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domingo, dezembro 15, 2024

O relógio

Nascera com um relógio vivo incrustado no peito. Os ponteiros não eram feitos de metal, mas de algo que pulsava como veias douradas, movendo-se ao ritmo de um coração que não era só seu. Desde o início, porém, soubera que o tempo não lhe pertencia.

Os pais, intrigados com aquela criatura nascida com um mecanismo mágico, decidiram moldá-lo para a grandeza, tornar-se-ia um vencedor. Ele poderia ser o melhor, pois, acreditou, aquele relógio não era uma maldição, mas uma dádiva. Começou a estudar antes que pudesse falar direito. Aprendeu a ler os ponteiros antes mesmo das palavras e, em sua mente de criança, o tique-taque tornou-se parte inextricável de sua carne. Aprendeu línguas, especialmente o inglês, por ter nascido em solo brasileiro, esta era a língua imprescindível. Tivera este azar, o de não nascer em país de língua anglo-saxã, caso em que seria desnecessário aprender outro idioma.

Depois de muitos anos estudando, pouco sabia da vida e do mundo, mas sentia-se preparado para dar o seu melhor. Adentrou o mundo do trabalho, sempre regulado por seu relógio, era um exímio cumpridor de horários e compromissos. Reclamava nos mais próximos a displicência, mas sempre ouvia deles que não tiveram a mesma sorte de nascerem com um relógio.

Regulado pelos segundos, sentia uma alegria feroz por cumprir todos seus compromissos no tempo correto. Passados alguns anos, começou a empalidecer. Todos os dias, antes de dormir, sentia seu sangue sendo drenado, não se perguntou o porquê. Compreendia apenas que após algumas horas de sono acordava renovado, então passou a ver como normal aquelas drenagens diárias.

Certo dia se questionou sobre o fato de ainda não ter se tornado um vencedor, afinal fora preparado para isso desde muito cedo. Ele, tão especial, nascera com um relógio. Seus pais o consolavam: “Há de chegar o tempo, filho”.

Sentia-se íntimo do tempo, senhor soberano de todas as vidas, pois o acompanhava segundo a segundo em seu relógio, que jamais atrasara. O tempo levou seus pais, um pouco abalado, ele, pela segunda vez, se questionou: por que ainda não se sentia um vencedor? É certo que tivera algumas conquistas, mas longe do que imaginava e do que prometeram para ele, ser tão especial.

Empalidecia a olhos vistos e cada vez mais rápido. Para onde iria seu sangue? Tal questionamento passou rapidamente por sua cabeça, mas a fraqueza não o deixou ir além. Continuou firme em seu propósito: haveria de ser um vencedor. Às vezes é preciso paciência, pois a vitória pode está na esquina... Confiava no mundo à sua volta e nas propagandas ditas desde sempre. Mais que isso, não cansava de repetir para si: ele se preparou para isso.

Certa noite sentiu que sugaram seu sangue além da conta. O sono não foi suficiente para se recuperar. Dali em diante, as horas dormidas não mais repunham suas energias, mas continuou a cumprir todos os horários, não tinha direito de atrasar, afinal era o homem-relógio. A fraqueza não o deixava desacreditar: a vitória não tardaria.

Mesmo já tendo idade, preferiu não se aposentar. O relógio continuava a ser seu guia inflexível. Era um exemplo para as pessoas à sua volta. Tudo era costume, não conseguia desviar da rota que o mundo traçara para si. Teve a certeza de tornar-se um vencedor até o seu segundo final.

quinta-feira, dezembro 12, 2024

Dolores

Ela margeava o terreno baldio, encharcado após a chuva. O medo que sempre a acometera ao passar por ali, não veio. Abstraíra-se do mundo, anestesiada pela sua dor. Não era dor física, mas cortava como gilete.

O passo ligeiro. Na cabeça não parava pensamento: turbilhão, boiada desembestada. Por isso não se ateve àquela parte que sempre a inquietava. Josias lhe pagaria por tudo isso. Seria capaz até de matá-lo, isso se ele já não estivesse morto. Estancou.

- Como é possível? Se perguntava, enquanto tudo girava em meio aquele turbilhão de dor. Nada fazia sentido.

Deu alguns passos, cruzou os braços no alto e tornou a estancar. Um raio anunciou a descida do próprio Xangô ao seu corpo. Fez-se o silêncio. Tudo à sua volta tornou-se nítido. Via a si mesma, aquele corpo magro de tanta peleja na vida. A dor anestesiou. Explodiu em gigantesco grito. Toda a comunidade tremeu.

Era pororoca desordenada:

- Hoje ninguém dorme. É hora do basta!

Chamava alto, batia às portas, puxava pela mão... redemoinho de gente. Paus, móveis velhos e tudo o mais que pudesse queimar. Barricada, pedras nas mãos... Gritava e repetia incessantemente:

- A polícia nunca mais vai entrar aqui pra nos matar.

De longe, a parte da cidade que insistia em ignorar aquele pedaço, pressentia o furor e já avistava o clarão do fogo.

sexta-feira, novembro 15, 2024

Josivaldo e a República

 Josivaldo acordou com o barulho distante de fogos de artifício que explodiam no céu ainda acinzentado do amanhecer. O feriado se anunciava com estardalhaço, mas para ele, o dia era apenas uma pausa rara no relógio inclemente que regia sua vida. Passara os últimos dias no batente, como sempre, esmagado nas filas do transporte público, preso na rotina que parecia projetada para esgotar o pouco que restava de sua energia. Aos domingos, quando finalmente o calendário lhe concedia a esmola de um dia de "descanso", ele se encontrava de joelhos consertando o que a casa precisasse, ajustando a vida que insistia em desandar. A folga era apenas uma ilusão — um intervalo extenuante para manter em funcionamento uma engrenagem já desgastada.

Hoje, contudo, o cansaço não o deteria. Havia algo diferente no ar, um chamado que ele não podia ignorar. Josivaldo sabia, de algum canto da memória, que “República” significava coisa pública, algo que deveria pertencer a todos e todas. Mas, enquanto se preparava para sair, uma ironia amarga lhe escorria pela mente: se a República era de todos, por que era tão difícil enxergá-la no bairro onde morava? Ali, a realidade não condizia com discursos de igualdade e cidadania; não havia parques, as ruas eram esburacadas, e o transporte era uma roleta russa de atrasos e apertos. Não era à toa que, todos os dias, ele e os seus vizinhos se espremiam como sardinhas para ir ao trabalho — para sustentar uma rotina que o tornava cada vez mais exausto, cada vez mais esvaziado.

Mas hoje não. Hoje ele iria à rua, cansado e tudo, para se somar à multidão que reivindicaria o fim da jornada de trabalho 6x1, uma jornada que ele conhecia bem demais. Havia anos que seu corpo era sugado, semana após semana, deixando-lhe apenas cansaço e uma vontade latente de se insurgir. Sentia, nas horas extras que se acumulavam como um fardo invisível sobre seus ombros, o peso de um sistema que parecia criado para espremer até a última gota de suor. E quando não houvesse mais nada a espremer, ele sabia o que acontecia: o sistema simplesmente o descartaria.

Enquanto caminhava pela avenida principal, Josivaldo notou que as ruas estavam mais cheias do que o habitual para aquele horário. O som de tambores e palavras de ordem se misturava ao ar, e, por um momento, ele sentiu algo que quase havia esquecido: esperança. Lá estavam eles, os rostos anônimos, gente como ele, que deixara para trás o cansaço, as contas atrasadas, a rotina esmagadora, para estar ali. O som das palavras de ordem pulsava em seu peito como um segundo coração, revigorando-o a cada passo que dava em direção ao centro do protesto.

O cheiro de pipoca, churrasquinho e fumaça se espalhava no ar, criando um contraste quase grotesco com a seriedade das pautas que enchiam as faixas e cartazes. "Trabalho para viver, não para morrer", "Chega de escravidão moderna", "Queremos vida, não só sobrevivência". Josivaldo sentiu uma espécie de alegria crua ao ver aquelas palavras estampadas em letras vermelhas. Ele não estava só; sua dor era a dor de tantos outros.

Quando finalmente se aproximou do núcleo da manifestação, uma energia elétrica percorria o espaço, como se a própria rua estivesse viva, pulsando junto com aqueles que a ocupavam. Havia gente de todas as idades, mães com filhos no colo, jovens de rostos pintados, idosos que empunhavam bandeiras desbotadas pelo tempo. Josivaldo se permitiu sorrir, uma ruga nova se formando no canto dos lábios enquanto ele erguia o punho em uníssono com os demais. Ali, entre estranhos, ele encontrara algo que quase havia esquecido: pertencimento.

