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quinta-feira, agosto 27, 2026

que dia!

 

a estupidez grassa

sinto o mormaço

em plena praça

olho o asfalto

parece se dissolver

sigo a caminhar 

a luz intensa e difusa

explode em traços abstratos

a canção ao fundo, longe...

meu coração clama por Socorro

em plena Sete de Setembro

desperto com a moça gritar

– pega, pega ladrão!

 

tempo que não passa

gente, vitrines, correria

tudo é sem graça

 

domingo, agosto 02, 2026

De Porto Velho à Manaus

 

O ser humano não é confiável. A frase ecoava em minha cabeça, embora não soubesse se por convicção adquirida na vida, se eu havia lido ou escutado recentemente de alguém. Fato é que, cada vez mais, tenho me sentido um pessimista convicto — embora sempre otimista em minhas práticas e ações, como afirmou certo teórico italiano.

Mas o importante aqui é que eu teria que ir a Manaus realizar algumas pesquisas e decidi ir por terra, encarar a BR-319 em uma linha de ônibus que promete chegar em 24 horas. O período escolhido foi o do recesso, quando eu estaria alguns dias de férias — misto de férias e pesquisa, como diz aquela frase popular: descansar carregando pedras. Eu estava decidido a percorrer o trajeto antes que venha o asfalto pra toda a rodovia, que, como já vem acontecendo, imagino que será terrível para a floresta. Destruição.

BR-319. Foto DNIT, disponível em:
https://oeco.org.br/noticias/ibama-emite-licenca-previa-para-reconstrucao-da-br-319-no-am/












A passagem foi comprada com bastante antecedência e, naquele momento, sequer passou pela minha cabeça perguntar se havia a opção de ônibus leito — então o percurso foi no econômico. No osso. A recomendação que escutei na compra era que, no dia da viagem, eu chegasse ao menos 30 minutos antes do embarque. Como o ônibus sairia às 9h, então que eu estivesse às 8h30. Quarenta minutos antes, lá estava eu. A companheira mobilizou o namorado de nossa filha pra me levar até a rodoviária, então, todo mundo lá. Todo mundo lá e passa o tempo e nada de chegar o ônibus. Falei com o atendente, disse que logo chegaria. Dado o horário de saída e nada do ônibus chegar, retorno ao guichê pra pedir que verificasse, o atendente: "Ah, mudou para às 10h". Eu replico que não fui informado, não havia recebido nenhuma notificação. O rapaz no guichê apenas responde: "Aí não é com a gente, é com a central. Nem eu sabia que tinha mudado". E fica por isso mesmo e se dá por satisfeito. O jeito é engolir seco e continuar a esperar. Porém, naquele momento, insisti para que os familiares voltassem para casa e continuar seus afazeres ou a dormir, e lá fiquei sozinho à espera.

Sabia que, pelo fato de a estrada em sua maior parte ser de terra, havia colocado a mala em um saco e uma sacola, mas deixei pra fazer isso na própria rodoviária, após confirmar com o pessoal da empresa — que, aliás, informou que eles próprios colocam em sacos de lixo, visando proteger da imensa poeira do caminho. Após a chegada do ônibus, passagem já quase apagada devido ao tempo da compra, e após a mala despachada, subi no ônibus e sentei bem na frente. Por isso comprei com bastante antecedência: imaginava que teria uma boa visão da estrada, mas, do mesmo modo que as fotos de sanduíches nas lanchonetes não correspondem aos lanches vendidos, a imagem da época da compra não correspondeu ao ônibus, agora real. Ao menos havia espaço para esticar as pernas, posto ser a primeira cadeira, do lado oposto do motorista, mas o assento era bem apertado.

Após todos despacharem suas bagagens e subirem, o motorista veio falar que, ao longo do percurso, seriam três motoristas, cada um durante certo trecho. Ele até disse quais seriam os trechos, mas sua fala embolada, apesar de estar próximo a mim, não consegui compreender. Como eu não conhecia o percurso, não faria a menor diferença. Depois vieram outras instruções: pediu que usassem fones de ouvido nos celulares, "não quero ninguém incomodando o vizinho com celular alto". A voz era de alguém bravo, insinuando até que, com o fone, poderia estourar os tímpanos, se assim quisesse. Como eu temia que isso ocorresse no trajeto, confirmei com um "é isso mesmo", imaginando que ao menos os sons dos celulares ficariam restritos aos seus proprietários.

A cadeira ao meu lado ficou vazia — eu, feliz, pensei: "poxa, se for até lá, será ótimo!" Mas pobre não pode sonhar, e o sonho durou só até Humaitá. O combinado de não usar celular sem fone de ouvido também durou bem pouco. Água havia, mas, por não saber, tinha levado a minha por garantia. Banheiro limpo. O primeiro motorista, o de fala brava, conduziu por cinco horas e meia e, pode-se dizer, pelo melhor trajeto, posto que a maior parte era asfaltada.

Já o segundo motorista dirigiu por quase onze horas. Porém, tanto o primeiro como o segundo dirigiam devagar, atentos. O primeiro não escutou músicas, o segundo escutava rock e Roberto Carlos em sua cabine. Quando ocorreu a troca do primeiro para o segundo, o ônibus já estava lotado; no entanto, havia duas pessoas que queriam carona até um certo trecho. Os motoristas conversaram entre si e decidiram, mesmo sem cadeiras vazias, levar os dois caroneiros até onde pediam. Descobri depois o nome do primeiro que desceu: um senhor negro, idoso, com roupas bem humildes — chamava-se irmão Anselmo. Soube o nome dele por meio do segundo caroneiro, que, aliás, conseguiu sentar no trajeto, pois desceram algumas pessoas — a conversa dos motoristas deve ter tratado disso, da família de quatro pessoas que logo à frente desceria —, mas do próprio segundo caroneiro, aliás, não soube o nome.

O segundo caroneiro, um homem baixo, magro e com ar de alegria, quando estava próximo de seu lugar de descida, perguntou pro motorista se podia ir na frente, a seu lado, já que logo desceria, ao que o motorista acedeu. Ele então disparou a contar o que havia lhe ocorrido, que há duas noites não conseguia dormir, pois um berne havia entrado em seu ouvido. "E o bicho mexe demais, sô! Tentei arrancar de tudo que é jeito e num deu, aí hoje eu dei um pulo no posto. A enfermeira que me atendeu, tentou pegar o bicho, fez lavagem e nada. Ligou pro médico, que disse pra eu tomar ivermectina... Ai gente, já tomei um monte dessas porcaria na época da covid e num adiantou de nada, vou tomar não". Aí o rapaz ao meu lado, que subiu em Humaitá, mas é de Ipuí e é advogado, embora trabalhe com a terra, foi falando o nome de uns venenos pro bicho. Ambos, na conversa, falaram de um que, pelo jeito, é forte e perigoso, pois, quando o rapaz disse que pingaria dois ml no ouvido, ele se assustou e disse: "Faz isso não, sô! Um ml é pra 50 quilos, ocê não tem 100 quilos, não". Logo depois, ele desceu e sumiu na escuridão.

