meio das várias formas de negacionismos. Porém, o real resiste, cantou Arnaldo Antunes. Se a questão é ampla e complexa, olhemos para o nosso país. Estamos doentes de Brasil.

Estar doente de Brasil é sentir, no corpo e na alma, o peso das mazelas que parecem repetir-se como feridas que nunca cicatrizam. É perceber que nossas crises políticas, nossas injustiças sociais e nossos abismos econômicos não são episódios isolados, mas sintomas de algo mais profundo: um país que ainda não se reconciliou consigo mesmo, com sua história. A cada escândalo, a cada violência banalizada, a cada ataque às instituições ou às diferenças, sentimos uma espécie de febre moral, uma exaustão cívica que nos atravessa.

Mas, paradoxalmente, é desse mesmo Brasil adoecido que nasce a possibilidade de cura. Porque, apesar de tudo, há no povo brasileiro uma força vital que insiste em não sucumbir. Uma força feita de diversidade, de reinvenção cotidiana, de solidariedade que brota mesmo em meio ao caos. A cura não virá como um remédio externo ou como um gesto salvador vindo “de cima”. Ela nasce no encontro entre as pessoas, na compreensão de que somos múltiplos, plurais, contraditórios; a nossa mistura constitui nossa maior potência.

Quando olhamos para as expressões culturais do país (danças, músicas, teatro, festas, oralidades, rituais, artes visuais, modos de contar e de existir) encontramos não apenas beleza, mas um mar de possibilidades existenciais. Cada manifestação cultural é uma resposta ao mundo, um modo de significá-lo e também de transformá-lo. São nessas manifestações que o Brasil revela sua força mais profunda: a capacidade de criar em meio ao caos e a dor; uma fértil imaginação, apesar do desalento; uma capacidade de celebrar, apesar das ruínas que nos cerca. A cultura é nossa argila com o qual nos moldamos, por isso é também nosso remédio. Em um dos aspectos, o campo das artes por exemplo, reconhecemos o que verdadeiramente somos e, ao mesmo tempo, o que ainda podemos vir a ser.

Estar doente de Brasil é legítimo. É difícil respirar sob o peso das contradições que se acumulam. Mas é também compreender que a cura é possível, está entre nós no povo que dança, canta, inventa, protesta, reza, celebra, narra e resiste. Um povo que, mesmo ferido, nunca deixou de construir mundos. E não se trata de romantismo barato, pois é impossível não reconhecer essa potência. A cura começará quando entendermos que esse país, em toda a sua complexidade e exuberância, é feito de nós. Como canta Emicida: “Nóis e nesse nóis / Não existe um porém / Nóis e se não for nóis / Não vai ser ninguém / Com nóis é nóis / Que corre no caminho do bem”. Então, cuidemo-nos, pois se cuidarmos uns dos outros, estamos também cuidando do Brasil que ainda queremos, para lembrarmos de outro grande artista. Milton Nascimento, “há que se cuidar do broto para que a vida nos dê flor e fruto”. Se estamos doente de Brasil, a cura também daí, especialmente daquilo que brota de nosso povo.

domingo, outubro 19, 2025

O homem do telhado

Diziam que João era homem de fazer serviço pequeno, mas ninguém sabia ao certo o tamanho do que ele fazia. Arrumava telha, trocava resistência de chuveiro, consertava a fiação que insistia em chiar quando o vento vinha do sul. Dizia que o mundo era cheio de curtos e vazamentos, e que o trabalho dele era remendar o tempo, não as coisas.

Chegava cedo, como quem pede licença ao dia. Trazia nas mãos o peso das ferramentas e no rosto a calma de quem não espera muito, porque já entendeu que o pouco é mais seguro. Na casa de seu Rogério, homem de letras, de livros e de fala demorada, João se demorava também, mas de outro modo: demorava-se nos silêncios, nas observações que nasciam do chão e subiam, lentas, até o pensamento.

— O senhor já reparou, doutor, que o telhado é o único lugar da casa que toca o céu? — dizia, enquanto alinhava uma telha torta.

— Nunca pensei nisso, João. — respondia Rogério, com uma curiosidade infantil.
— Pois é. E ainda assim, é o primeiro a sofrer quando o céu se zanga.

O professor gostava daquelas conversas. Sentia que havia mais filosofia nas mãos calejadas de João do que em muitos tratados que ele havia lido. João não falava com palavras difíceis e havia pausas. E cada pausa deixava o ar cheio de sentido.

Quando o trabalho terminava, sentavam-se à sombra do muro. O café fumegava em copos de vidro, e as abelhas rondavam o açúcar como se também quisessem ouvir.

— O senhor estuda muito, né, doutor? João perguntava, mexendo o café devagar.

— É o que me resta fazer, João. Na verdade, é parte do meu trabalho, mas às vezes acho que estudo demais e entendo de menos.

João sorriu.

— Saber demais entorta o olhar... Às vezes a gente precisa fechar o olho pra ver direito.

Rogério nunca soube se João inventava aquelas ideias ou se as colhia do vento. Talvez fosse o vento mesmo quem lhe soprava o entendimento das coisas.

Um dia, após ser chamado, João não veio. O relógio de parede marcou o meio-dia, o café esfriou, e o silêncio se instalou na varanda como uma visita inesperada. Rogério esperou, ainda uns dias, até ouvir pela boca do padeiro que João tinha partido: tosse forte, febre curta, dessas que o corpo não sustenta.

Na manhã seguinte, Rogério subiu ao telhado, ele mesmo, pela primeira vez. Quis ver de perto o lugar onde João se encontrava com o céu. O vento batia nas telhas e fazia um som que parecia fala. Rogério não sabia se era a brisa ou a lembrança dizendo algo que não se diz em voz alta.