De repente Josivaldo, tomado pela emoção daquela energia da multidão, paralisa. Para enquanto o grupo segue em caminhada. Um vislumbre de futuro, as imagens de seu cotidiano martelando sua cabeça, ele não sabe explicar a paralisia. Mas então, um braço forte o segurou. Era um jovem, rosto coberto por um pano, olhos determinados.

— Vamos, companheiro! Não desiste agora!

E, com um puxão decidido, o jovem o colocou em movimento outra vez. Josivaldo arfava, mas continuava caminhando... O sol brilhou em seus rostos, como se os saudasse por sua resistência. Só aí olhou para o lado e se dirigiu ao jovem:

— Obrigado, meu irmão... — murmurou Josivaldo, apertando a mão do jovem.

— A luta é nossa, companheiro. 

E, mesmo exausto, mesmo sabendo que a vitória ainda parecia distante, Josivaldo sentiu algo dentro dele reacender. Naquele feriado, ele havia descoberto que sua vida não era só a repetição exaustiva de dias sem fim. Ele podia, mesmo que por um instante, sentir-se dono da própria existência. A República, afinal, ainda poderia ser de todos.

domingo, novembro 10, 2024

A cultura de um tempo fluido

 

Adailtom Alves Teixeira[1]

Se como seres humanos somos o resultado cultural de onde fomos socializados (Laraia, 2005), em um mundo globalizado, integrado por um único modo de produção que regula nossas vidas, somos todos/as afetados e formados (postos na forma) por esse tempo e sistema do qual não temos como nos desvincularmos. Mesmo a crítica ou oposição, é feita a partir de um ponto de vista de dentro. Como alerta Terry Eagleton: “Cultura é uma dessas raras ideias que têm sido tão essenciais para a esquerda política quantos são vitais para a direita [...]” (2005, p. 11). Mas nosso ponto aqui será as mudanças profundas realizadas pelo capitalismo tardio.    

Tanto Zygmunt Bauman em Vidas Desperdiçadas (2005), como Richard Sennett em A Cultura do Novo Capitalismo (2006), apresentam uma crítica contundente à forma como a sociedade contemporânea foi moldada pelo capitalismo tardio. Ao abordar a fluidez e a volatilidade que caracterizam a modernidade atual, eles destacam como as mudanças no trabalho, no chamado “talento” e no consumo afetaram profundamente a vida humana. Essa transformação cultural, segundo ambos os autores, não trouxe a tão prometida e propagandeada liberdade, mas, ao contrário, aprisionou os indivíduos em novas formas de insegurança, precariedade e alienação.

Sennett descreve como a aceleração do tempo se tornou uma característica central da vida moderna. Na cultura capitalista contemporânea, o tempo não é apenas um recurso, mas um campo de batalha onde todos lutam para não ficarem para trás. A lógica de mercado demanda que os trabalhadores migrem constantemente de uma tarefa para outra, de um emprego para outro, de um lugar para outro. O "ideal do artesanato", que valorizava a dedicação e o aprofundamento em uma habilidade específica, foi relegado ao passado. Para Bauman, esse deslocamento contínuo reflete a liquidez da modernidade, pois nesse nosso tempo tudo é transitório e descartável, inclusive as pessoas.

O tempo, que antes oferecia um senso de continuidade e planejamento (como nas carreiras lineares do passado), tornou-se uma série de momentos fragmentados, em que a acumulação de experiência ou conhecimento a longo prazo é desvalorizada. O trabalhador deve ser flexível, capaz de se adaptar rapidamente a novas demandas. Nesse cenário, a estabilidade e a profundidade dão lugar à superficialidade e ao imediatismo.

A Crise do Artesanal

Para Sennett, o novo capitalismo destrói o ideal do trabalho artesanal. Fazer algo bem feito, simplesmente pelo prazer de fazê-lo, perdeu sentido em um contexto onde o que importa é a capacidade de executar múltiplas tarefas, muitas vezes desconectadas entre si. “A especialização profunda é substituída pela "portabilidade de habilidades”, valorizando-se profissionais que podem ser deslocados para diferentes funções sem muita preparação.

Bauman complementa essa análise ao mostrar que, em um mundo governado pela lógica do consumo, o valor do trabalho está atrelado à sua utilidade imediata e descartabilidade. Se no passado havia um vínculo entre a identidade do trabalhador e o seu ofício, hoje, essa relação é fragmentada. Os trabalhadores tornaram-se meras engrenagens, peças substituíveis, sempre à mercê das demandas do mercado.

Daí a chamada modernidade líquida de Bauman, enfatizar o conceito de "vidas desperdiçadas" ou refugos humanos. A aceleração do tempo e a superficialidade no trabalho levam a um aumento no número de indivíduos considerados descartáveis, ou como chamou Fernando Henrique Cardoso, "inimpregáveis" – pessoas que, devido à sua idade, falta de qualificação ou até mesmo obsolescência tecnológica, são descartadas pelo sistema. Sennett reforça essa ideia ao observar que a lógica do capital privilegia o jovem, flexível e barato, enquanto os mais velhos, com suas habilidades que se tornam obsoletas rapidamente, são deixados de lado.

O medo de se tornar supérfluo, redundante, isto é, refugo humano, assombra os trabalhadores, que precisam constantemente requalificar-se para se manterem relevantes. A incerteza e o medo se tornam os novos motores de uma economia que demanda eficiência e lucratividade instantâneas. Desse modo, a criação de espantalhos é outro aspecto desse problema, isto é, o outro, sobretudo o imigrante para as economias desenvolvidas, passa a ser o inimigo de plantão.

Uma política para ser consumida

Sennett também explora como o consumo permeia não apenas o mercado, mas todas as esferas da vida, incluindo a política. Os cidadãos são tratados como consumidores, cuja insatisfação é capitalizada para gerar lucros e manipular o mercado político. Bauman identifica esse fenômeno como uma alienação extrema, onde até mesmo os desejos e as aspirações das pessoas são moldados por uma lógica consumista. A política torna-se um produto, com plataformas que mais se assemelham a estratégias de marketing do que a ideais de transformação social. Conforme salienta Sennett, cinco aspectos afastam o consumidor-espectador-cidadão da política progressista: ele é

[...] (1) convidado a aprovar plataformas políticas que mais parecem plataformas de produtos e (2) diferenças laminadas a ouro; (3) convidado a esquecer a “retorcida madeira humana” (como se referia a nós Immanuel Kant) e (4) dar crédito a políticas de mais fácil utilização; (5) aceitar constantemente novos produtos políticos em oferta (2006, p. 148).

 

Nesse contexto, o engajamento político autêntico é corroído, pois os cidadãos-consumidores tornam-se passivos, movidos mais pelo desejo de satisfação imediata do que pela reflexão crítica. A democracia, assim, é simplificada e diluída, transformando-se em um espetáculo onde a participação se resume a um "comprar" simbólico de ideias políticas, muitas vezes já mastigadas e pré-formatadas para fácil digestão.

Uma falsa liberdade para consumo

Os defensores do novo capitalismo argumentam que ele oferece maior liberdade, mas tanto Bauman quanto Sennett discordam. A liberdade prometida é ilusória: em vez de promover uma autonomia real, ela aprisiona os indivíduos em um ciclo constante de consumo e atualização. A liberdade de escolha, evidentemente, é superficial, pois, na prática, as opções são limitadas às mercadorias e às experiências oferecidas pelo mercado, seja ele de um novo governo, seja de um novo mundo.

A "paixão consumptiva", como Sennett descreve, reflete a necessidade constante de buscar algo novo, mesmo que esse algo não satisfaça plenamente. No entanto, essa busca constante é, paradoxalmente, uma fonte de alienação e solidão. A frustração gerada pela insaciabilidade do consumo é frequentemente canalizada para o campo político, criando um ambiente onde o populismo e as respostas simplistas ganham força.

Considerações finais

A reflexão sobre a cultura no capitalismo contemporâneo, a partir de Bauman e Sennett, revela um cenário sombrio: um mundo onde o tempo é acelerado, o talento é descartável, e o consumo se tornou o único paradigma válido. A promessa de liberdade e progresso se desfaz diante de uma realidade em que os indivíduos são constantemente substituídos, descartados e manipulados. Assim, o capitalismo tardio não trouxe a liberdade que prometia, mas sim uma sociedade mais fragmentada, onde as vidas são desperdiçadas em nome de um progresso que serve apenas a uma elite cada vez mais rica. Kohei Saito em O capital no antropoceno afirma que “[...] que os 26 capitalistas mais ricos do mundo controlam tanta riqueza quanto os 3,8 bilhões mais pobres (aproximadamente metade da população mundial)” (2024, p. 143).