Mas faltou dizer que, no lugar da troca de motorista — espécie de rodoviária improvisada —, ainda era meio da tarde, e ali, antes de pararmos, foi possível ver pela janela três pessoas esperando: um jovem de camisa da Argentina, uma moça e um senhor que, provavelmente, era pai de um deles. Depois percebi que era de ambos. Era final de Copa do Mundo e a Argentina jogaria com a Espanha naquele dia, mas acho que ainda não tinha começado o jogo. O rapaz ao meu lado falou: "olha o argentino". Como tínhamos no ônibus dois hermanos — um venezuelano, que já estava dias na estrada, pois vinha de Cascavel, no Paraná, e tinha como destino final seu país; e outro do qual não consegui saber a nacionalidade (sei apenas de seu ronco desproporcional ao longo do trajeto, ronco daqueles que lembram filme de terror, isso quando não parecia que ia sufocar — não ouso tentar escrever nenhuma onomatopeia que possa imitar seu ronco) —, aquele jovem branco, de camiseta da Argentina, poderia, de fato, ser daquela nação. Ao descer, aguçei os ouvidos para escutar a conversa dos três — falavam embolado, mas era português mesmo, uma espécie de fala que lembra o som caipira. Apenas dois embarcaram no ônibus: o pai e o filho trajado com a camiseta da seleção argentina, que, diga-se de passagem, perderam para a Espanha. A moça, a filha, ficou; havia ido apenas acompanhá-los. Ela esboçou certo choro, mas se conteve. O nome do lugar onde isso ocorreu chama-se Realidade. E olha, a Realidade é feia! Mas parece que quer melhorar, pois havia uma imensa placa onde se lia: "Queremos uma Realidade sem poeira". Por isso mesmo estavam em obras — pelo jeito, Realidade será um dos primeiros povoados desse longo trecho a receber asfalto na rodovia. Toda Realidade tem dois lados: o lado de cá e o lado de lá, com casas e comércios de ambos os lados.

Penso que o segundo motorista, o rapaz que gosta de rock e Roberto Carlos, não só dirigiu por mais tempo como pegou o pior trecho. Foram quase onze horas. Deu carona ao irmão Anselmo e ao moço com berne no ouvido. Quando a família desceu, logo após a saída de Realidade, como ele parara um pouco à frente, deu ré com cuidado até em frente à porteira onde ficariam. Sempre educado e cuidadoso. Ele é um romântico. E não é só força de expressão: ele é um romântico, pois parou em um lugar que parecia um bordel de beira de estrada para entregar um pequeno pacote (presente?) a uma moça de decote generoso e seios fartos, que estava atrás do balcão. Ele sorriu, brincou naquela rápida conversa e, ao final, abraçou-a, puxando-a para junto de si, e beijou sua testa de modo delicado. Teria aprontado e estaria se desculpando?... Enfim, prefiro vê-lo como um romântico.

Ainda nesse percurso, faltou falar um pouco do rapaz ao meu lado — conversador, sempre sorridente e, ao que parece, entendido em terra. Como ele mesmo disse: "trabalho com isso há bastante tempo e tenho um amigo agrônomo" — ainda que seus cuidados possam não ser adequados a certos olhos. Quando ainda era dia e, à medida que a paisagem se desenrolava à nossa vista pela janela, ele ia analisando: "Olha, tem muitas castanheiras, a terra é boa." Terra boa, leia-se fértil. "Nossa, quanto babaçu!" Eu, que nada entendo, afirmei: "Sim, uma grande plantação." Logo ele replicou: "Não. Não é plantação, nasce. Isso é uma praga. Mas tem veneno bom: você corta e joga no tronco que aí ele não brota mais." Em outro trecho: "Olha isso daqui, dois tratores faz um arraste e fica só a terra".

O jantar foi na Toca da Onça e seguimos até o ponto em que haveria mudança de motorista, o terceiro e último, que nos conduziria até Manaus. Foi no ponto da primeira balsa. Tudo desligado, mas não às escuras — havia iluminação, embora não se visse uma viva alma do lugar, só os passageiros do ônibus. A balsa estava do outro lado do rio. O terceiro motorista assumiu já mostrando a que veio: ligou as luzes do ônibus e buzinou para que o balseiro viesse levar o ônibus para o outro lado do rio. Os passageiros aguardavam na beira do rio — tínhamos, inclusive, feito uma caminhada até ali, pois o ônibus parara distante, e ninguém entendeu bem o porquê. "Podem descer aqui e caminhar até a beira do rio para esticarem as pernas", avisou o motorista romântico. Logo veio um, dois, quatro, seis cachorros. Todos amigáveis, querendo um carinho ou, quem sabe, algo para comer, pois água tinham bastante à disposição. Dois tinham patas machucadas, um outro, três patas... e, como ninguém deu muita atenção àquela hora da noite, eles começaram a brincar entre eles mesmos, exibindo-se para a plateia de transeuntes.

Passado certo tempo e depois de algumas buzinadas, eis que as luzes do outro lado foram ligadas e logo a balsa começou a atravessar na escuridão do rio. Atracou. Subimos a pé e ficamos no lugar reservado aos pedestres. Um cachorro subiu também — talvez quisesse seguir viagem, ou apenas estivesse acostumado a ir e voltar naquele transporte; talvez quisesse um pouco de companhia daquela gente, ainda que breve, ou talvez houvesse outros cachorros à sua espera do outro lado, coisa que não soube, pois, antes mesmo de atracarmos, o motorista já foi dizendo para que todos subissem no ônibus. Percebi que esse motorista era diferente dos anteriores: gostava de escutar músicas evangélicas em alto volume e nada de dirigir devagar — até reclamou que o anterior havia atrasado. A pressa passava a ser a tônica. Minha sensação era que a estrada, do pouco que se podia ver, só piorava, mas, para quem já conhecia o trajeto, no caso o motorista, não havia problema.