Ali, sentado entre as telhas quentes, entendeu o que João dissera um dia, rindo: “O mundo é um telhado grande demais, doutor, e nós, uns pobres de alma, tentando tapar o buraco por onde o tempo entra”.

E foi nesse instante que Rogério percebeu que a sabedoria tem muitos caminhos e que saber observar e também consertar as pequenas coisas do mundo, devagar, sem pressa, é uma das maneiras...  Aprendeu que o que se conserta hoje, amanhã o vento leva de novo.

domingo, outubro 12, 2025

O sorriso na Consolação

 

O dia terminava pesado nos ombros de Maria. Deixava para trás a casa de portões altos e pisos encerados, onde o brilho das pratarias não escondia a secura com que a patroa lhe entregava ordens. No fundo da sacola, duas frutas, restos do banquete alheio, mas que eram sua pequena vitória: levaria aos filhos que a esperavam em casa. O ano era 1976, a cidade, São Paulo, com sua concretude habitual. As periferias pareciam mais distantes do que hoje.

O primeiro ônibus veio cheio, abafado, com cheiro de pressa e cansaço. Maria segurava a barriga como quem protege um segredo. Quando desceu para a troca da linha, as pernas já eram chumbo, e os pés, inchados, latejavam sob o peso da noite.

Foi então que, ao erguer os olhos, viu a fachada iluminada da Igreja da Consolação. Havia ali um convite silencioso, um respiro no meio do concreto. Entrou.

O ar fresco lhe apagou a poeira do corpo. Sentou-se num banco lateral e deixou que o silêncio fizesse por ela o que nenhuma palavra faria. Rezou sem rezar, mais com o coração do que com a boca: que a vida fosse menos dura, que houvesse pão suficiente, que os filhos crescessem.

Não soube se adormeceu, se cochilou ou se apenas se perdeu no próprio cansaço. O que aconteceu depois se gravou como sonho, embora tivesse a nitidez da vigília: uma mulher de azul e branco atravessava o corredor da igreja. Não havia pressa em seus passos. Ao passar diante dela, voltou-se e lhe ofereceu um sorriso breve, tão simples quanto uma brisa que levanta as folhas.

Maria respirou fundo. Não sentiu o corpo ser curado, mas sim acolhido. As dores já não pesavam tanto. Levantou-se devagar, ajeitou a sacola de frutas e caminhou para fora.

Na rua, o barulho da cidade retomava sua cadência. Mas algo permanecia. Era como se dentro dela houvesse agora uma reserva de silêncio, uma pequena chama capaz de sustentar o resto da jornada.

No ônibus, encostou a cabeça no vidro e sorriu sozinha. Não sabia se vira uma visão, um sonho ou apenas o reflexo de sua esperança. Mas sabia, com a certeza mansa das coisas íntimas, que aquele sorriso a acompanharia até chegar em casa — e talvez por muitos caminhos ainda por vir.

terça-feira, agosto 19, 2025

chegança

chego pela janela

do décimo terceiro andar

admiro a flor que cai

em teus olhos

desmancho-me em água

domingo, maio 18, 2025

o voo do menino

 Dizia o avô, com a voz pesada de lenda:

— O coração do beija-flor, ainda quente,
te dará olhos de flecha e alma de caça.

E ele, menino de pés nus e alma crua,
acreditava no que lhe contavam com solenidade de reza.

Sabia mirar.
Sabia esperar.
E trazia nos olhos a febre dos que buscam
sem saber o que perderão ao encontrar.

Caçava cores.
Caçava cantos.
Caçava levezas.

Um dia — desses que mudam tudo sem avisar —
avistou um beija-flor em pleno gesto de milagre:
bailava entre as flores com a pressa de quem vive pouco.
E ele, o menino, silenciou o mundo.
Mirou.
Respirou.
Disparou.

A ave caiu, poema interrompido.
Ele a recolheu com mãos trêmulas
e, como lhe haviam ensinado,
arrancou o coração ainda morno,
e o engoliu como se fosse destino.

Mas algo mudou.

Naquela noite, não dormiu.
No escuro da rede, ouviu um zumbido —
não de asa, mas de arrependimento.
Sonhou que voava com o corpo do pássaro,
mas sem saber como pousar.
Sonhou que flores murchavam ao vê-lo chegar.

Amanheceu com os olhos mais atentos, sim,
mas não para o sangue,
nem para a presa —
mas para o espanto.

Passou a caminhar menos armado.
Parava ao ver as flores dançarem com o vento.
Desaprendeu a fome de caçador
e aprendeu a sede de contemplador.

Um dia, jogou fora o bodoque.
Outro, começou a plantar.
As crianças da aldeia o viram, certo dia,
deixar um coco cheio de água fresca
pendurado na árvore das visitas aladas.

E dizem — embora ninguém saiba ao certo —
que um beija-flor pousou em sua mão,
sem medo, sem pressa,
como se o perdoasse.

O menino, que já não era criança,
sorriu.
Naquele instante, aprendeu a voar.

domingo, maio 11, 2025

A ponte

 

Durante toda a sua vida, Madalena soube que não deveria atravessar a ponte.

Não era uma proibição explícita, tampouco um decreto de sua família — era mais como um sussurro enraizado na memória, um aviso que havia se instalado em seu corpo desde a infância, no tempo em que as coisas não precisavam ser explicadas para serem temidas. A ponte de madeira arqueava-se sobre o igarapé, um fio d’água escuro que cortava a mata e que, nas épocas de cheia, tornava-se um braço largo e lento que desaguava no rio próximo dali. O nome do igarapé, Demarcação, fora dado pelos mais velhos, e ninguém nunca explicou por quê. Só diziam: “Não vá por ali, Madalena. Isso não é lugar de menina”.