Medo, por rumarmos ao desconhecido e por estarmos pressionados pelo iminente descarte, nos sobra a ânsia de mergulhar cada vez mais fundo no mundo das mercadorias, seja ela reais ou simbólicas:

Em suma, as mercadorias encarnam a derradeira falta de razão e a capacidade que as escolhas têm de serem revogáveis, assim como a extrema descartabilidade dos objetos escolhidos. Mais importante ainda, parecem colocar-nos no controle. Somos nós, os consumidores, que traçamos a linha divisória entre o útil e o refugo. Tendo por parceiras as mercadorias, podemos deixar de nos preocuparmos em terminar na lata de lixo (Bauman, 2005, p. 161).

 

Ao final, se temos todos/as nos tornado meros consumidores/as, resta-nos a pergunta: é possível resgatar um sentido de pertencimento e propósito em um mundo que valoriza mais o efêmero do que o duradouro? Teremos capacidade de realizarmos as mudanças necessárias? Fato é que é mais que necessário repensar radicalmente as estruturas que regem nossas vidas, antes que nos tornemos, todos, meros consumidores em um espetáculo sem fim.

 

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. Trad.: Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

EAGLETON, Terry. A ideia de cultura. Trad.: Sandra Castello Branco. São Paulo: EdUnesp, 2005.

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 18ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

SAITO, Kohei. O capital no antropoceno. Trad.: Caroline M. Gomes. São Paulo: Boitempo, 2024.

SENNETT, Richard. A cultura do novo capitalismo. Trad.: Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2006.



[1] Professor adjunto da Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Doutor e Mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp); graduado em História; autor dos livros Circo Teatro Palombar: somos periferia; potência criativa (Fala, 2024), Teatro de rua: identidade, território (Giostri, 2020) e coorganizador de Paky`op: experiência, travessias, práxis cênica e docência em teatro (Edufro, 2022).

domingo, outubro 20, 2024

Dia do poeta

Hoje é dia do poeta. Um dia que, como tantos outros, passa quase despercebido, na pressa cotidiana das redes sociais, do trânsito apressado e das telas iluminadas que nos distraem. Por conta da passagem de meu aniversário no dia de ontem, ganhei dois livros, ambos de poesia: Patativa do Assaré e Fernando Pessoa. Hoje não é um dia qualquer. É um dia que nos convida a pensar sobre o papel de quem se arrisca a colocar palavras no mundo, a criar realidades, a desvelar os sentimentos e os pensamentos que muitas vezes preferiríamos esconder, até de nós mesmos.

Em uma de suas obras mais conhecidas, A República, Platão expulsa os poetas de sua cidade ideal. Platão, o filósofo aristocrata, criador de uma utopia fundamentada no mundo das ideias, na qual, em tese, imperam razão e ordem, temia o poder da poesia. Para ele, os poetas não eram apenas artistas, mas perturbadores da harmonia da alma. Eles, em sua capacidade de evocar emoções e fantasias, poderiam desviar os cidadãos da busca pela verdade. Isso porque, para o filósofo, a poesia era um reflexo imperfeito da realidade, e como tal, deveria ser afastada de sua suposta república perfeita.

Platão temia as emoções que os poetas despertam. Ele sabia que a arte pode incitar, inspirar e até provocar revoluções internas. No entanto, o filósofo achava que a emoção, a paixão, era algo a ser controlado. Afinal, se os cidadãos se entregassem às delícias da poesia, como poderiam manter a racionalidade e a disciplina necessárias para o que ele considerava uma sociedade justa? Os poetas seriam, portanto, perigosos. Mas, ao expulsá-los, Platão não estava apenas afastando esses criadores de mundos, estava também, em certo sentido, excluindo todos os artistas. Pois, afinal, o que é a arte senão a busca constante por aquilo que rompe com os limites das caixinhas que a sociedade nos impõe? Daí o constante questionar das estruturas, das convenções de uma sociedade e da própria arte, ao menos como busca. Pode-se questionar: mas nem toda arte vai nessa direção de ruptura e inovação! É verdade, mas quando miramos a história da arte em geral, parece-nos que é isso que fica como legado. 

Se Platão tivesse razão em sua concepção, a arte seria um veneno que corrompe a alma. Porém, a história tem mostrado o contrário. Quanto aos poetas, eles não se limitam a criar meras ilustrações da realidade; eles a (re)constroem, desafiando-nos a ver o mundo de outra maneira. Eles criam imagens que provocam reflexões, sentimentos e questionamentos. Em A triste partida, cordel de Patativa do Assaré e depois musicado por Luiz Gonzaga, a minha (e de milhares e milhares) condição de migrante é recriada, seja devido a seca, como está no poema, seja pelo abandono político a que são submetidas essas pessoas. A poesia seria limitada se tocasse apenas quem viveu a situação, sua força está em justamente criar e recriar esse mundo para todos/as os/as outros/as que a leem. Um pequeno fragmento do citado poema:

[...]

E assim vão deixando 

Com choro e gemido 

Do berço querido 

Céu lindo azul 

O pai, pesaroso 

Nos filho pensando 

E o carro rodando 

Na estrada do Sul 

Chegaram em São Paulo 

Sem cobre quebrado 

E o pobre acanhado 

Procura um patrão 

Só vê cara estranha 

De estranha gente 

Tudo é diferente 

Do caro torrão

[...]

A função do poeta, em qualquer sociedade, é essa: a de provocar. Provocar reflexões, emoções, escavar emoções... Ele é um farol que ilumina as zonas de sombra da existência, que põe luz sobre o que normalmente preferiríamos ignorar. Os poetas não fazem poesia apenas para embelezar o mundo, mas para escancarar sua complexidade. Eles são os tradutores do caos, da beleza e da dor. Eles nos mostram que, em meio ao absurdo da vida, ainda há espaço para a reflexão, para o amor, para o inconformismo.

Por isso o poeta é também um rebelde. Ele não se submete às convenções e na maioria das vezes se opõe às ordens estabelecidas. Se Platão temia o poder da poesia, ele temia também o poder de questionar a ordem que era imposta. Os grandes poetas nos desafiam a irmos mais fundo, a questionarmos o sentido da vida e a própria natureza da verdade.

E é por isso que, mesmo sem grandes celebrações, o dia do poeta merece nossa atenção. Afinal, se a arte da poesia tem o poder de nos tocar profundamente, é porque ela não busca apenas nos entreter, mas, principalmente, nos fazer pensar. Por mais que Platão tentasse, os poetas nunca foram verdadeiramente expulsos. Eles permanecem aqui, desafiando-nos a ver o mundo com outros olhos. E é justamente essa a função de um poeta em qualquer sociedade: lembrar-nos daquilo que ainda não sabemos, ou daquilo que, por medo ou comodidade, deixamos de lado. viva os poetas e a poesia!

domingo, outubro 13, 2024

Cidade-memória

 

É o rio que corta a cidade

Ou é a cidade que enforca o rio

Elizeu Braga

 

Ontem fui ao Complexo Madeira Mamoré (CMM) para apreciar o pôr do sol, após tantos dias de uma cidade tomada pela fumaça, foram quase dois meses. As primeiras chuvas – ainda escassas – limparam um pouco o horizonte e foi possível ter a nossa beleza de volta: céu azul e um sol que morre lentamente, tendo à nossa frente o rio Madeira. O rio continua revelando a seca extrema a que foi submetida toda a Amazônia, os bancos de areia e a navegação de apenas pequenos barcos pelo Madeira são provas que ainda temos um longo caminho a percorrer.

O marco zero da cidade, Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, continua a ser um ponto muito querido e apreciado pelos/as porto-velhenses. Muitas pessoas foram pra lá com o mesmo objetivo que eu. Outros aproveitaram bem mais, pois era dia das crianças, atividades como piquenique, passeio no trenzinho e outras atividades realizadas em frente à estação, transformada (ótima ideia!) em sala de exposição. Aliás, está em cartaz a 2ª Mostra Coletiva Destemidos Pioneiros (acho o nome horrível, pois quem se pressupõe “pioneiro” apaga a história indígena – mas isso é conversa pra outro dia) com muita gente bamba, como Silvia Feliciano, Marcela Bonfim – sempre nos revelando a negritude amazônica, que a história oficial tenta apagar –, Homero dos Santos e o incrível Flávio Dutka, inclusive com sua impressionante série 23:59`22 que nos aponta para o apocalipse se continuarmos a queimar a Amazônia e outros biomas brasileiros. A Mostra é uma realização do Sesc Rondônia e vale muito a pena conferir.