Um dos passageiros, ainda na subida ao ônibus ali na balsa, quis ficar conversando com o motorista, ao que este disse "tudo bem". Se a recomendação é falar apenas o indispensável ao motorista, este entendia que "era bom conversar". Como já dito, eu estava na primeira cadeira, do lado oposto do motorista, então, mesmo com a porta da cabine fechada, era possível escutar muita coisa, pois, devido ao som ligado, a conversa também era em alto volume. Em dado momento, os dois resolveram se tornar analistas políticos e apresentaram suas ideias para solucionar os problemas do Brasil; dentre as propostas, uma chamou atenção: acabar com o Supremo Tribunal Federal. Os assuntos iam de como um governo sério deve trabalhar, passando por citações bíblicas, brigas físicas de que participaram, mostrando quão "machos" eram — o motorista, inclusive, disse ter atirado no suposto inimigo. E corre e vai pra contramão pra desviar de buraco e cai em buraco... O carro, que aparentemente estava bom, começou a apresentar problemas. Para nossa sorte, pequenos, como o limpador de para-brisa que parou de funcionar, especialmente o do lado do motorista, obrigando-o a parar de tempos em tempos para fazê-lo funcionar manualmente — principalmente quando chegamos a um trecho com densa neblina, ainda bem que já estávamos próximos da segunda balsa, a travessia do rio Solimões, onde se pode ver o encontro das águas, isto é, quando o rio Negro beija o Solimões, e ficamos todos deslumbrados com tal beleza. Para nossa sorte, já era dia (segundo soube, não há travessia à noite).

O fato é que parece que o terceiro motorista quis recuperar o tempo perdido pelos demais motoristas, pois, desde o início, quando ainda comprei a passagem, o trecho seria percorrido em 24 horas, mas o percurso pela BR-319 foi feito em 23 horas. Retomo a frase que abre o texto, talvez genérica demais, mas a vida e o encontro com certas pessoas têm feito com que eu pense que, ao menos, certas pessoas não sejam tão confiáveis, pois, se vi cuidado e solidariedade, também pude perceber, nesse trajeto, visões de mundo bastante problemáticas nos tempos que estamos a viver.

Cheguei em Manaus, comi um X-Caboquinho e pude conversar um pouco mais com o venezuelano, que voltava para cuidar de sua mãe doente — apesar de estar em um emprego estável, preferiu se demitir e voltar; continuaria por mais alguns dias na estrada. Conosco estava um jovem que ia também ainda para outra cidade do Amazonas encontrar uns amigos e tinha se dado conta que alguém levou seu perfume embora, afinal procurou bastante no ônibus e não encontrou. No meu pessimismo, peguei um Uber até o hotel que tinha reservado, na esperança de que fosse um lugar que desse ao menos para descansar bem à noite, pois essas coisas de internet, sabe como é, e as pessoas — digo, certas pessoas — não são confiáveis, que dirá máquinas. Cheguei ao hotel no centro histórico de Manaus; havia um motivo para ser este o local escolhido: a pesquisa. Chegando perto do hotel, me dei conta de que talvez à noite o movimento fosse pequeno e quiçá perigoso, e perguntei ao motorista do aplicativo se ali era tranquilo à noite e se tinha movimento. Ele, que também escutava música evangélica em seu carro, respondeu: "Aqui é bem movimentado, é o lugar da zona, então tem sempre movimento".

Fiquei imaginando como seriam as noites por ali, mas isso é outra história.

segunda-feira, julho 27, 2026

UMA FERA EM DEFESA DA AMAZÔNIA

 

Quem tem um amigo tem tudo, cantou Emicida, e foi graças ao amigo Nonato Tavares (a quem agradeço imensamente) que tive a felicidade de conhecer uma mulher extraordinária: Olga D'Arc Pimentel. Atualmente aposentada, mas sempre inquieta, continua a militar por uma causa fundamental: a Amazônia; melhor dizendo, pela permanência da vida humana neste mundinho chamado Terra. Sua militância vem de longe. Ela se contrapôs aos desmandos da ditadura civil-militar e participou do amplo movimento de luta para arrancar do Estado o SUS – Sistema Único de Saúde.

Olga D`Arc Pimentel - Foto Adailtom Alves

Olga D'Arc, que carrega os nomes de duas heroínas, mora em um flutuante na comunidade Nossa Senhora do Livramento — logo ela, que diz não professar nenhuma fé. Além do flutuante, porém, criou uma maloca em terra firme, onde pisa descalça em busca de conexão. Ali procura unir os saberes acadêmicos aos saberes ancestrais, especialmente os dos povos originários. Em sua visão, essa convergência de conhecimentos poderá nos salvar como espécie. Alguém duvida? Basta observar os recordes de temperatura desde 2024, os constantes alertas dos cientistas acerca da emergência climática e o El Niño deste ano.

Para que se tenha uma dimensão um pouco maior de Olga, basta lembrar uma homenagem recebida no Dia Mundial do Meio Ambiente, em 2021, na Universidade Leonel Brizola. Na placa está gravada a seguinte frase: "Seu amor pelo Amazonas fez dela uma fera que nem onça". Essa bruxa — na melhor acepção que a palavra possa ter — enfrenta mares revoltosos cotidianamente e, para tanto, carrega seu cajado sempre à mão. A canoa, sempre amarrada ao flutuante, é seu principal meio de transporte.

Ela nasceu em Goiânia. Socióloga de formação, teve de migrar, em 1969, para o Rio de Janeiro, em razão das perseguições políticas. Em 1987 iniciou seu trabalho na Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz. Apesar de já aposentada, mantém laços com a instituição justamente por conta da maloca, onde desenvolve atividades em parceria com o pajé Gabriel Gentil, do povo Tukano.

A práxis defendida por Olga foi exposta em um poema-manifesto, publicado no livro Poetas de Manguinhos II, organizado por Antenor Amâncio Filho, Luiz Fernando Ferreira e Pedro Teixeira. Seu poema-manifesto chama-se "Arca de Noé II – Brasil dois mil", no qual defende que precisamos voltar "ao estágio primitivo do ser", pois, depois de 500 anos de história, da Revolução Industrial e da revolução tecnológica, o chamado progresso apenas nos trouxe problemas com os quais hoje precisamos lidar. Afinal, ela acredita que quem possuir "águas limpas e florestas" será potência.

Daí a tarefa da Arca, que consiste justamente em "recuperar as águas e florestas do Brasil". Hoje, ela já defende que devam existir muitas arcas, para que possamos reverter os problemas historicamente produzidos. É preciso atentar para a necessidade de uma mudança de mentalidade: "A Terra, como as Águas e o Ar / Não podem ser propriedade privada".