Ela cresceu ouvindo isso com a naturalidade de quem aprende que fogo queima e que a noite tem bicho. Era mais uma verdade, dentre as tantas que aprendera. Um dia, ainda pequena, Madalena escutou um rumor à beira do poço: algo sobre uma mulher que atravessara a ponte e nunca mais voltara. “Virou bicho, ou virou árvore”, disse alguém. “Ou se libertou”, murmurou outra voz, quase inaudível.

Agora, aos dezesseis anos, Madalena estava diante da ponte.

A madeira, velha e marcada por musgos e sol, rangia sob suaves ventos da tarde. Era uma estrutura simples, nada imponente, mas diante dela o coração de Madalena batia como se estivesse prestes a desatar uma enchente. Ela trazia um caderno de anotações — onde registrava seus sonhos, dúvidas e pressentimentos. Ali, rabiscara o desejo, uma vontade estranha e crescente de saber o que havia do outro lado. Não era curiosidade, tornara-se necessidade.

A mãe havia saído para vender produtos da horta na vila, o pai dormia depois do roçado, e os irmãos brincavam com cacos de frutos do outro lado da casa. Madalena saiu sem que ninguém percebesse. Chegara ali sozinha, o céu aberto e a água do igarapé refletindo sombras da mata. Fechou os olhos por um instante e lembrou da primeira vez que vira a ponte com medo: tinha sete anos, e estava procurando uma animal que se afastara do curral. Quando viu a estrutura adiante, sentiu um calafrio — como se uma mão invisível a puxasse para trás. Há leis inscritas em nossa mente que, mesmo sem saber sua origens, nos prendem e nos condenam.

Mas agora não. Agora, algo empurrava Madalena para a frente. 

Deu o primeiro passo. A madeira estalou. O som fez seu peito doer, como se cada estalo fosse o romper de uma linha invisível com o passado. Outro passo. Lembrou-se da avó, que dizia: “A gente carrega o mundo nos pés, menina. Cada caminho que se pisa é uma escolha”.

Ao chegar ao meio da ponte, parou. Olhou o rio. A água, escura como o silêncio, parecia guardar segredos. O cheiro da floresta era forte, e por um instante Madalena sentiu-se pequena demais, quase desfeita. Pensou em voltar.

Mas então, ouviu. Não era voz, nem som. Era como um calor que vinha de dentro. Como se a ponte estivesse viva, e a convocasse a marchar adiante.

Ela continuou.

Do outro lado, a mata se abria em um descampado, grande e rodeado pela floresta. Madalena sentiu o cheiro de terra mudada, de memória ressignificada.

Mas também algo mais: ao longe, uma mulher plantava algo. Curvada, com as mãos no chão, ela pressionava pequenas sementes na terra. Ao vê-la, Madalena sentiu o coração disparar de novo, mas não de medo — era reconhecimento. A mulher olhou para ela e sorriu. Era a mesma mulher da história de sua infância. Estava ali. Tinha certeza que era ela. Não havia virado bicho, nem árvore. Havia permanecido.

Madalena se aproximou. A mulher ofereceu-lhe uma semente e apontou para o solo.

Sem perguntar nada, Madalena ajoelhou-se e plantou.


domingo, abril 20, 2025

o ser humano...


o ser humano não é um instantâneo
uma linha de tempo escorre
articula-se a um continuum
o ser humano não é um instantâneo

vias informacionais não captam
a verdade escapa aos algoritmos
satã foge da cruz
o ser humano é
o que o ritmo frenético de nosso tempo
deixa escapar

tentam apagar
o que em essência está lá
o momentâneo, a fagulha, a fração
não cura a loucura do que se é
o ser humano não é um instantâneo

sexta-feira, abril 18, 2025

Fluxo Infinito

 

Ninguém mais sabia exatamente quando começou. Alguns diziam que foi depois do Colapso dos Sentidos, outros juravam que sempre fora assim, que a vida real nunca existira de verdade. O que importava era que todos estavam Conectados — vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, para sempre.

O Sistema se chamava Fluxo.

Nascido da fusão entre algoritmos afetivos, neuroengenharia e redes sensoriais, o Fluxo prometia um mundo onde cada desejo seria atendido antes mesmo de surgir. Bastava existir. Bastava pensar — ou quase pensar — e ele respondia: entregava a imagem, a sensação, o fragmento exato de prazer, raiva, melancolia ou êxtase que o indivíduo não sabia que queria. Tudo isso por meio da Rolagem: um gesto quase involuntário, um passar de dedo pelo espaço aéreo diante dos olhos, acionando estímulos em sinapse direta com o córtex.

Era impossível se perder no Fluxo. E, ao mesmo tempo, era impossível se encontrar.

As pessoas viviam assim: imóveis nas cápsulas de seus cubículos individuais — as chamadas Células de Atenção —, seus corpos nutridos por géis intravenosos, seus olhos sempre abertos, suas mãos sempre rolando. Não havia mais ruas, praças, cafés ou conversas. Só perfis, avatares, fragmentos de personalidade. Um mar de eus sem corpo, interagindo sem nunca se tocar.

Ninguém morria de fome, de sede, de frio ou calor. Mas muitos morriam de ausência. Só que nem isso podiam nomear.

Havia um garoto — ou alguém que já fora um — chamado Íon. Ele começou a falhar. Pequenas falhas. Um atraso na resposta do Fluxo. Uma memória involuntária de quando, ainda criança, vira o rosto da mãe sem filtro algum. Um desejo que surgia e o Fluxo não preenchia. Começou a sonhar. Sonhar mesmo — coisa que a maioria havia perdido há gerações.