Foto Adailtom Alves. Memória do tempo de um rio cheio. 

Fiquei atento ao Museu, completamente vazio, afinal agora há cobrança de R$ 30,00, um valor pouco acessível aos cidadãos e cidadãs, afinal, imaginem uma família com dois filhos que tenham que desembolsar o ingresso para quatro pessoas o quanto isso impacta no orçamento familiar. Por outro lado, Porto Velho não é uma cidade que receba tantos turistas assim, quem mais usufrui daquele espaço são os/as moradores/as locais. Vale ressaltar que a visita ao Museu é fundamental, mas a cobrança se tornou um impeditivo para muitos/as.

Mas eu fui também para ver a Feira do Sol, que após intensa negociação voltou para o espaço de onde nunca deveria ter saído. Ela está um pouco escondida, embaixo da marquise do segundo grande barracão à esquerda, onde, dizem, futuramente haverá um restaurante imponente. Está lá com toda a sua diversidade, incluso com a arte – não ousaria chamá-la de artesanato – dos povos originários. Visitem e comprem. Em conversa com Chicão, um dos organizadores da feira, foi acertado inicialmente apenas por 90 dias, mas esperamos que a feira permaneça no local por muito mais tempo.

Após a feira, como tantos fui apreciar a vista com mais vagar. Tornei a sonhar, como faço desde que cheguei aqui em 2014, com o dia em que teremos no poder executivo alguém que governe preocupado com o bem-estar da maioria e construa uma orla que saia do CMM e siga até o Memorial Rondon (Santo Antônio), integrando dois pontos históricos da cidade. Nesse dia, a cidade que cresceu de costa para o rio, devolverá o Madeira aos cidadãos e cidadãs. Afinal, como escreveu Luiz Antonio Simas em seu O corpo encantado das ruas: “Quem pretende ser feliz, ensinam os caboclos da beira d`água, deve se dirigir ao rio nas horas do poente, pois é o momento em que os botos vermelhos suspiram suas artimanhas de delicadezas e felicidades, rememorando faceiros seus amores de quando eram homens e mulheres viventes” (2022, p. 162).

Fechando o rolê desse sábado, fui a outro ponto histórico: a Praça das Três Caixas d`Água. Fui porque já era noite e queria comer algo. Lá estão diversos quiosques de alimento e artesanato. São pequenas barracas de “latas” que fazem parte do projeto Giro Empreendedor. As barracas são bonitas, mas é certo, no calor amazônico, funcionam como verdadeiras panelas de pressão para os trabalhadores que cozinham lá dentro.

Alimentado, passei ao lado da recém inaugurada Calçada Criativa, ali próximo (Rua Santos Dumont), completamente vazia. Pois, como diz o nome, ainda é apenas uma calçada, ainda que bonita. Mais uma vez, fiquei sonhando com o dia que se tenha uma programação cultural todo fim de semana naquele lugar para que a população, de fato, possa aproveitar o espaço. Nesse dia, a calçada será pouca e será necessário fechar toda a rua. Fica a dica!

Referências

BRAGA, Elizeu. Mormaço. Porto Velho: edição do autor, s.d.

SIMAS, Luiz Antonio. O corpo encantado das ruas. 11ªed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2022.

segunda-feira, setembro 02, 2024

O retorno de Teotônio ou de quando a secura nos inunda

Teotônio desceu do ônibus com passos lentos, quase como se o peso de sua memória estivesse colado aos pés. Havia uma década desde que ele deixara Porto Velho, fugindo da cheia devastadora de 2014, que tragara casas e esperanças, inclusive as suas. Naquela época, a cidade parecia desmoronar sob o peso das águas enfurecidas do rio Madeira. Na bagagem, carregava sonhos de uma vida nova, longe da dor de ver sua terra submersa. Agora, ao pisar novamente no solo que um dia chamara de lar, o ar parecia pesado, não só pelo calor sufocante, mas por algo que ele ainda não conseguia nomear.

O ponto inicial de seu reencontro era o marco zero da cidade, o complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, símbolo de um passado que sempre o fascinara. Havia algo de poético nas velhas locomotivas enferrujadas, nas linhas férreas que pareciam sussurrar histórias de tempos imemoriais. Aquela era a sua conexão com a história, com o rio que corria em frente, o mesmo rio que lhe arrancara de sua terra. Na infância, costumava brincar por ali, imaginando-se um desbravador, um construtor dos trilhos que um dia cortaram a selva. Agora, o espaço estava reformado, revigorado, entregue novamente à população, como um presente que o tempo lhe devolvia.

Ele caminhou até a beira do rio, sentindo a brisa quente que acariciava seu rosto. O sol já começava a se esconder no horizonte, tingindo o céu com tons de laranja e vermelho. Teotônio esperava por aquele momento, o pôr do sol, como se nele pudesse encontrar respostas para as perguntas que o atormentavam. Mas o que encontrou foi uma cena desoladora: o rio Madeira, que um dia fora seu consolo, sua inspiração, parecia agora desfalecido, como se o brilho das águas estivesse sendo ofuscado por uma cortina densa de fumaça que pairava no ar. O azul do céu, tão cantado no hino, transmutara-se em outra cor.

Ele observou os ipês que enfeitavam a paisagem, suas flores amarelas tão vívidas e vibrantes em contraste com a cinza opacidade que dominava o ambiente. Era um contraste cruel, quase sarcástico. A fumaça das queimadas se infiltrava por todos os cantos, como um manto fúnebre cobrindo o que restava de beleza. Teotônio sentiu o peito apertar. A cada inspiração, parecia que sua alma se contaminava, que a névoa tóxica também invadia seus pensamentos.

“Como é possível?” ele murmurou para si mesmo, com a voz embargada. “Como é possível isso, aqui, na Amazônia? A maior floresta tropical do mundo, e respiramos o pior ar do mundo?”

As vozes que lhe respondiam eram os sussurros das árvores em agonia, o murmúrio das águas poluídas, o estalar dos galhos queimados. Para onde caminhava sua cidade, seu estado, seu mundo? Parecia que cada passo dado para frente, cada progresso proclamado, custava um pedaço da própria alma da floresta. Teotônio fechou os olhos, tentando bloquear a visão dolorosa. O rio, o pôr do sol, as flores dos ipês, tudo se apagava frente à fumaça que subia ao céu, disfarçando o azul com seu véu acinzentado.

Ele sentiu o coração pesado, carregando não apenas a saudade, mas agora a tristeza de uma tragédia que não era visível a olho nu, mas que era sentida em cada respiração. A tragédia de ver sua terra se afogando, não mais nas águas furiosas de uma cheia, mas na escuridão silenciosa da destruição, na ganância que transformava a vida em cinzas. Tudo fruto de um modelo de negócios que condenava todas as pessoas a viverem isso, enquanto enchia um os bolsos de dinheiros de alguns poucos.

Ali, no marco zero, onde tudo começara, Teotônio sentiu que estava diante de um fim. Não sabia o que faria, para onde iria, mas sabia que não podia ignorar o clamor abafado de sua terra, que ainda ecoava nos seus ouvidos, como o som longínquo de uma locomotiva que nunca se detém.


domingo, agosto 25, 2024

liberdade?

a burguesia, cotidianamente, promete

a liberdade em sua democracia

eu e tu, em nosso duro cotidiano

só pensamos em poder sobreviver

há liberdade quando nossa luta

é a cada dia buscar o nosso comer?

quarta-feira, agosto 14, 2024

Urbs Dystopia

No coração da floresta Amazônica, onde o verde outrora dominava, ergueu-se uma cidade que parecia saída dos pesadelos mais profundos. Old Port, como fora batizada, não surgiu por capricho da natureza ou por necessidade humana, mas como uma criatura moldada à força, forjada entre o fogo e o ferro. Os ventos que um dia carregaram o cheiro fresco da vegetação agora sopravam fumaça, e as águas dos rios, antes cristalinas, corriam como se carregassem a sombra do futuro sombrio da cidade.

Old Port não era um lugar onde o progresso tivesse qualquer relação com o bem-estar humano. Ali, o desenvolvimento era medido pelo brilho metálico das estruturas que dominavam o horizonte, pelo rugido constante das máquinas que nunca descansavam, e pelo crepitar do fogo que, assim como a cidade, parecia indomável. Para que Old Port existisse, povos antigos foram forçados a deixar suas terras sagradas, expulsos pela ambição dos homens que viam na floresta apenas um obstáculo a ser superado.

