Disse Utnapishtim:
Nada permanece.
Será que construímos uma casa para ficar para sempre, será que selamos um
contrato para que valha em todos os tempos? Dividem os irmãos uma para
guardarem para sempre, perdurará o tempo da inundação dos rios? Só a crisálida
da libélula é que solta a sua larva e vê o sol na sua glória. Desde os dias
antigos que nada permanece. Que semelhantes são aos mortos os que dormem – são como
uma morte pintada!
Gilgamesh – Épico sumério
Nascer é lançar-se a um abismo
desconhecido, abrir-se à morte que caminha conosco. Cada dia vivido aproxima o
fim, mas também amplia a experiência. Sobrevivemos por meio dos filhos, das
obras, dos gestos que permanecem como memória compartilhada. Morrer cedo pode
parecer um bem, fuga do desgaste, contudo viver é precioso justamente por ser
transitório. A vida, incógnita radical, nos joga no reino das possibilidades e
da escolha. Por isso, diariamente, devemos penetrar o mundo com sensibilidade,
pensá-lo com cuidado, agir com responsabilidade, sabendo que tudo passa, mas
nada vivido é inútil, quando lembrado, partilhado, assumido, sentido, narrado
com verdade.