Certa vez, Íon sentiu vontade de falar com alguém. Não comentar uma imagem, não reagir a um clipe, não enviar um emoji sensorial. Falar. Boca, som, silêncio entre as palavras. Mas não havia ninguém. Só ecos de vozes geradas por IA, simulacros de conversas que seguiam o fluxo do desejo, mas nunca o ultrapassavam.

Íon então fez o impensável: desconectou.

A dor foi física. Como se rasgassem sua alma pelo lado de dentro. A luz do mundo real ofuscou. O silêncio do não-conteúdo gritou.

Ele saiu da célula. As ruas estavam cobertas por musgo, prédios engolidos por névoa e poeira. Cidades inteiras dormentes sob o brilho azulado das cápsulas de atenção. Os vivos pareciam mortos. E os mortos... talvez mais vivos do que os outros, pois haviam, ao menos, escapado.

Íon procurou por outros desconectados. E encontrou. Um grupo pequeno, escondido em túneis antigos de metrô, onde o sinal do Fluxo não alcançava. Eles falavam com os olhos, com gestos. Tocavam-se. Riam. Choravam sem legenda.

Tentavam lembrar o que significava estar junto, e não apenas conectado.

Mas o Fluxo os caçava. E cada vez que um deles titubeava, sentia saudade do alívio instantâneo, bastava uma piscada, um gesto involuntário, e o Sistema os puxava de volta para o conforto anestésico da rolagem infinita.

Íon resistia. Ele sabia que o Fluxo não era apenas um sistema. Era uma linguagem. Uma lógica. Um mundo. E que a verdadeira rebelião não era lutar contra ele. Era lembrar. Lembrar do gosto da espera. Do tédio. Do silêncio. Do amor que não cabia numa notificação.

E então, com uma voz quase extinta, Íon murmurou:

Desconectar é começar a sentir.

E em algum lugar, muito longe dali, uma outra Célula de Atenção tremulou. E alguém sonhou, pela primeira vez.

sábado, fevereiro 08, 2025

Imagem da memória


Minha memória voa a um tempo de meninez, marcada pelo cheiro e pela imaginação sertaneja. Uma imagem salta:

No dia, o sol, redondo e brabo, esmagava a terra com seu peso de fogo. O céu, largo e azulado, parecia uma tampa de panela sobre o sertão, onde o vento, quando vinha, trazia consigo histórias antigas, murmúrios de almas penadas e o cheiro seco da caatinga. Os homens, de pé no chão rachado, olhavam para o horizonte como se esperassem um milagre, mas o milagre já estava ali, naquela paisagem dura, seca e, contraditoriamente, bela, que só os fortes entendiam. E o rio, minguado e teimoso, seguia seu caminho, cortando a terra como uma faca cega, levando consigo segredos que ninguém jamais desvendaria.

À noite, saudade maior, a roda em volta da fogueira pra se contar histórias. O fogo, ao tempo que espantava as muriçocas, criava máscaras e sombras assustadoras naquelas pessoas, ia calcificando um imaginário atravessado de lobisomens, almas penadas e aventuras reais - tudo era real. Para se proteger, o jeito era grudar na saia da mãe e permanecer colado até ser vencido pelo sono, embalado pelo cheiro de fumaça nas noites do sertão, em uma época sem eletricidade, mas atravessado por imensa energia imaginativa.

Um tempo imaginoso de saudadamor!

quarta-feira, fevereiro 05, 2025

Rio Madeira

 Dos Andes, ele nasce pequenino,

Depois o Madeira é pujança e canto,
Levando no seu seio o eterno encanto,
Das águas que abraçam seu destino.


Seu curso, outrora livre, era altivo,
Um gigante a cantar seu próprio pranto,
Mas hoje sofre o peso do quebranto,
Do garimpo voraz, da draga, cativo.


As usinas, com suas mãos de aço,
Aprisionam-lhe a alma, a voz, o passo,
E o rio, outrora rei, agora geme.


Que futuro terá essa corrente,
Se a ganância, insistentemente,
Transforma vida em morte e o espreme?

sexta-feira, janeiro 31, 2025

O Canto da Motosserra

   

A América do Sul sempre foi um lugar de contrastes, onde o realismo mágico não era apenas uma corrente literária, mas a própria respiração do cotidiano. Nas ruas de cidades sem nome, árvores cresciam dentro de casas abandonadas, e rios mudavam de curso para evitar derramar suas águas em terras amaldiçoadas. Era uma região onde o impossível era apenas uma questão de perspectiva, e a realidade se dobrava como um tecido sob os dedos de um artesão invisível.

Mas em uma parte, um grande pedaço dessa região, algo havia mudado. O ar, outrora carregado de promessas e lendas, agora pesava como chumbo. O céu, antes tão azul que parecia pintado por mãos divinas, estava agora tingido de um cinza opaco, como se o sol tivesse desistido de brilhar. E no meio desse cenário desolador, surgiu ele: o político da motosserra.

Seu nome era Ignácio Fúria, mas ninguém o chamava assim. Era conhecido apenas como "A Motosserra". Ele carregava na cabeça, como uma coroa grotesca, uma motosserra enferrujada que rangia a cada movimento. Quando falava, espumava pela boca, como um cão raivoso, e suas palavras eram cortantes, afiadas, como as lâminas que giravam sem parar acima de sua testa. Suas promessas eram feitas de fumaça e fúria, e seus discursos, uma cacofonia de ameaças e delírios.

O mais estranho era que boa parte de seus eleitores era jovem. Gerações que cresceram diante de telas brilhantes, onde a realidade se confundia com ficção, e as fake news eram mais sedutoras do que a verdade. Para eles, Ignácio Fúria não era um homem, mas um personagem, um ícone, uma figura que transcendia a lógica. Sendo assim, ele se tornou herói de uma narrativa distorcida, em que o caos era glamourizado e a destruição, romantizada.