A cidade nasceu do fogo que queimava a floresta sem remorso, transformando árvores centenárias em cinzas e ferro. As chamas que devoravam a vegetação também moldavam o ferro bruto, que, em estado líquido, dava forma às estruturas maciças e sombrias que compunham a espinha dorsal de Old Port. O ferro era a carne da cidade, e o fogo, o seu sangue. A cada dia, a floresta recuava, e a cidade se expandia, consumindo tudo ao seu redor.

As pessoas que habitavam Old Port não eram como as de outros lugares. Atarracadas e de estatura reduzida, pareciam carregar no corpo o peso do ferro que sustentava a cidade. Não havia espaço para crescer em Old Port, nem física nem espiritualmente. As crianças nasciam pequenas e doentes, e os adultos envelheciam rapidamente, como se o próprio ar da cidade sugasse suas energias. Ninguém vivia além dos trinta anos, e a morte era uma presença constante, quase familiar, na vida dos habitantes.

O fogo, que queimava a floresta, também se tornara parte do cotidiano. Em Old Port, o lixo não era recolhido; ele era queimado nos quintais das casas, alimentando a atmosfera de fumaça espessa que nunca se dissipava. O saneamento básico era um conceito estranho à cidade, onde a água potável precisava ser fervida ou comprada a preços exorbitantes. Farmácias brotavam como ervas daninhas, uma para cada mil habitantes, vendendo remédios que ofereciam alívio temporário para os males crônicos que afligiam a população.

Ainda assim, o paradoxo da cidade era visível nas ruas. As pessoas, embora doentes e envelhecidas antes do tempo, dirigiam carros grandes e potentes, que pareciam desafiar a decadência que os cercava. Old Port era uma massa cinzenta de ferro e concreto, sempre envolta em uma névoa de fumaça, onde o verde da floresta era apenas uma lembrança distante.

No restante do país, Old Port era vista com medo e repulsa. Não apenas pela destruição que causava ao meio ambiente, mas pela ameaça que representava para outras cidades. A cidade não crescia em população, mas em extensão, espalhando-se como uma mancha escura pelo território. As pessoas temiam que os hábitos de Old Port se infiltrassem em suas próprias cidades, que o fogo e o ferro se tornassem suas realidades.

Old Port era uma ferida que nunca curava, uma cidade que, em vez de crescer e florescer, apenas se espalhava como um câncer, devorando tudo em seu caminho. E, enquanto o fogo queimava e o ferro dominava, a cidade continuava a se expandir, levando consigo a escuridão que assustava até mesmo aqueles que nunca a tinham visto. O medo da conurbação se espalhava pelo país, e Old Port, como uma entidade viva e faminta, avançava lenta e inexoravelmente, ameaçando transformar toda a nação em um reflexo distorcido de si mesma.

sexta-feira, agosto 09, 2024

O inferno da razão

 

A Cidade das Engrenagens

No século XIX, quando o mundo se expandia rapidamente na Revolução Industrial, uma cidade se erguia entre as névoas das máquinas e o vapor das fábricas. Essa cidade, que se estendia em um cenário de ar futurista, era conhecida como Mecania. Com suas torres metálicas alcançando os céus e suas ruas pavimentadas de ferro e vidro, Mecania parecia a personificação de um progresso irrefreável, mas escondia em seu ventre uma ordem social rígida e cruel, semelhante aos círculos descritos por Dante Alighieri em sua Divina Comédia.

O Paraíso dos Empresários

No alto das torres mais reluzentes, acima das nuvens de fuligem, viviam os Empresários. Estes homens e mulheres, envoltos em luxos inimagináveis, governavam a cidade com punhos de aço. Seus palácios eram feitos de cristal e ouro, reluzindo sob a luz artificial que banhava o Paraíso. Aqui, tudo era abundância: banquetes, prazeres e um conforto que o resto da cidade apenas sonhava. A propaganda incessante que circulava entre os canais da cidade exaltava esses Empresários como os guardiões do progresso, aqueles que moviam as engrenagens da civilização. No entanto, eles viviam isolados, separados do resto do mundo, como deuses intocáveis.

O Purgatório dos Gerentes

Abaixo do Paraíso, nas camadas intermediárias da cidade, habitava a classe média: os Gerentes. Eles viviam em apartamentos modernos, organizados em fileiras perfeitas, sem luxo, mas com tudo o que era necessário para uma vida estável. No Purgatório, a ordem e a eficiência eram a regra. Cada movimento era cronometrado, cada atividade racionalizada. Pequenos problemas e contratempos surgiam ocasionalmente, mas nada comparado aos horrores dos níveis inferiores. Os Gerentes acreditavam na promessa de que, com trabalho duro e dedicação, poderiam ascender ao Paraíso, mas poucos conseguiam, e aqueles que falhavam eram relegados às camadas inferiores.

O Inferno dos Trabalhadores

Nos subúrbios sombrios e opressivos da cidade, onde a luz do sol nunca alcançava, vivia a massa trabalhadora. Eles eram a base da pirâmide, os que mantinham as máquinas de Mecania funcionando dia e noite. Aqui, o Inferno era uma realidade diária. As ruas eram labirintos de metal corroído, e as habitações não passavam de cubículos amontoados, onde mal cabia uma pessoa. O ar era pesado, impregnado de fumaça e óleo, e o som constante das máquinas era ensurdecedor. Trabalhadores se moviam como autômatos, suas vidas completamente controladas pelo relógio. A propaganda que lhes era imposta, incessantemente, exaltava o valor do trabalho, a honra de servir à cidade, mas, na verdade, eles sabiam que eram apenas engrenagens descartáveis.

A Propaganda da Racionalização

Em toda Mecania, a propaganda era uma presença constante, penetrando nas mentes dos habitantes como uma melodia hipnótica. “Trabalhe com honra, viva com razão” dizia um dos slogans mais repetidos. A racionalização das atividades era o mantra da cidade; nada era feito sem um propósito claro e utilitário. O tempo de lazer, o sono, até mesmo as interações sociais eram medidas e otimizadas. Os Trabalhadores eram doutrinados a acreditar que seu sofrimento era necessário, que sua dedicação sustentava a grandeza de Mecania. Entretanto, poucos percebiam que essa racionalidade imposta era, na verdade, a própria fonte de seu tormento.

O Despertar

Entre os Trabalhadores, no entanto, começava a surgir uma semente de insurreição. Enquanto as máquinas continuavam a ranger, e a cidade se movia no ritmo mecânico de sua rotina implacável, um pequeno grupo começou a questionar o status quo. Eles se encontravam em segredo, nos recessos mais profundos da cidade, onde nem mesmo as câmeras de vigilância chegavam. Esses rebeldes sussurravam sobre a possibilidade de outra vida, de uma cidade sem círculos, onde todos pudessem viver como iguais.

Ao mesmo tempo, nos andares do Purgatório, alguns Gerentes começaram a se dar conta da futilidade de suas aspirações. Quanto mais se esforçavam para subir, mais se afundavam na espiral de exigências intermináveis. Alguns começaram a olhar para baixo, para o Inferno dos Trabalhadores, e a questionar se realmente valia a pena seguir a rota traçada para o Paraíso.

E, no topo das torres, nos palácios de cristal e ouro, a calmaria começava a se romper. As disputas internas pelo poder se intensificavam, e o medo de uma rebelião das massas começava a se insinuar nos salões onde, até então, só havia lugar para o prazer.

A Revolução das Engrenagens

O que se seguiu foi um choque de mundos. Trabalhadores e Gerentes, em uma aliança improvável, começaram a sabotar as máquinas que moviam Mecania. Greves, incêndios e rebeliões eclodiram por toda a cidade. O Inferno se inflamava, e seu calor subia, atingindo o Purgatório e, finalmente, ameaçando os alicerces do Paraíso.

Os Empresários, desesperados, tentaram usar toda a força de seu poder para conter a revolta, mas descobriram que suas engrenagens, sem o trabalho das massas, não giravam mais. O sonho racional de Mecania começava a ruir, peça por peça.

Um Novo Horizonte

Depois de meses de conflito, Mecania estava irreconhecível. As torres desabaram, as ruas foram tomadas pelos rebeldes, e o céu, antes poluído pelo vapor, começou a clarear. O velho mundo havia sido destruído, mas a promessa de um novo surgia no horizonte. Sem a tirania da racionalização extrema, os sobreviventes começaram a construir algo novo, uma cidade onde cada um pudesse encontrar seu lugar, não por imposição da força, mas por direito humano.

