Eduardo era um homem de
quarenta e poucos anos, com um emprego razoável que lhe proporcionava o
suficiente para viver bem, mas não o suficiente para se considerar de fato
alguém privilegiado. Com um ciclo de amizades diversificado, suas conversas
eram também diversas: política, literatura, filosofia. As conversas eram
recheadas de uma profundidade que surpreendia todos à sua volta. O que mais
intrigava as pessoas era a variedade de suas falas, que carregavam uma lógica e
embasamento, então se perguntavam, sem nunca conseguirem encontrar uma resposta
lógica, “de onde ele tirava todo aquele saber?” Não havia se quer indício de
que fosse um aficionado pela internet, embora a utilizasse.
À primeira vista, Eduardo
parecia ser o tipo de pessoa que se conformava com a rotina, com um estilo de
vida sem grandes mudanças, mas que, ao mesmo tempo, possuía algo diferente,
algo que o tornava especial. Seu olhar era atento, seus gestos calculados, e
suas palavras, sempre certeiras. Ele era uma pessoa que, mesmo não aparentando,
era um grande leitor, daqueles sempre atentos às novidades literárias e científicas.
Mas sua casa era vazia de
livros. Isso intrigava seu círculo de amizade. Os móveis, embora simples e bem
arrumados, não guardavam o cheiro característico de um lar de leitores. Às vezes
viam um único volume jogado de forma um tanto desleixada em algum móvel da casa,
mas se alguém o folheasse, perceberia que era um livro já lido e rabiscado à
mão. A ausência de livros, embora não seja a única maneira de adquirir conhecimento,
realmente causava estranheza ao perceber a solidez argumentativa de Eduardo.
"Ele deve ter uma
biblioteca em outro lugar da casa", pensava uma amiga de longa data.
"Mas onde, se conheço todos os cômodos? E por que alguém esconderia uma
biblioteca?"
Ninguém sabia. Nenhuma pista
óbvia surgia. E quando perguntavam diretamente para ele, logo desconversava e
mudavam de assunto.
A verdade estava em outro
lugar. De fato, Eduardo era um excelente leitor, aliás, nada comum. Os livros
não serviam para acumular prateleiras e mais prateleiras de conhecimento. Ele havia
estabelecido certa missão para si, pouco visível, mas que via como transformadora
– se não fosse transformadora do mundo era para ele mesmo, pois o levava ao
desapego e um trabalho constante de sua memória: Eduardo era um semeador.
Pensava consigo que conhecimento
não estava em acumular livros ou em exibi-los, mas em espalhá-los. Tornou-se um
jardineiro de palavras, lançando sementes por onde passava. Cada livro lido era
uma semente que ele deixava cair em algum ponto, para quem sabe, dali nascer um
novo leitor. Cada semente jogada era um salto no vazio, um salto às cegas, um
gesto tateante, porém, estratégico, afinal nem toda semente plantada será uma
árvore frondosa. Mas sabia que para colher o saber, era preciso apostar, vai
que o gesto semanalmente repetido não só colhesse leitores, mas também novos
semeadores.
Assim, sempre que terminava de
ler um livro, Eduardo fazia questão de não guardá-lo na estante. Deixava-o. Em
uma praça movimentada, sobre um banco qualquer, onde um passageiro de metrô
poderia dar uma olhada, em um ônibus, um uber, num café, qualquer lugar onde o
livro pudesse ser deixado de lado, como um presente anônimo, uma mensagem a ser
lida por quem se sentisse atraído por suas páginas. Pouco importava quem seria
e mesmo se leria... procurava não pensar muito sobre isso, afinal livros foram
feitos para serem lidos.
Aos olhos de seus amigos,
Eduardo parecia ser um autodidata que absorvia tudo a seu redor – embora soubessem
de sua graduação em economia –, mas seria suficiente, se perguntavam. Mas ele
colhia conhecimento, absorvia e depois jogava as sementes por toda a cidade.
Ele não tinha medo de que seus livros pudessem cair nas mãos de alguém que não soubesse
aproveitar. Seguia firme na sua ação, pequena, tinha consciência, mas
acreditava que o primeiro passo de tudo é tornar acessível, por isso acreditava
que a distribuição era importante, muito mais do que acumular tais objetos para
si.
Os amigos seguiam
desconfiados. Certa vez, durante um jantar, alguém comentou sobre um livro de
filosofia que estava na moda. Eduardo, com um sorriso discreto, comentou sobre
as ideias daquele pensador como se tivesse sido seu aluno. O grupo se espantou.
Foi Luana quem perguntou, misto de curiosidade e espanto: "Você tem tantos
livros na cabeça, Eduardo. Como você consegue?"
Ele deu um gole no vinho e
olhou para os amigos, respondeu que os semeava.
A resposta soou enigmática. Todos
riram, imaginando tratar-se de ironia, quando era, na verdade uma metáfora da
sua ação. Eduardo sabia o que estava dizendo.
No dia seguinte, Eduardo estava
no centro da cidade, com um movimento quase imperceptível, retirou de sua
mochila um livro de poesia. Ele olhou para os lados, e, com um gesto tranquilo,
deixou o livro em um banco de praça, antes de continuar seu caminho, como se
nada tivesse acontecido. E ali, naquele banco da praça, o livro ficou a esperar
o próximo leitor que o encontrasse... Eduardo e o futuro leito nunca se
encontrariam, mas alguma conexão seria criada entre eles.