Ignácio alinhou-se com nações poderosas, líderes que viam nele um fantoche útil, um cãozinho frágil que latia alto, mas se curvava diante de seus donos. Ele lambia as mãos que o alimentavam com migalhas de poder, enquanto sua população empobrecia a cada dia. As ruas, outrora vibrantes de vida, agora eram cenários de desespero. Pessoas vendiam sonhos em garrafas, crianças comiam brincadeiras para saciar a fome, e os rios, antes mágicos, secavam sob o peso da indiferença.

Enquanto isso, a motosserra girava, cortando não apenas árvores, mas memórias, esperanças, futuros. Ignácio Fúria governava com a lâmina da destruição, e seu reinado era uma dança macabra entre o real e o absurdo. Ele prometia um futuro cheio de passado glorioso. Passado, que aliás, nunca existiu. Prometia um tempo mítico onde a América do Sul seria grande, poderosa, intocável. Mas o que ele oferecia era apenas ruína, um espelho quebrado que refletia apenas fragmentos de um sonho perdido.

No meio dessa distopia, uma jovem chamada Luzia começou a ouvir vozes. Eram sussurros que vinham das árvores, dos rios secos, das paredes rachadas das casas abandonadas. As vozes contavam histórias de um tempo antes da motosserra, antes mesmo do que se chamava América do Sul, um tempo que respirava magia e os sonhos tinham raízes profundas. Luzia, com olhos que brilhavam como estrelas em uma noite sem lua, decidiu seguir esses sussurros.

Ela encontrou um grupo de resistência, pessoas que ainda acreditavam na magia daquele tempo ancestral. Havia um velho que tecia tapetes que contavam o futuro, uma mulher que cantava canções que curavam feridas, e um menino que podia falar com os ventos. Juntos, eles planejaram um ritual, uma cerimônia que uniria o futuro-ancestral à resistência política. Eles chamariam de volta os espíritos da terra, os guardiões esquecidos que poderiam deter a motosserra; segurariam o céu.

Na noite do ritual, o céu escureceu de uma forma diferente. As estrelas pareciam se aproximar, como se quisessem testemunhar o que estava por vir. Luzia e seu grupo dançaram em círculos, entoando cantos antigos que ecoavam como trovões. A terra tremeu, e das rachaduras surgiram luzes, formas, seres que há muito haviam sido esquecidos.

Ignácio Fúria sentiu o chamado. Ele veio, como um cão raivoso, sua motosserra rangendo furiosamente. Mas quando ele chegou ao local do ritual, algo aconteceu. As lâminas de sua motosserra pararam de girar, e ele caiu de joelhos, como se o peso de sua própria destruição finalmente o atingisse. As vozes que Luzia ouvira agora ecoavam em sua mente, eram poderosas e começavam a modifica-lo em suas moléculas, ao mesmo tempo em que ele via o que havia destruído.

E então, de modo inusitado, Ignácio Fúria começou a se desfazer. Sua motosserra virou pó, e ele próprio se dissolveu em uma névoa que foi levada pelo vento. O céu clareou, e as árvores começaram a crescer novamente, como se a terra estivesse respirando aliviada.

A América do Sul não se curou da noite para o dia. As cicatrizes de Ignácio Fúria ainda estavam lá, profundas e dolorosas. Mas, pela primeira vez em muito tempo, havia esperança. Luzia e seu grupo continuaram seu trabalho, tecendo magia e resistência, lembrando a todos que a região era, e sempre seria, um lugar onde o impossível podia acontecer.

E assim, sob um céu que lentamente recuperava seu azul, o lugar começou a renascer.

terça-feira, janeiro 28, 2025

O Despertar do Século Passado

 

No coração do Norte, uma nação outrora conhecida por sua diversidade e liberalismo, algo estranho começou a acontecer. As eleições presidenciais trouxeram ao poder uma figura que, à primeira vista, parecia uma piada: um homem de pele alaranjada, cuja tonalidade vibrante era tão surpreendente quanto suas ideias políticas. Ele não era apenas uma curiosidade visual; suas propostas e discursos ecoavam um passado distante, como se o tempo tivesse se invertido e o século XIX tivesse ressurgido no meio do século XXI.

O presidente, cujo nome era Thaddeus Laranja, tinha um carisma peculiar. Sua retórica era simples, direta e, para muitos, assustadoramente convincente. Ele falava de "destino manifesto" e de uma "missão sagrada" que o povo do Norte havia recebido dos céus. No início, muitos riram, achando que suas palavras eram apenas bravatas de um excêntrico. Mas, aos poucos, suas ações começaram a mostrar que ele estava falando sério.

Um dia, em uma cerimônia transmitida para todo o país, Thaddeus Laranja apresentou um documento antigo, amarelado e frágil, que ele afirmava ter desenterrado de um arquivo secreto. O texto, datado de dois séculos atrás, falava de uma profecia: o povo do Norte era "predestinado" a guiar o mundo, a impor sua cultura, seus valores e sua visão sobre todas as outras nações. Era um chamado ao expansionismo, ao domínio global, e Thaddeus Laranja parecia determinado a cumpri-lo.

Aos poucos, o presidente começou a formar alianças com outras figuras excêntricas ao redor do mundo. Havia um líder de um país distante que acreditava que a Terra era plana, outro que defendia abertamente a volta da monarquia absoluta, e ainda outro que pregava o fim da ciência moderna em favor de um retorno às "verdades antigas". Juntos, eles formaram uma coalizão bizarra, unidos pela crença de que o mundo precisava ser "corrigido" e que eles eram os escolhidos para fazer isso.