O futuro, embora incerto, parecia brilhar com uma luz que Mecania nunca conhecera até então.

quinta-feira, julho 04, 2024

Além do brejo

Era uma vez, num brejo verdejante e cheio de vida, um sapo chamado Telmo. Telmo não era um sapo comum. Desde pequeno, ele tinha uma curiosidade insaciável que o diferenciava dos outros sapos do brejo. Enquanto seus irmãos e irmãs se contentavam em saltitar entre as folhas e nadar nos charcos, Telmo sempre olhava além, para a borda do brejo, imaginando o que poderia haver do outro lado.

Sua mãe, uma sapa sábia e prudente, sempre o advertia: "Telmo, meu filho, o brejo é nosso lar. Fora daqui há perigos que você não conhece. Aqui estamos seguros." Mas Telmo não se conformava. Ele sonhava com vastos campos, florestas densas e criaturas misteriosas que só existiam em suas imaginações.

Os anos passaram e Telmo cresceu. Sua curiosidade, em vez de diminuir, apenas aumentava. Quando atingiu a juventude, decidiu que era hora de descobrir o que havia além do brejo. Numa noite silenciosa, enquanto todos dormiam, ele se despediu silenciosamente de sua família e partiu em sua grande aventura.

Telmo saltou por campos de flores, atravessou riachos e escalou colinas. Viu coisas que jamais imaginara: borboletas coloridas, riachos cristalinos e árvores tão altas que pareciam tocar o céu. Encontrou outros animais e aprendeu com eles sobre o mundo além do brejo. Cada nova descoberta enchendo seu coração de alegria e fascínio.

Após muitas aventuras e aprendizados, Telmo sentiu uma saudade imensa de casa. Ele sabia que precisava retornar ao brejo e compartilhar tudo o que havia descoberto. Imaginava a felicidade de sua mãe ao ouvir suas histórias e a excitação de seus irmãos ao aprender sobre o mundo além do brejo.

Quando finalmente voltou, o brejo parecia exatamente o mesmo, mas Telmo havia mudado. Ele correu para encontrar sua família e amigos, ansioso para contar tudo o que havia visto. "Mãe, irmãos, vocês não acreditariam nas coisas incríveis que existem além do brejo!", exclamou ele, com os olhos brilhando de emoção.

Mas, para sua surpresa, sua família não reagiu como ele esperava. Sua mãe o olhou com preocupação e seus irmãos riram, achando que Telmo estava inventando histórias. "Telmo, você está delirando", disse sua mãe. "Você deve ter comido algum inseto estranho que te fez ver coisas. O brejo é tudo o que existe e sempre será."

Telmo tentou argumentar, contar sobre as borboletas e as árvores gigantes, mas ninguém acreditava nele. Os outros sapos começaram a evitá-lo, cochichando que ele havia perdido a sanidade. Telmo, agora sozinho e incompreendido, percebeu que, embora tivesse encontrado a verdade sobre o mundo além do brejo, sua família e amigos preferiam a segurança do conhecido à incerteza do desconhecido.

Assim, Telmo viveu o resto de seus dias no brejo, carregando consigo o conhecimento do vasto mundo além. Ele continuava a observar a borda do brejo, esperando que um dia, algum outro sapo curioso decidisse seguir seus passos e descobrir as maravilhas que ele havia visto. E talvez, apenas talvez, aquele sapo conseguiria convencer os outros de que havia vida além do brejo. 

quinta-feira, junho 13, 2024

Outra vida


Chegamos a Rondônia num tempo em que a terra ainda era um desbravamento selvagem. Eu me lembro como se fosse ontem. A estrada era de terra batida, serpenteando pela floresta densa e implacável. O ônibus chacoalhava tanto que, a cada quilômetro, eu sentia como se minha espinha fosse se partir. Saímos às seis horas da manhã, e a luz do sol mal tinha despontado no horizonte. O trajeto era uma provação, levando até o anoitecer para finalmente avistarmos as luzes esparsas da cidade.

Naquele dia específico, a tensão era palpável. Em uma das paradas forçadas pelo atolamento do ônibus, fomos abordados pela polícia. Todos no grupo ficaram apreensivos, mas ninguém tanto quanto o João, um camarada robusto e de poucas palavras que tinha se juntado a nós na última cidade. Ele não tinha documento e sabia que qualquer problema com a polícia poderia significar um desvio inesperado e perigoso para seu destino. Com os policiais se aproximando, João se esgueirou para fora do ônibus e se escondeu no mato espesso. Nós seguramos a respiração, esperando que ninguém notasse sua ausência. Felizmente, a inspeção foi rápida e superficial. Assim que os policiais se afastaram, João retornou, suado e com o coração a mil, mas aliviado.

A viagem prosseguiu por aquele mar de árvores e lama. A paisagem era de uma beleza brutal e implacável. Mata para todo lado, uma extensão interminável de verde que parecia engolir tudo. Malária era um fantasma sempre presente, rondando-nos. Víamos gente adoecer e sucumbir à doença quase diariamente. A morte fazia parte do cotidiano, tornando cada novo amanhecer uma vitória.

No meio dessa vastidão, a vida se resumia ao essencial. Nossa comida era arroz, feijão e o que a mata pudesse nos oferecer. Aprendemos a caçar e a pescar, comíamos carne de tatu, de veado, às vezes um porco do mato. Era uma vida dura, mas havia uma estranha sensação de liberdade naqueles dias. Estávamos na fronteira do desconhecido, forjando nosso caminho com coragem e determinação.

Cada viagem à cidade era uma expedição arriscada, marcada pela incerteza do que poderíamos encontrar pelo caminho. Mas havia também uma camaradagem, uma solidariedade entre nós, novos moradores, que fazia com que cada obstáculo fosse um pouco mais fácil de enfrentar. Rondônia era uma terra de desafios, mas também de oportunidades, e nós estávamos ali para enfrentá-los, custasse o que custasse.

quarta-feira, junho 12, 2024

Seringal

 

Na densa floresta amazônica, um homem de passos silenciosos e olhar distante chegou ao seringal. Seu nome era Joaquim, um homem de pele curtida pelo sol e mãos calejadas pelo trabalho. Viera de longe, carregando consigo um passado que preferia deixar nas brumas do tempo. “Pra quê lembrar agruras?”

O seringal era um lugar vibrante, onde os seringueiros e suas famílias lutavam diariamente contra a natureza bruta para extrair o leite das seringueiras, fonte de sua subsistência. Entre eles, destacava-se Maria, uma mulher forte e determinada que, após a morte do marido, assumira sozinha a responsabilidade de sustentar seus filhos.

Maria e Joaquim se conheceram por acaso, quando ele se perdeu no labirinto verde da floresta. Ela o encontrou desorientado e o levou para sua casa. A partir desse encontro fortuito, uma amizade floresceu, dando origem a um amor inesperado.

Pouco tempo depois, Joaquim e Maria se juntaram. A dinâmica que se estabeleceu entre eles era diferente de qualquer outra vista no seringal. Maria continuou saindo todos os dias para extrair o leite das seringueiras, enquanto Joaquim assumiu as tarefas domésticas. Ele cuidava da casa, preparava as refeições, zelava por tudo com dedicação e carinho.

Essa inversão de papéis gerou murmúrios e olhares curiosos entre os vizinhos. No entanto, Joaquim não se deixava abalar. Com o tempo, ele encontrou uma maneira de ganhar o respeito e a admiração da comunidade. Tendo recebido uma educação básica, Joaquim começou a ensinar as crianças do seringal a lerem e escreverem. Ele se sentava com elas à sombra das árvores, desenhando letras na terra e ensinando-lhes o poder das palavras.

As crianças, fascinadas, logo começaram a aprender e a mostrar os primeiros sinais de progresso. A notícia se espalhou rapidamente, e em pouco tempo, Joaquim passou a ser conhecido não apenas como o homem que cuidava da casa, mas como o mestre das letras daquele seringal.

O estranhamento inicial da vizinhança deu lugar a um profundo respeito. O seringal inteiro reconhecia a importância do que Joaquim estava fazendo. Ele e Maria, com sua parceria singular e complementar, se tornaram um exemplo de que o amor e a colaboração podiam superar quaisquer barreiras criadas socialmente.

Naquela comunidade isolada, Joaquim e Maria construíram um novo caminho, mostrando que se as tradições são inventadas, elas podiam ser reinventadas e aplicadas na simplicidade do cotidiano, onde, de fato, está a força para transformar vidas.

quarta-feira, junho 05, 2024

Domus

          Era uma vez, no reino de Asteria, um garoto chamado Domus. Desde cedo, ele conheceu a frieza do mundo, pois sua infância foi marcada pela ausência de amor. Seus pais, ambos guerreiros destemidos, estavam sempre ausentes, lutando batalhas distantes e buscando glórias que jamais pareceriam tocar o coração de Domus.