A função das Arcas é ocupar áreas degradadas. É isso o que ela chama de óbvio em seu manifesto, embora ainda precise ser dito. Um exemplo desse processo foi construído em sua própria comunidade. Olga saía recolhendo o lixo jogado nos espaços abertos e no rio. De tanto insistir — isto é, educando pelo exemplo ou, como nos ensina Paulo Freire, aproximando o discurso da prática —, hoje já são muitas as pessoas que repetem o gesto de recolher todo o lixo. A coletividade passa, assim, a cuidar da própria comunidade.

Outro pressuposto defendido é que, na Arca, não deve haver dinheiro, apenas troca, e ela seria organizada do seguinte modo:

Serão duzentas pessoas, sendo quarenta por cento

De músicos (pra tocarem pros bichos, águas e árvores)

O restante por gente de qualquer espécie.

Trinta por cento de crianças e adolescentes,

Quarenta, pelo pessoal da segunda e terceira Idade

E vinte por cento, pelo pessoal da quarta e quinta Idade.

Teremos vários templos: o dos Ensinamentos (a educação

Será ministrada pelas próprias crianças com supervisão dos

Sábios e anciões); o da Conversa Filosófica; da Meditação

Pura e Simples; do Amor e do Sexo, das Artes; etc.

O trabalho coletivo não será superior a quatro horas

Diárias. As vinte horas restantes para cada um fazer

O que bem entender...

 

Depois dessa etapa, chamada “É Óbvio”, vêm as seguintes: "No cu pardal" e "Caguei Redondo", expressões que Olga afirma utilizar cotidianamente em situações hilárias, mas que, no contexto do manifesto, adquirem grave seriedade.

A primeira constitui um chamado à ciência, ou melhor, aos cientistas, para que conheçam o próprio território e adotem exclusivamente a nossa língua na produção do conhecimento; nada de idiomas alienígenas. Não se trata, penso eu, de nenhum "quaremismo" ao modo barretiano. Como ela deixou escapar em nossa conversa, a partir do ensinamento indígena, "língua é nação". Nosso saber deve ser voltado para dentro, e é urgente "retirar do império americano / O controle sobre as informações estratégicas da Amazônia", que até pode — e deve — ser internacionalizada para outras nações, mas sempre "sob o nosso controle". Por isso, "'No cu pardal' para os interesses estranhos" e para os estrangeirismos.

A terceira etapa do projeto seria um ataque aos "feudos familiares", isto é, ao latifúndio: "Cague redondo pras Capitanias Hereditárias". Esse sistema permanece firme desde o Brasil Colônia. Pois não é fato que a terra sempre foi um problema no Brasil, sobretudo em razão de sua concentração? Embora sejamos um país continental, jamais realizamos uma reforma agrária efetiva, e a terra continua concentrada nas mãos de poucas famílias, que detêm quase tudo, enquanto a esmagadora maioria se engalfinha por um pedaço de chão, seja no campo, seja na cidade.

Nesse sentido, as unidades federativas, na concepção de Olga, constituem um entrave ao avanço. Além disso, já acumulam uma dívida superior à da própria União e apenas contribuem para fortalecer a concentração fundiária. Por isso, ela defende uma reorganização estatal baseada apenas na relação entre municípios e União, com uma divisão geográfica pautada pelas bacias hidrográficas: "Os grandes rios como limites naturais das imensas regiões".

Os municípios deveriam ser reunidos por afinidade produtiva e possuir, no mínimo, a mesma extensão de áreas verdes que de áreas construídas. Ainda nessa etapa, também é preciso dizer o óbvio, afinal é no município que "você faz tudo: / Ama, casa, faz sexo, tem filhos, vive e morre".

Olga D'Arc, essa bruxa do século XXI, a quem saúdo e reverencio, finaliza:

As fronteiras internas são fictícias e

Pertencem a determinados grupos de elite

A despeito da multidão...

“Caguei redondo” às fronteiras absurdas

Que tentam separar o inseparável:

A brasilidade!

 

Manáos, 26 de julho de 2026.

quarta-feira, julho 01, 2026

no tempo seco


no tempo seco
da aridez do lugar
a cidade se faz bonita
as cores se sobrepõem
ipês a colorir
mangueiras a florir
anunciam a colheita
que há de chegar

sábado, maio 23, 2026

Excitados, Desatentos e Cansados: os jovens (mas não só) na era da superestimulação


A cena se repete com muita frequência: um(a) jovem sentado(a) numa sala de aula, em uma mesa de jantar (em casa ou em restaurante) ou no transporte público, com os olhos fixos na tela. A cena, que não é propriamente de rebeldia, revela a captura. O dispositivo que ele(a) segura foi projetado para não ser largado. E o que acontece com o sistema nervoso de alguém submetido a esse estado de captura contínua é algo que a filosofia, a psicanálise e a neurociência, por meio de diversos estudos, convergem em descrever com crescente preocupação.

Os jovens de hoje são (é importante dizer que isso não é privilégio da juventude, mas é o nosso foco), ao mesmo tempo, os mais conectados e, provavelmente, os mais esgotados de que se tem notícia. Excitados, desatentos e cansados, graças a um design que queria isso desde sua criação.

Vamos dialogar um pouco mais sobre esses pontos, no intuito de compreendermos o que vem acontecendo – embora é notório que muitos já sabem, até eles próprios, mas, nesse caso, saber parece não ser suficiente para abandonar a “prática”.

A excitação como estado permanente

Nina Saroldi, psicanalista e pesquisadora brasileira, em curso na Casa do Saber, formulou uma tríade que resume com precisão o estado subjetivo do(a) jovem contemporâneo(a): onipotente, deprimido e excitado. O excitado é aquele que vive em estado de ativação constante, alimentado por estímulos que chegam sem pausa, sem intervalo, sem silêncio. As telas, e mais especificamente as redes sociais e os conteúdos de consumo rápido como os vídeos curtos, são o motor dessa excitação. Cada notificação, like, comentário ou novo vídeo ativa o sistema de recompensa do cérebro, promovendo picos frequentes de dopamina.

O problema não é o prazer em si, mas a frequência e a gratuidade com que ele é induzido. A razão pela qual os algoritmos têm se tornado cada vez mais refinados é que eles vêm se transformando em especialistas no disparo da dopamina — e recebendo descargas desse hormônio sem muito esforço, a tendência é que os usuários se tornem cada vez mais tolerantes, precisando de doses maiores para sentir o mesmo efeito. É a lógica do vício transposta para a experiência cultural cotidiana. Nesse sentido, estamos vendo nascer uma nova subjetividade bastante delicada, pra não dizer perigosa.

Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado em Berlim e uma das vozes atentas sobre o sofrimento psíquico contemporâneo, descreve esse fenômeno como parte de uma mutação estrutural da sociedade, já que em sua visão “Cada época possuiu suas enfermidades fundamentais”. Em Sociedade do Cansaço (2017, Vozes), Han sustenta que sofrimentos psíquicos como burnout, transtorno de déficit de atenção e depressão são apreendidos em sua relação direta com o modo operatório do capitalismo contemporâneo — um capitalismo que já não precisa de vigilância externa para nos explorar, porque aprendeu a nos fazer explorar a nós mesmos. “Na sociedade do trabalho e do desempenho de hoje, que representa traços de uma sociedade coativa, cada um carrega consigo um campo, um campo de trabalho. A característica específica desse campo de trabalho é que cada um é ao mesmo tempo detento e guarda, vítima e algoz, senhor e escravo. Nós exploramos a nós mesmos. O que explora é ao mesmo tempo o explorado. Já não se pode distinguir entre algoz e vítima”. Por essa mesma lógica, pode-se afirmar que o jovem excitado não está sendo obrigado a nada: ele escolhe, voluntariamente, o próximo vídeo. E o próximo. E o próximo. Algoz de si nesse processo maquínico.

Uma sociedade viciada em dopamina causada pelo constante uso de redes sociais e estímulos torna o ócio (visto como tédio) um pecado capital. E é exatamente aí que reside uma das perdas mais silenciosas desse processo: o ócio, historicamente o espaço onde a imaginação trabalha, onde o pensamento divaga e onde a subjetividade se constitui, torna-se insuportável. O jovem que não consegue ficar dois minutos sem uma tela não é preguiçoso — é alguém cujo limiar de tolerância ao vazio foi radicalmente rebaixado. O ócio criativo desaparece e a subjetividade é hackeada, ou melhor, é sugada e entregue às big techs.

A desatenção como condição estrutural

Evidente que a era visual não começou com o smartphone. O cinema, a televisão, a publicidade, o néon das cidades — toda a modernidade foi uma aceleração da imagem sobre a palavra, do estímulo sobre a reflexão, e Guy Debord, em A sociedade do espetáculo (1997, Contraponto), já alertava que “Do automóvel à televisão, todos os bens selecionados pelo sistema espetacular são também suas armas para o reforço constante das condições de isolamento das ‘multidões solitárias’”. O digital apenas intensificou esse processo a um novo ponto qualitativo: não apenas mais imagens, mas imagens que respondem, que aprendem o que nos prende e nos entregam mais disso. Primeiro vamos moldando o algoritmo a nossos gostos, depois, ele molda o nosso gosto, deixando-nos em um fluxo continuo de mais do mesmo. Quando há criticidade apurada já é difícil sair do círculo vicioso, imagine um jovem em formação.

O resultado é a hiperatenção: a existência de uma dispersa hiperatenção, isto é, a multiplicação da atenção por mil e uma coisas, tarefas, leituras etc., são imensas e seus efeitos são tremendos. A hiperatenção é o avesso da atenção profunda: ela permite que o jovem acompanhe cinco conversas simultâneas, alterne entre doze abas abertas e consuma trezentos vídeos por dia — mas o incapacita de ler um capítulo de livro sem interromper a leitura para checar o celular. Aliás, é importante que se diga, nunca se leu tanto, afinal estamos todos (as) lendo o tempo inteiro cards, descrições de publicações etc., mas tem diminuído o processo de leitura atenta, como livros e artigos, basta perguntar a qualquer professor universitário sobre o quanto tem sido difícil que os/as jovens leiam textos profundos. Então, há muita leitura diária, mas trata-se de uma leitura-varredura e não de uma leitura imersiva.

A neurociência demonstra que o cérebro não processa tarefas complexas em simultâneo, mas sim alterna rapidamente entre elas, reduzindo a eficiência e aumentando o tempo de execução de cada atividade. O que se percebe como multitarefa é, na verdade, uma sucessão de microinterrupções — cada uma com custo cognitivo real. A economia da atenção cobra o seu preço. Será por isso o crescimento de tantos transtornos e a venda de tantos remédios para minimizar tais deficiências? O fato é que parece difícil se concentrar com uma geringonça apitando ou vibrando a cada cinco segundos no bolso.

A dimensão política desse processo não deve ser subestimada. Para Han, em Infocracia: digitalização e crise da democracia (2022, Vozes), vivemos, como o título da obra anuncia, uma infocracia, isto é, uma sociedade na qual a circulação de informação pelo mundo digital dita a vida em sociedade, levando cada um a ficar na sua própria bolha e prejudicando as faculdades humanas essenciais para a democracia, como a imaginação, a empatia e a racionalidade discursiva. Um jovem desatento não é apenas um estudante com baixo rendimento: é um cidadão com a capacidade crítica comprometida, capturado por algoritmos que decidem o que ele vê, acredita e deseja. Daí para ele entrar em uma guerra de memes, embarcar em radicalidades rasas, é um passo. Pensar, usar da racionalidade é trabalhoso e demorado.

Saroldi observa que a indústria cultural contemporânea invade a subjetividade de forma mais radical do que Adorno e Horkheimer poderiam ter imaginado. As big techs capturam quase todos os sentidos por meio de telas onipresentes, substituindo a imaginação por estímulos audiovisuais constantes. O que está em jogo não é apenas a capacidade de concentração, mas a possibilidade mesma de uma vida interior — de um espaço subjetivo que não seja continuamente colonizado externamente. Walter Benjamin em A obra de arte na época da possibilidade de sua reprodução técnica, presente no livro Estética e sociologia da arte, (2017, Autêntica), já afirmava que ao mudar “o modo de existência das sociedades humanas”, muda também o “modo de percepção”. Onde nos levará essa percepção e qual subjetividade ela formará?

O cansaço como consequência inevitável

Se a excitação é o estado e a desatenção é o modo, o cansaço é o destino. E não é um cansaço qualquer, mas o cansaço do sistema nervoso sobrecarregado, de um cérebro que parece nunca ter descansado de verdade porque nunca ficou, de fato, em silêncio. Lembremos que o cérebro consome muita energia.