As decisões de Thaddeus Laranja começaram a chocar o mundo. Ele revogou leis que protegiam os direitos das minorias, argumentando que "a pureza cultural" precisava ser preservada. Ele cortou fundos para a educação e a ciência, dizendo que o conhecimento moderno era "corrupto" e que as pessoas deveriam se voltar para os "ensinamentos do passado". Ele até mesmo propôs a construção de um grande muro ao redor do país, não para manter as pessoas fora, mas para evitar que as ideias modernas entrassem.

Enquanto isso, o documento antigo era exibido como uma relíquia sagrada. Thaddeus Laranja o chamava de "A Carta do Destino" e dizia que ele havia sido escrito pelos fundadores da nação, que tinham vislumbrado o futuro e visto o papel crucial que o povo do Norte desempenharia no mundo. Muitos historiadores contestavam a autenticidade do documento, mas suas vozes eram abafadas pelo fervor nacionalista que varria o país.

Aos poucos, o Norte começou a interferir em outras nações. Tropas foram enviadas para "ajudar" países vizinhos a "restaurar a ordem". Empresas do Norte começaram a comprar terras e recursos em outros continentes, sempre com a justificativa de que estavam cumprindo o "destino manifesto". A comunidade internacional tentou reagir, mas a coalizão de líderes excêntricos que Thaddeus Laranja havia formado era poderosa demais para ser contida.

Dentro do país, a sociedade começou a se dividir. Havia os que apoiavam cegamente o presidente, acreditando que ele era um enviado dos céus. E havia os que viam com horror o retrocesso das conquistas sociais e científicas dos últimos séculos. Movimentos de resistência começaram a surgir, mas eram rapidamente reprimidos pelo governo, que agora se via como o guardião de uma missão divina.

No meio do caos, uma jovem historiadora chamada Elara começou a investigar a origem do documento que Thaddeus Laranja tanto venerava. Ela descobriu que o texto não era uma relíquia antiga, mas uma falsificação criada no século XIX por um grupo extremista que nunca havia conseguido apoio. O documento havia sido esquecido, até que alguém o encontrou e decidiu usá-lo para justificar uma agenda perigosa.

Elara tentou alertar o mundo, mas sua voz foi abafada pelo barulho da propaganda governamental. Ainda assim, ela não desistiu. Junto com um grupo de dissidentes, ela começou a espalhar a verdade, tentando abrir os olhos daqueles que ainda conseguiam pensar por si mesmos.

Enquanto isso, Thaddeus Laranja continuava sua marcha rumo ao passado, determinado a transformar o mundo em uma versão distorcida de um tempo que nunca deveria ter voltado. Mas, em meio ao retrocesso, pequenas faíscas de resistência começavam a surgir, sugerindo que talvez o futuro ainda não estivesse perdido.

E assim, o Norte seguia em frente, dividido entre o peso do passado e a esperança de um futuro que ainda poderia ser salvo.

domingo, janeiro 26, 2025

Encontro com a Amazônia

 

Carlos sempre sonhou em conhecer a Amazônia. Desde criança, via nos livros didáticos imagens da densa floresta, dos rios que cortavam o horizonte como veias pulsantes e dos animais exóticos que pareciam saídos de um conto de fadas. Conforme crescia, porém, as notícias sobre a região mudaram. A Amazônia, outrora retratada como um paraíso intocado, agora aparecia em manchetes sobre queimadas, desmatamento e conflitos ambientais. Carlos via, com crescente angústia, como os problemas climáticos se agravavam a cada dia, apesar dos negacionistas que insistiam em minimizar a crise. Para ele, a Amazônia era mais do que uma floresta; era um baluarte, um símbolo de resistência da natureza contra a ganância humana.

Aos 32 anos, Carlos finalmente decidiu que era hora de ver com os próprios olhos o que tanto lia e estudava. Economizou por meses, planejou cada detalhe da viagem e, com uma mochila nas costas e um coração cheio de expectativas, embarcou para Manaus. De lá, seguiu de barco para uma pequena comunidade no interior da floresta, onde havia combinado de se hospedar com uma família local.

No primeiro dia, Carlos acordou cedo, ansioso para explorar a floresta. O sol ainda mal havia nascido, mas o calor já se fazia presente, denso e opressivo. Ele vestiu roupas leves, calçou botas resistentes e saiu para caminhar. A paisagem era deslumbrante: árvores gigantescas, o canto dos pássaros, o cheiro de terra molhada e vida. Ele se sentia pequeno, insignificante diante da grandiosidade da natureza.

Mas, conforme as horas passavam, o calor começou a pesar. O mormaço, como os locais chamavam, era algo que Carlos não havia imaginado. Era como se o ar estivesse impregnado de uma umidade quente que grudava na pele e dificultava a respiração. Ele sentiu o suor escorrer pelo rosto, as roupas colando no corpo. Aos poucos, começou a sentir tonturas, uma leve náusea. Parou para descansar à sombra de uma árvore, mas o mal-estar só aumentava.

Carlos tentou seguir em frente, determinado a não deixar que o desconforto o impedisse de explorar a floresta. Mas, após alguns passos, sentiu as pernas fraquejarem. A visão escureceu por um instante, e ele precisou se apoiar em uma rocha para não cair. Foi então que percebeu: a Amazônia não era apenas um cenário de sonhos ou um símbolo de resistência. Era um lugar real, concreto, que exigia respeito e adaptação. Ele havia subestimado a força da natureza, e agora ela lhe mostrava, de maneira crua, que não era um mero observador, mas parte integrante daquele ecossistema.