Sem carinho e orientação, Domus cresceu isolado, encontrando consolo apenas na natureza ao seu redor. No bosque atrás de sua casa, havia uma árvore majestosa que ele chamava de Velha Sábia. Era uma figueira robusta com galhos que se estendiam como braços acolhedores, oferecendo sombra fresca e um refúgio seguro. Naqueles dias solitários, Domus passava horas brincando à sua sombra, escalando seus ramos e construindo uma pequena casa de madeira em seu tronco. Lá, ele se sentia compreendido e protegido, como se a árvore fosse sua verdadeira família.

Com o tempo, a vida o afastou de sua infância e das poucas alegrias que conhecera. Os anos passaram e o coração de Domus endureceu. Ele se tornou um homem amargo, carregando um ódio profundo por tudo e todos. Seu olhar era uma chama de fúria contida, e muitos diziam que, ao se sentir afrontado, seus olhos pareciam incendiar de ódio. Sua raiva se transformou em uma arma poderosa, que ele usava para se vingar daqueles que cruzavam seu caminho.

Em uma noite tempestuosa, enquanto o trovão ecoava pelas montanhas e a chuva caía pesadamente, Domus foi atraído por uma força invisível de volta ao bosque de sua infância. Seus pés, guiados por uma memória distante, o levaram até a Velha Sábia. Ao vê-la novamente, mesmo desgastada pelo tempo, ainda se erguendo imponente contra a fúria da tempestade, algo dentro dele começou a se quebrar.

Ele caminhou lentamente até a árvore e colocou a mão em seu tronco áspero. Instantaneamente, uma onda de lembranças o inundou. Viu-se novamente menino, rindo e brincando, sem as preocupações que agora pesavam sobre seus ombros. Sentiu a alegria pura e o amor silencioso que a Velha Sábia lhe oferecera.

Domus caiu de joelhos, as lágrimas se misturando com a chuva em seu rosto. A árvore parecia sussurrar segredos antigos, curando as feridas profundas de seu coração. Sentado ali, sob a copa acolhedora da Velha Sábia, ele permitiu que o ódio fosse lavado de sua alma. Aos poucos, a fúria em seus olhos se dissipou, substituída por uma serenidade que ele há muito desconhecia.

A transformação de Domus foi profunda e verdadeira. Ele passou a cuidar da Velha Sábia, protegendo-a dos perigos da floresta e restaurando sua antiga casa na árvore. Tornou-se um guardião da natureza, encontrando propósito em proteger e preservar a beleza ao seu redor.

O reino de Asteria viu uma mudança notável em Domus. De um homem temido e odiado, ele se tornou um símbolo de redenção e esperança. Seu olhar, outrora flamejante de ódio, agora brilhava com um amor tranquilo e profundo. E assim, a Velha Sábia não só salvou Domus de sua própria escuridão, mas também trouxe luz e paz para toda a terra de Asteria.

E assim termina a história de Domus, o homem que encontrou a redenção e o amor sob os galhos acolhedores da Velha Sábia. Uma prova de que, mesmo nos corações mais endurecidos, a semente do amor pode florescer novamente.

terça-feira, junho 04, 2024

O navio

       O capitão Jonas Santos era um homem experiente, conhecido por sua firmeza e sabedoria no comando de navios. Seu mais recente desafio era o "Estrela do Atlântico", um imponente navio de luxo que cruzava o oceano, levando passageiros da Europa para a América. A bordo, havia uma clara divisão de classes: a opulenta primeira classe, a confortável segunda classe e a humilde terceira classe.

Naquela noite, enquanto o navio deslizava sob um céu estrelado, o capitão Santos recebeu uma notícia alarmante: uma das caldeiras apresentava uma avaria séria, reduzindo drasticamente a velocidade do navio. Para piorar, o combustível estava acabando rapidamente devido ao esforço extra necessário para manter o curso.

Reunido com seus oficiais, Santos explicou a situação. Eles estavam a dias do porto mais próximo, e a única solução viável seria aliviar o peso do navio. Foi então que uma verdade desconcertante veio à tona: a primeira classe estava abarrotada de bagagens extravagantes e desnecessárias. Objetos de luxo, móveis, até mesmo automóveis, estavam armazenados nos compartimentos destinados aos passageiros mais ricos.

A decisão agora recaía sobre os ombros do capitão. Convocou uma reunião com os representantes das três classes para discutir o dilema. Na sala de reuniões, a tensão era palpável. Os passageiros da primeira classe, vestidos com roupas elegantes, sentaram-se com expressões de desdém. Os da segunda e terceira classe, muitos dos quais trabalhadores e imigrantes buscando uma nova vida, esperavam ansiosamente pela decisão.

— Senhoras e senhores — começou o capitão Santos, sua voz grave cortando o silêncio — estamos enfrentando uma crise que ameaça nossa chegada segura ao destino. Temos que aliviar o peso do navio para poupar combustível e evitar uma tragédia. A primeira classe, com todo o respeito, está carregando uma quantidade exorbitante de bagagens que podem ser dispensadas. Temos duas ações: precisamos descartar os excessos e dividir os recursos de maneira equitativa entre todos os passageiros para garantir que tenhamos o suficiente para a viagem.

Os protestos começaram imediatamente entre os passageiros da primeira classe. Uma senhora de idade avançada, adornada com joias reluzentes, levantou-se indignada.

— Isso é um ultraje! Pagamos uma fortuna para ter nossos bens transportados com segurança! Não aceitamos dividir nossos pertences!

Do outro lado da sala, um homem robusto, com mãos calejadas e vestes simples, levantou-se em defesa dos menos privilegiados.

— Não é justo que alguns de nós tenham que sofrer enquanto outros mantêm seus luxos. Estamos todos no mesmo barco, literalmente. Se não ajudarmos uns aos outros agora, todos nós poderemos não chegar ao destino.

O capitão Santos observava atentamente as reações. Precisava encontrar um equilíbrio que garantisse a segurança de todos. Decidiu devolver a responsabilidade para todos, no seu entendimento parecia complicado apelar para o senso de humanidade e justiça dos passageiros da primeira classe.

— Entendo suas preocupações — disse ele, olhando diretamente para os passageiros da primeira classe. — Peço que vocês se reúnam com seus grupos e decidam o melhor a ser feito, enquanto isso vou tomando outras providências. Mas a decisão final será de vocês. Por ora, proponho que descartemos apenas os itens mais volumosos e pesados que realmente não são essenciais. É preciso decidirem acerca das provisões para que todos tenham o necessário para o restante da viagem, que será longa e árdua.

Cada grupo se reuniu e realizaram debates. A segunda classe estava confortável e não tinha muito o que perder, talvez no máximo um pouco menos de provisão. Quanto aos ricos, chegaram à conclusão que eram uma pequena minoria e que se a terceira e segunda classe juntassem poderiam até mesmo jogá-los ao mar. Os seguranças à sua disposição talvez não fossem suficientes para deter uma rebelião da terceira classe, esmagadora maioria naquela viagem. Quanto ao que era desnecessário, sob a supervisão da tripulação, as bagagens excessivas da primeira classe foram cuidadosamente selecionadas e descartadas ao mar.

Por caminhos distintos, rapidamente a terceira classe chegou ao mesmo resultado da primeira: não havia nada, absolutamente nada a perder, logo se a primeira classe não concordassem, era preciso tomar o navio. Algumas vidas seriam perdidas, porém, “melhor algumas do que todas”, sugeriu uma das lideranças criadas naquele momento de agrura e decisão. Ao mesmo tempo, as provisões foram redistribuídas, garantindo que todos a bordo tivessem comida e água suficientes.

Nos dias seguintes, a atmosfera a bordo mudou. Invés de solidariedade, tensão, os abastados cediam por pressão, não por vontade. A segunda classe dividia em apoio à primeira classe e em solidariedade a terceira. A primeira classe, sempre relutante com as tarefas a ela destinada, começou a arquitetar maneiras acabar com a cooperação reinante. O navio prosseguia sua jornada com mais eficiência, mas ainda tardaria a chegar a seu destino. Havia ainda muito mar por navegar.

Vozes dentro da terceira classe começaram a alertar sobre o perigo daquela aliança, que poderia não durar. Era preciso controlar tudo, afinal a distribuição dos mantimentos continuava a ser realizada pela tripulação, quem garantia que os privilégios não se mantinham para a primeira classe? Embora poucos, ainda tinham maneiras de subornar muitas pessoas.