O excesso de estímulos aumenta o cortisol, levando a ansiedade e à fadiga mental. Alguns especialistas alertam que crianças e jovens expostos a telas por mais de cinco horas diárias mostram alterações no córtex pré-frontal, área ligada ao controle cognitivo. Um cérebro em estado de alerta permanente, processando fluxos ininterruptos de informação, paga um preço fisiológico concreto: cansaço.

Han já havia descrito esse esgotamento como a doença paradigmática do nosso tempo. A sociedade atual parece ter destruído a capacidade de atenção e de ócio criativo. É como se não conseguíssemos mais parar. O paradoxo é bem cruel, pois quanto mais cansado, mais se busca o estímulo das telas, como se elas fossem relaxar; tal busca, por outro lado, é o estímulo imediato, não exige esforço e oferece a ilusão de recompensa, ainda que tenhamos consciência disso. O cansaço alimenta a dependência que gera mais cansaço.

Saroldi nomeia esse ponto de chegada de modo preocupante: o jovem excitado é também o jovem deprimido. Não necessariamente a depressão clínica, mas um estado de vazio afetivo que se instala quando o sistema de recompensa é tão continuamente ativado que perde a sensibilidade. Por outro lado, há um excesso de otimismo nas redes e o scroll infinito faz com que não se queira ficar por fora, há sempre um certo receio de estarmos perdendo algo e com isso vamos ignorando os limites do corpo e da mente, resultando em extrema exaustão. Na cultura digital não há limite.

(In) conclusão

É preciso resistir à tentação de transformar esse diagnóstico em moralismo ou apenas em um problema geracional. Afinal quase todos nós estamos mergulhados nesse problema, eu mesmo, por conta do trabalho tenho ficado cada vez mais horas diante das telas. Nesse sentido, talvez seja pertinente perguntar: os jovens são vítimas ou são sujeitos nesse processo? Será que conseguem escolher livremente? Cabe lembrar que o córtex pré-frontal só fica totalmente maduro aos 25 anos. Há bastante informação na internet acerca do quanto o uso das redes sociais ativa intensamente os circuitos dopaminérgicos. "O modelo de negócio dessas empresas é gerar vício", como explicou o pediatra e sanitarista Daniel Becker (leia aqui).

O que está em jogo, portanto, é tanto uma questão de saúde pública quanto uma questão política e educacional. Recuperar a atenção profunda — aquilo que Han chama de "demorar contemplativo", o único modo de acesso ao pensamento de longo alcance, e isso não é um luxo nostálgico. É uma condição para a formação de sujeitos capazes de habitar o mundo com autonomia e discernimento. De minha parte, tenho tentado ampliar cada vez mais o meu universo de leituras, mas não estou na mesma condição dos/as jovens, minha geração não cresceu conectado. Quanto a juventude, penso que por um lado, há a necessidade de responsabilizar as empresas desenvolvedoras de tais mecanismos e, ao mesmo tempo, investir cada vez mais em educação digital desde cedo.

Ter tempo para o ócio criativo, para a contemplação, valores defendidos desde a antiguidade, parece ser um bom caminho, embora isso implique o debate de outras questões em nosso tempo acelerado, como, por exemplo, o mundo do trabalho. O fato é que tudo isso veio pra ficar e não se trata de combater, mas sim compreender e educar. Por enquanto, faz-se necessário ensinar aos/às jovens que suportarem o “tédio”, que ficarem consigo mesmo ou atravessarem um texto longo sem interrupção, é um ato de rebeldia. E de rebeldia, penso que os jovens ainda entendem, assim espero.


sábado, maio 09, 2026

Reler é mudar de lugar

 

Ler é, em alguma medida, encontrar-se; e constitui-nos socialmente. Mas reler é medir a distância entre quem fomos e quem nos tornamos. A primeira leitura costuma ser atravessada pela surpresa, pela descoberta quase ingênua do mundo que se abre nas páginas à nossa frente. Já a releitura carrega o peso e a mudança do tempo ou o que ele fez conosco: não é mais o mesmo livro que chegou até nós pela primeira vez, pois somos outra pessoa, estamos modificados. Tal constatação, simples à primeira vista, guarda trajetórias, percursos dos quais, no correr do cotidiano, não nos damos conta, mas que a releitura revela.

As obras nos formam silenciosamente. Um livro lido na infância pode deixar profundas marcas, moldar sensibilidades, sugerir caminhos. No entanto, o reencontro com esse mesmo livro, anos depois, pode ser desconcertante. Aquilo que antes parecia grandioso pode revelar limites, preconceitos, visões estreitas que, naquele momento inicial, não éramos capazes de perceber. A frustração com a obra revela, por outro lado, a alegria da constatação de que crescemos, e de que certos encantamentos não sobrevivem ao amadurecimento do olhar. Ainda bem!

Lembro de um livro que me marcou profundamente na minha infância, Os Segredos de Taquara-Póca, de Francisco Marins, com elementos de aventura e do fantástico. Consegui ler o livro graças a um projeto chamado Ciranda Hoechst, que penso que era vinculado à Fundação Roberto Marinho. Eu não queria devolvê-lo à pequena biblioteca da escola. Trata-se de um livro infanto-juvenil, publicado, salvo engano nos anos 1960 e que em novas edições eu tive acesso ali no início dos anos 1980. Enfim, aquela aventura me marcou demais e quando adulto quis retomar. Finalmente encontrei em um sebo e o comprei. As aventuras ainda estavam lá, mas já não encantavam mais e, o pior, foi perceber elementos preconceituosos, fruto evidentemente do tempo do escritor. Hoje procuro não olhar um autor com anacronismo, isto é, procuro compreender seu tempo histórico, mas naquele momento de retomada do livro, foi decepcionante.

Mas há também o movimento inverso, talvez ainda mais revelador. Certos livros, revisitados, parecem expandir, crescem conosco. O que antes passava despercebido ganha densidade; temas secundários tornam-se centrais; nuances emergem onde antes o olhar alcançava apenas a superfície. A releitura, então, amplia a obra e também nossa capacidade humana de vermos o que não está necessariamente dito. Ler as entrelinhas, os contextos, o inaudito que nossos limites não foram capazes de captar em um primeiro momento, é maravilhoso! Ora, tal processo de acúmulo de experiências, de leituras e vivências que a vida vai nos fornecendo (quando não nos fechamos para ela, claro) é o que cria novas camadas de interpretação, como se o livro se transformasse sem jamais ter mudado uma só palavra.