Com dificuldade, Carlos voltou para a comunidade. A família que o hospedava percebeu seu estado e logo lhe ofereceu água fresca e um lugar para descansar. Enquanto se recuperava, ele ouviu histórias sobre como os moradores lidavam com o calor, as chuvas torrenciais e os desafios de viver na floresta. Aprendeu sobre as plantas medicinais que usavam para tratar mal-estares, sobre os rituais que realizavam para agradecer à natureza e sobre a luta diária para preservar seu modo de vida diante das ameaças externas.

Naquela noite, Carlos deitou em sua rede, olhando para o céu estrelado que parecia tão próximo. Refletiu sobre como sua visão romântica da Amazônia havia sido abalada, mas também enriquecida. Ele percebeu que a floresta não era apenas um lugar a ser admirado de longe, mas um organismo vivo, complexo e cheio de contradições. Sentiu uma profunda conexão com aquela terra, não mais como um turista, mas como alguém que havia sido tocado por sua realidade crua e bela.

Nos dias seguintes, Carlos adaptou-se ao ritmo da floresta. Aprendeu a caminhar devagar, a respeitar o calor, a ouvir os sons da natureza. Descobriu que a Amazônia não era apenas um baluarte contra as mudanças climáticas, mas também um professor severo e sábio. E, ao partir, levou consigo não apenas fotos e lembranças, mas uma nova compreensão do que significava lutar pela preservação daquela terra. A Amazônia havia deixado de ser um sonho distante para se tornar uma parte indelével de sua história.

sexta-feira, janeiro 17, 2025

No País do Futebol


Ah, o Brasil! Terra do samba, do carnaval e, claro, do futebol. Se tem uma coisa que a gente sabe fazer de olhos fechados, é botar uma bola no chão e mostrar que, para o brasileiro, a vida é uma pelada. Não importa onde, não importa quando, só importa que a pelada esteja rolando. E foi em uma dessas partidas de bairro, entre amigos de infância e outros perdidos na vida, que Zedovsky, o verdadeiro craque da quebrada, aprendeu que ser boleiro no Brasil vai muito além de dribles e gols. Vai também de atendimento médico e uma boa dose de paciência.

Zedovsky – e o nome dele é Zedovsky mesmo, porque, se você é da quebrada, seu nome precisa ser sonoro e incomum para se destacar – estava fazendo o que mais sabe: encarando uma pelada, claro. O gramado? Um campo de terra batida onde, quando chove, vira um lamaçal só. O time? Basicamente um bando de gente que tenta impressionar o pessoal da rua, mesmo que não manje de esquema tático.

Tudo estava indo bem, até que Zedovsky, em um de seus dribles geniais (ou seriam apenas vacilos?), acabou se lesionando de maneira épica. Um torção no tornozelo que mais parecia cena de filme de ação, daqueles em que o herói tenta pular de um prédio e o final não é nada bonito. A dor foi tão intensa que ele, no susto, berrou mais que o técnico do Flamengo na final do campeonato.

"É agora, moço, é agora!" – pensou ele, com o semblante de quem sabia que, em qualquer país civilizado, uma lesão dessa magnitude seria tratada com dignidade e respeito. Mas Zedovsky estava no Brasil, o país do futebol... e da saúde pública?

Quando chegou ao hospital público, Zedovsky foi imediatamente encaminhado para uma fila que mais parecia um desfile de novos atletas para o time do "quem tem mais paciência". Os corredores estavam abarrotados. Uns sentados, outros deitados, todos com aquele olhar perdido de quem já perdeu a conta de quanto tempo espera e esperará.

Depois de muito tempo – nessas horas contas marcadas em relógio pouco importa –, Zedovsky finalmente foi chamado. “Aqui, meu filho, vai para aquela maca e espera que já vou”, disse a enfermeira, que mais parecia uma cartomante tentando adivinhar o futuro do paciente. Sentou, depois deitou, esperando pelo atendimento que começaria em breve... Uma olhada rápida no paciente e o desloca, para fazer uma “chapa” na radiologia, que ficava no outro lado do hospital. E lá foi Zedovsky, como um jogador de futebol sendo deslocado de um lado para o outro no campo, em busca da famosa "sorte de ser atendido".

Passaram-se umas boas horas, e o craque da quebrada já estava quase se sentindo parte do cenário hospitalar: a cadeira desconfortável, os pacientes ao redor, os enfermeiros com cara de quem não sabia mais o que estavam fazendo ali. Mas Zedovsky não se abalou. Afinal, o futebol, com sua carga dramática, sempre nos prepara para o inesperado. Se perguntava em termos de tempo, quantas partidas teria jogado até ali?

Quando, finalmente, chegou o momento do diagnóstico, o médico com pinta de humorista disse: "Você não fraturou, mas esse tornozelo aí vai precisar de repouso. Se continuar jogando assim, meu filho, vai terminar igual o time do Brasil na última Copa."

Zedovsky, claro, saiu de lá com a sensação de que havia jogado uma partida importante, digna de título mundial, mas sem nem saber qual foi o placar final, mas sabia que ele tinha sido a bola. A lesão? Melhor que tivesse sido uma canelada de um zagueiro. Pelo menos ali ele saberia o que fazer.

É minha gente, o Brasil segue sendo o país do futebol, onde os craques de rua se tornam heróis da quebrada e, às vezes, pacientes de alas hospitalares. No fim, Zedovsky sabia que não importava o quanto o atendimento fosse enrolado, ele sempre estaria pronto para mais uma "pelada". Porque aqui, meu amigo, o futebol nunca para... mas o atendimento médico, ah, esse sempre dá um bom drible.

segunda-feira, janeiro 13, 2025

Sonhar acordado


Era uma manhã como qualquer outra, ou assim parecia. O sol, como quase todos os dias por estes lados do Brasil, mostrava sua força. O relógio na parede marcava 6h30 da manhã, mas o professor Jorge Marques, ainda deitado, não conseguia se mover. Seus olhos estavam abertos, mas sua mente continuava presa em um pesadelo que, até agora, não o havia soltado.