O "Estrela do Atlântico" seguia viagem, sem possibilidades de resgate, entregue à sua sorte e as decisões de seus passageiros, que finalmente entenderam o que significa realmente estar "no mesmo barco".  Talvez nem todos, pois se havia conspiração no alto, isto é, na primeira classe, havia conjuração na terceira, com alguns aliados da segunda classe. Uma certeza permanecia para todos: a maioria estava na classe mais baixa. Teriam a coragem de tomar totalmente o navio e lhe dá o rumo adequado? A decisão era humana, enquanto a grande máquina seguia seu curso e sua avaria crescia.

sábado, junho 01, 2024

A cidade

Joaquim nasceu e cresceu em uma pequena cidade do interior, cercada por montanhas e campos verdejantes. A vida ali era simples: ele ajudava o pai na lavoura e a mãe na venda de quitutes que fazia em casa. Os dias passavam lentos, marcados pelo canto dos pássaros e pelo tilintar das rodas das carroças puxadas por cavalos e bois que transportavam mercadorias.

Desde cedo, Joaquim sonhava em conhecer a cidade grande, da qual ouvia tantas histórias. Seus olhos brilhavam quando os mais velhos contavam sobre os arranha-céus que tocavam o céu, as ruas movimentadas e as luzes que nunca se apagavam. Então, quando completou dezoito anos, decidiu que era hora de ver com seus próprios olhos o que até então só imaginara.

Ao chegar à metrópole, foi como se tivesse entrado em um mundo completamente novo. Os prédios realmente eram enormes, as ruas fervilhavam de pessoas e o ritmo da cidade era frenético. Tudo parecia maior e mais rápido do que ele poderia ter previsto. No entanto, não foram os arranha-céus ou a correria que mais o impressionaram.

Logo na primeira manhã, enquanto caminhava pelas ruas ainda tentando se orientar, Joaquim se deparou com uma cena que o fez parar e refletir. Em uma esquina movimentada, viu um homem puxando uma carroça. A princípio, pensou que se tratava de um engano: "Não pode ser", disse a si mesmo, "pessoas puxam carroças aqui?".

Mas não era engano. O homem, de pele queimada de sol e roupas surradas, puxava com esforço uma carroça carregada de recicláveis. A cena se repetiu nos dias seguintes, com outras pessoas fazendo o mesmo. Algumas eram idosas, outras jovens, todos com a expressão cansada, mas determinada.

Joaquim não conseguia tirar os olhos daquelas pessoas. Na sua terra, eram os cavalos e bois que puxavam carroças, e sempre havia um cuidado especial com esses animais. Mas ali, na cidade grande, eram os próprios homens e mulheres que se submetiam a esse trabalho árduo.

Ele sentiu uma mistura de sentimentos: perplexidade, tristeza, indignação. A cidade que ele tanto sonhara em conhecer, a cidade das oportunidades, tinha um lado que nunca lhe haviam contado. A luta pela sobrevivência era cruel e implacável.

Passou a observar mais atentamente ao seu redor. Viu a desigualdade escancarada em cada esquina, nos contrastes entre os luxuosos prédios de vidro e as favelas amontoadas. Entendeu que, apesar do brilho e da imponência, havia uma tristeza latente, uma cidade que chorava silenciosamente.

Joaquim foi escarafunchando aquela realidade, olhando onde não se costumava olhar. Foi permitindo que choque de realidade o transformasse. Ele encontrou um albergue onde alguns dos catadores se reuniam e começou a conversar com eles, ouvir suas histórias. Descobriu que muitos eram migrantes, como ele, que vieram em busca de uma vida melhor, mas acabaram nas ruas.

Com o tempo, Joaquim começou a entender a complexidade daquela realidade e percebeu que a cidade grande era feita de múltiplas camadas, cada uma com suas próprias verdades e desafios. Por trás do brilho e da imponência, fruto de tanta riqueza, se esconde ou tenta-se esconder a miséria.

A cidade que o acolheu, com todas as suas contradições, ensinou-lhe uma lição: a aprender a olhar, uma capacidade de enxergar para além do aparente. Aprendeu que o canto da sereia é uma sedução antes de devorar sua presa. Porém, Joaquim logo aprender que saber enxergar é apenas o primeiro passo. A escada à sua frente estava apenas começando a se iluminar e revelar os primeiros degraus.

sexta-feira, maio 31, 2024

dói teu abraço descuidado

dói teu abraço descuidado
teu beijo sem vontade
teu chegar querendo partir
dói tua ausência
em minha presença

quinta-feira, maio 30, 2024

O tempo vincado em nossas faces

Em um banco de praça, sob a sombra de uma frondosa árvore, sentavam-se dois velhos amigos. As tardes de primavera eram um alento para seus corpos cansados e suas mentes repletas de memórias. João e Pedro conheciam-se desde a infância, compartilhando uma amizade que resistira ao tempo e às adversidades da vida, nem sempre vividas juntas, mas sempre compartilhadas.

João, de cabelos brancos como neve e olhos que ainda brilhavam com a curiosidade de um jovem, suspirou profundamente. Estava reflexivo e saudosista, começou: "Lembra, Pedro, de quando subíamos naquelas árvores lá na fazenda do seu avô? Como era bom sentir o vento no rosto, a liberdade..."

Pedro, com seu rosto sulcado por rugas profundas que contavam histórias de batalhas vividas, sorriu nostalgicamente. "Lembro sim. E das tardes pescando no rio? Quantas vezes voltávamos para casa só com histórias para contar, porque peixe mesmo, raramente pegávamos".

Ambos riram com a lembrança, um riso que ecoava com a suavidade de folhas ao vento. É certo que passava por suas cabeças a pergunta: quantas primaveras mais? Por isso as palavras vinham pausadas, cada uma carregada de significados profundos, como se cada lembrança fosse um tesouro desenterrado do baú do tempo.

"Você já parou pra pensar, Pedro," João continuou após um momento de silêncio, "como nossas vidas foram moldadas por tantas coisas fora do nosso controle? As lutas, as crises, as perdas... tantas coisas nos foram tiradas, e mesmo assim, seguimos em frente."

Pedro assentiu lentamente, seu olhar perdido nas crianças que brincavam à distância, lembrando-se de sua própria juventude. "Sim, João, seguimos em frente. Mas não fomos nós que escolhemos, foi a vida que nos empurrou. Quantos sonhos tivemos que abandonar, quantas vezes tivemos que nos reinventar? Há que se seguir a caminhar!"

Um silêncio contemplativo pairou entre eles, enquanto os sons da praça preenchiam o ar. Os pássaros cantavam, as folhas farfalhavam, e o riso das crianças se misturava com o murmúrio da fonte próxima. A conversa, diferente de outros dias, ganhava tons mais melancólicos.

"Pedro, você acha que, no fim das contas, valeu a pena?" perguntou João, seus olhos buscando respostas nas profundezas dos olhos do amigo. Mas, ainda que não soubesse propriamente a resposta que viria do amigo, sabia, de algum modo, que indagar sobre o sentido da vida sempre nos leva a lugares profundos dentro de nós.

Pedro pensou por um momento antes de responder. "Sabe, João, eu sempre acreditei que a vida é como uma viagem de trem. Nem sempre controlamos o destino, muitas vezes perdemos coisas importantes pelo caminho. Mas as paisagens que vemos, as pessoas que encontramos, os momentos que vivemos... esses são nossos tesouros".

João acenou com a cabeça, encarou como sabedoria as palavras do amigo, embora no fundo tenha visto como certo clichê. Mas que resposta poderia ter após tantos anos de percalços, amores e alegrias construídas? Palavras nem sempre conseguem expressar o vivido e o que se sente, sobretudo em uma vida tão longa. Devolveu no mesmo tom: "Acho que você está certo, Pedro. A vida nos rouba muitas coisas, mas também nos dá outras tantas. E talvez, no final, sejam essas dádivas que realmente importam".

O velho amigo, com um olhar firme e sereno, concluiu: "Não adianta apressar a vida, meu amigo. Somos as sobras do que nos roubaram e um pouco do que conseguimos pegar pelo caminho. E talvez, isso seja o suficiente".

João sorriu, sentindo um calor reconfortante no peito por estar ao lado de Pedro, ele percebeu que, apesar de tudo, tinham vivido até ali uma vida rica e cheia de significados. Ali, naquela praça ensolarada, com o vento em seus rostos, eles encontraram certa paz nas memórias compartilhadas e na certeza daquela sólida amizade. Era continuar a juntar as sobras e os cacos do caminho, para ver se ainda era possível construir um bonito vaso. A praça e o velho amigo estariam ali a lhe acompanhar.