Nesse sentido, o exemplo que mais me marca é Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Nesse caso, o tempo não pesou sobre a obra, afinal é um romance de 1938, ao contrário. Talvez fale mais alto para mim do que para outras pessoas, pelo fato de ser nordestino, que tive que migrar, mas, para além disso, a condição animalesca a que está submetido Fabiano e sua família, penso que toca qualquer pessoa sensível e que não aceita tais condições. Voltar à obra é sempre mergulhar no universo renovado das injustiças sociais, das desigualdades e das opressões dos poderosos sobre os desamparados; é fortalecer a certeza de que nossa humanidade não pode nunca aceitar tais condições como naturais - ainda que tenha um lastro natural na obra, a seca.

Reler é, portanto, um gesto crítico e íntimo. Funciona como uma espécie de espelho deslocado no tempo: ao encarar novamente o texto, somos obrigados a encarar a nós mesmos. O que mudou? O que permanece? O que já não aceitamos? O que agora compreendemos melhor? Assim, voltar a certos livros é também um exercício de autoconhecimento, uma forma de testar o nosso próprio crescimento, seja intelectual, ético, sensível, humano.

Se ler é abrir portas, reler é atravessá-las outra vez, porém, com outros olhos. E nem sempre o que encontramos do outro lado é confortável. Mas é justamente nesse desconforto, nessa tensão entre o passado e o presente, que reside a potência da leitura como prática viva: não um ato encerrado no momento em que viramos a última página, mas um diálogo contínuo entre o texto e as transformações de quem o lê.

sábado, abril 25, 2026

O PONTO DE ÔNIBUS

 

ELA (Sentada, enquanto aguarda; cantarola algo que parece não ter começo nem fim).

ELE (Chega, observa ao redor como quem procura algo invisível; olha para ela; ela esboça certo receio) – Boa tarde!

ELA (Meneia a cabeça, quase imperceptível) – Tarde.

ELE – A senhora sabe se aqui passa o 65?

ELA – Oi?

ELE – O 65. Ele costuma atrasar quando chove vento.

ELA – Quando chove… vento?

ELE – Sim. É mais fino que a chuva, mas molha por dentro.

ELA – 65… não me lembro. Pra onde ele vai?

ELE – Para a lua. Mas só até a metade. Depois é integração.

ELA (Esboça um sorriso desconfiado) – Integração com o quê?

ELE – Com o silêncio. De lá, cada um segue como pode.

Pausa. Um carro passa, mas não há rua.

ELA – Creio que aqui não passa, não.

ELE – Tem certeza? Ontem ele passou duas vezes e não levou ninguém.

ELA – Talvez ninguém quisesse ir.

ELE – Ou talvez ninguém tivesse voltado pra contar.

Silêncio. ELA observa o horizonte como se ele estivesse muito perto.

ELA – O senhor está esperando há muito tempo?

ELE – Desde amanhã.

ELA – Entendo… (Pausa) Quer dizer, não entendo, mas aceito.

ELE – É o que todos fazem. Aceitam primeiro, entendem nunca.

Um vento leve. ELE segura algo invisível para não deixar cair.

ELA – O que foi?

ELE – Quase perdi meu lugar na fila.

ELA – Mas não tem fila.

ELE – Justamente por isso é perigoso.

Pausa longa. ELA levanta-se devagar.

ELE – Ué, a senhora não vai esperar o ônibus?

ELA – Lembrei que o meu não passa aqui.

ELE – E pra onde a senhora vai?

ELA – Vou pra Marte. Dizem que lá os ônibus chegam antes das pessoas.

ELE – Faz sentido. Aqui, às vezes, as pessoas chegam depois que já foram.

ELA começa a sair.

ELE – E qual o número do seu?

ELA (Sem olhar para trás) – Não tem número. Só direção.

ELE – Isso é complicado…

ELA – Nem tanto. Complicado é saber se a gente quer chegar.

Pausa. ELE pensa. Olha ao redor.

ELE – A senhora sabe se aqui passa alguém?

ELA já não está mais. O ponto permanece. Um silêncio que parece anunciar algo.)

ELE (Senta-se no lugar onde ela estava) – Boa tarde… alguém?

 

terça-feira, abril 21, 2026

Aprendizagem das águas

 

As águas, em seus fluxos persistentes, guardam modos de ensinar que escapam à pressa do mundo contemporâneo. Entre o gesto artístico e a escuta ancestral, este texto aproxima experiências distintas do teatro e dos saberes indígenas, de modo a refletir sobre forma, essência e movimento. Evoco três mestres e três modos de ver um mesmo elemento: a água, que se adapta sem perder sua natureza.

Há alguns anos, eu estava apresentando em um festival de teatro. O espaço era uma grande arena, nos moldes gregos, com capacidade para milhares de pessoas. Seríamos (pois se tratava do coletivo do qual eu fazia parte) a última apresentação da noite, encerrando a programação. Estávamos todos preocupados, e eu, particularmente, ainda mais apreensivo.

Manifestei essa inquietação a um dos nossos mestres do teatro, Amir Haddad, que também participava do festival como convidado. Ele me olhou e disse algo mais ou menos nestes termos: imagine que o conteúdo do seu espetáculo é a água dentro de um balde; o balde é a forma atual. Porém, quando você esparramar essa água no espaço, naquela arena, ela não deixará de ser água. Seu conteúdo continuará a comunicar. Portanto, esparrame-o nesse espaço. A forma pode mudar, mas a essência permanece.

Ontem, no programa Roda Viva[1], Daniel Munduruku contou uma história vivida com seu avô. Como relatou, em conflito com a vida urbana, Daniel se sentia angustiado. Certo dia, já na aldeia, o avô, percebendo seu estado, chamou-o para um banho em uma queda d’água. Pediu que o neto escutasse o rio. Ele obedeceu, mas, depois de muito tentar, disse que nada havia escutado. O avô insistiu: o rio falou, sim; o neto não escutou porque estava muito cheio, e quando estamos assim, só ouvimos as vozes de nossa própria cabeça.

O avô então prosseguiu: o rio não reclama, ele segue seu curso. Quando encontra um obstáculo, passa por cima, por baixo, pelo lado; encontra um jeito, pois não pode parar de correr. Um rio que não corre apodrece, perde sua vitalidade. Ele precisa continuar, porque tem uma missão a cumprir: mergulhar no mar. Há, nessa imagem, uma ética do movimento e da persistência, uma sabedoria antiga em que precisamos mergulhar.