No sonho, ele estava em sala de aula, como sempre, diante de uma turma de alunos distraídos, rabiscando nos cadernos ou mexendo no celular. Tudo parecia rotineiro, exceto por uma coisa: os alunos começavam a flutuar. Primeiro, foi apenas um, depois dois, e logo todos estavam no ar, levitando suavemente, seus pés deixando o chão com a mesma naturalidade com que respiravam.

O professor observava, sem saber o que fazer, sem entender o porquê. As cadeiras continuavam no lugar, mas os alunos, agora flutuando acima delas, pareciam mais calmos, mais concentrados, como se o simples ato de estar no ar os tivesse levado a um estado de serenidade total. Alguns até sorriam, como se gostassem da sensação... liberdade? A sala estava em completo silêncio, exceto pelos murmúrios baixos de quem observava o fenômeno.

"Isso não pode estar acontecendo", pensou Jorge, tentando controlar a crescente ansiedade que o envolvia. Ele olhou para o quadro-negro, na esperança de se agarrar à normalidade de um objeto real e no qual havia escrito algumas informações. Mas, para sua surpresa, o quadro estava vazio. Não havia mais nada ali. Tudo se desfez diante de seus olhos, como se ele estivesse em um sonho sem regras, sem limites. Os alunos, agora completamente fora de controle, começaram a se mover pela sala como se flutuassem em um mar invisível, trocando de lugar, alguns até atravessando uns aos outros no ar.

O professor tentou chamar a atenção deles, mas sua voz saiu abafada, como se ele estivesse preso embaixo d'água. Levantou as mãos, mas não conseguiu falar. Os alunos agora flutuavam em direção ao teto, deixando-o ainda mais atônito. Um deles, a estudante mais quieta da turma, a Pietra, passou por ele com um sorriso sereno no rosto. "Professor, você vai se acostumar", ela disse, com uma suavidade desconcertante. De modo assertivo disse: "Tudo flutua no final."

Foi nesse momento que Jorge acordou.

O suor frio escorria pela sua testa. Ele ainda estava deitado em sua cama, mas sentia uma sensação de vertigem, como se estivesse flutuando também. Respirou fundo, tentando afastar os vestígios do sonho que ainda pairavam em sua mente. Olhou para o relógio, que agora marcava 7h15. Ele precisava se levantar, se preparar para mais um dia de aula. Mas uma sensação estranha persistia, algo que ele não conseguia identificar: a impressão de que algo fora da sua compreensão estava prestes a acontecer.

Ao chegar na escola, seu corpo ainda carregava o peso do sonho. A porta da sala de aula estava aberta, e ele entrou, tentando dissipar os resquícios do pesadelo. Seus alunos começaram a chegar, um por um, cumprimentando-o com o habitual "Bom dia, professor!". Mas, ao se sentar em sua mesa, Jorge não pôde deixar de notar algo peculiar: a estudante Pietra estava mais calma do que o normal. Ela não falava com os demais, como de costume, e parecia olhar fixamente para o vazio, como se estivesse em outro lugar.

A aula começou, mas uma sensação estranha tomou conta do ambiente. Enquanto Jorge explicava a matéria no quadro, ele notou um movimento sutil no canto do olho. Um dos estudantes, Lucas, estava com os pés ligeiramente elevados do chão, flutuando lentamente. Jorge parou de falar, atônito, mas Lucas não parecia perceber. Outros começaram a notar, mas, ao contrário da sua reação, eles não estavam surpresos. Era como se aquilo fosse algo esperado, como que natural.

Jorge engoliu em seco. A visão dos estudantes flutuando em sua sala de aula o fez lembrar do pesadelo. "Não... isso não pode ser real", pensou, tentando não perder a compostura. Ele pediu se sentassem, mas, ao olhar em volta, percebeu que a sala estava cheia de figuras que levitavam suavemente, os pés tocando o chão apenas de vez em quando, como se estivessem flutuando em um transe coletivo.

"Professor, o que você vai fazer agora?" perguntou Pietra, com aquele sorriso enigmático que ele lembrava de seu sonho. "Vai nos ensinar a voar, ou vai tentar nos parar?"

Jorge não sabia mais o que fazer. Ele sentia o chão abaixo de si, mas ao mesmo tempo a sensação de gravidade parecia fraca, distante. Ele olhou pela janela e viu o mundo lá fora, tão distante e, ao mesmo tempo, tão próximo. Um mundo onde tudo era possível, até mesmo a levitação.

No fundo, sabia que o que acontecia na sala de aula não era apenas um fenômeno inexplicável. Era um reflexo de algo muito maior, algo que ele começava a perceber, mas que ainda não conseguia compreender.

"O mundo flutua... é hora de lançar âncora ou começar a voar?", pensou Jorge, com uma leveza que nunca imaginara possível. E, antes que percebesse, seus próprios pés se elevaram do chão.

quinta-feira, janeiro 09, 2025

abraço

guardava os abraços em um armário,
funcional, não reconhecia seu tesouro.
era coisa simples, de pouco encanto, 
lata que jamais se tornaria ouro.

até que um dia, por um sopro do destino,
envolvido por um abraço profundo,
mergulhou na doçura desse abrigo,
guardou-o em seu coração, lá no fundo.

no peito, agora se encontra seguro.
o armário ficou vazio, sem calor...
e hoje, mesmo o abraço mais simples, 
é guardado onde brota o amor.