Ailton Krenak, outro pensador e liderança indígena, ao se referir ao Rio Doce, em Minas Gerais, o nomeia como Watu, que, em sua língua, significa “avô”. Ele lembra que, para o povo Krenak, o rio não é apenas um recurso natural, mas um ente vivo, ancestral. Portanto, parte da família, digno de respeito e proteção. Na cosmologia Krenak, como em muitos outros povos originários, a natureza tem nome, tem espírito, é familiar; por isso, é possível dialogarmos com esses entes.

É por meio do seu avô, o rio, que se reafirma o vínculo com a ancestralidade e com o próprio povo. Desse modo, Ailton Krenak contrapõe a ideia de que o rio, e outros elementos naturais, sejam apenas recursos à nossa disposição, prontos para exploração. Ao contrário, são presenças com as quais nos relacionamos. Não por acaso, ele abre seu livro Futuro ancestral (Companhia das Letras, 2022) com o seguinte chamado-alerta: “Os rios, esses seres que sempre habitaram os mundos em diferentes formas, são quem me sugerem que, se há futuro a ser cogitado, esse futuro é ancestral, porque já estava aqui”.



[1] O programa completo pode ser assistido no YouTube, disponível em: https://www.youtube.com/live/dXb9i01WKhQ?si=3RL5k2z_0NOs6Yrm.

domingo, abril 12, 2026

livre-pensar

estudar é lento, espinho e flor
tece crítica, liberdade e dor
quanto mais se ergue o pensar
mais se aprende a solidão habitar

chamam-te estranho, sábio vão
porque preferem a servidão
algoritmos vêm aprisionar
por isso, creem antes de indagar


por que, se livres, calçamos pés alheios
se é o livre-pensar que nos faz inteiros?

sexta-feira, abril 03, 2026

cada dia...

cada dia que passa
diminuem as certezas
somam-se as dúvidas
mas é preciso seguir
dividindo as dores
multiplicando afetos

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

A luta vã da escrita

 Carlos Drummond de Andrade, em seu poema O lutador, abre a escrita afirmando que apesar da luta ser vã, mal raia o dia e já se debate com as palavras. Carrego essa imagem como um espelho do momento em que vivo: há três anos me debato com um pequeno livro — pequeno aí talvez tenha muitas dimensões e significados, muitas camadas de sentido. É um livro que me atravessa. Não sei se o livro nascerá, mas o desejo de trazê-lo à luz persiste, como se existisse em alguma zona escura dentro de mim, guardando temas que ainda não compreendo totalmente.

O destino pareceu contrariar ou alertar acerca do projeto quando perdi quase tudo em uma pane no computador. Restaram poucos arquivos, salvos nas nuvens — essas estruturas invisíveis, sustentadas por máquinas e que bebe muitos recursos naturais, mas distantes da nossa percepção cotidiana. Mas o livro mesmo, daquela versão tudo se perdeu. Era já o segundo rascunho, e a perda teve gosto de recomeço forçado, quase como se o texto pedisse outra forma de existir.

Retomei porque a origem dele nunca esteve no digital. A primeira escrita foi à mão. Ainda tenho o caderno: páginas de palavras empilhadas, rápidas anotações... Há algo de orgânico nisso, como se o pensamento deixasse rastros físicos. Voltar ao caderno foi voltar ao impulso inicial, ao momento em que a história ainda não tinha medo de ser imperfeita (nenhum escritor deveria ter medo da imperfeição, afinal, estamos fatalmente condenados).

É um livro profundamente pessoal, mas atravessado pela imaginação, pela invenção. Aproximo-me da autoficção, ainda que desconfie dos rótulos, mas é a “moda” vigente. Talvez toda escrita carregue fragmentos de quem escreve, mesmo quando disfarçados pela fantasia. Tenho evitado ler autores do momento nesse campo, especialmente os franceses, talvez por cautela. Sei que sou permeável às vozes alheias, e agora preciso ouvir a minha até o fim.

Talvez demore. Quiçá, quando terminar (se terminar), o mundo já tenha mudado de interesse e autoficção seja apenas uma lembrança... Ainda assim, escreverei como um gesto de minha permanência, uma tentativa de existir além do silêncio do que vivi. Do que será real disso tudo? Quem sabe, já que tudo que é recontado carrega muito de invento e devaneio.

quinta-feira, janeiro 22, 2026

VIVER-MORRER

 

          Disse Utnapishtim:

Nada permanece. Será que construímos uma casa para ficar para sempre, será que selamos um contrato para que valha em todos os tempos? Dividem os irmãos uma para guardarem para sempre, perdurará o tempo da inundação dos rios? Só a crisálida da libélula é que solta a sua larva e vê o sol na sua glória. Desde os dias antigos que nada permanece. Que semelhantes são aos mortos os que dormem – são como uma morte pintada!

Gilgamesh – Épico sumério

Nascer é lançar-se a um abismo desconhecido, abrir-se à morte que caminha conosco. Cada dia vivido aproxima o fim, mas também amplia a experiência. Sobrevivemos por meio dos filhos, das obras, dos gestos que permanecem como memória compartilhada. Morrer cedo pode parecer um bem, fuga do desgaste, contudo viver é precioso justamente por ser transitório. A vida, incógnita radical, nos joga no reino das possibilidades e da escolha. Por isso, diariamente, devemos penetrar o mundo com sensibilidade, pensá-lo com cuidado, agir com responsabilidade, sabendo que tudo passa, mas nada vivido é inútil, quando lembrado, partilhado, assumido, sentido, narrado com verdade.

sexta-feira, janeiro 16, 2026

CORAGEM

 

O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

João Guimarães Rosa

 

Enfrentar nossos medos é um ato de coragem. O medo pode ser de vários tamanhos para quem o ver de fora, mas quem o vivencia, apesar de diversos, parece ter o mesmo tamanho. Pegar um ônibus sozinho, entrar em uma briga, sair finalmente de casa, mudar de cidade, no intuito de construir sua vida...

Toda mudança, por exemplo, requer coragem. Mudar de trabalho, de cidade, finalizar uma relação, nada disso é fácil, pois tirar de nossa frente o que estamos habituados, acostumados, não é fácil, já que é sempre um mergulho no desconhecido. Dará certo? Seremos felizes?

A  vida, no entanto, é mudança constante, movimento. Nada permanece como está, ainda que na aparência tudo “pareça” igual. Interno e externamente estamos em permanente mudança, então que ouçamos Guimarães Rosa, pois a vida sempre nos pede coragem. E como estamos em início de novo ciclo, começo de ano, tempo de realizarmos planos, que tenhamos a coragem de enfrentar o que nos desafia.