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sexta-feira, janeiro 31, 2025

O Canto da Motosserra

   

A América do Sul sempre foi um lugar de contrastes, onde o realismo mágico não era apenas uma corrente literária, mas a própria respiração do cotidiano. Nas ruas de cidades sem nome, árvores cresciam dentro de casas abandonadas, e rios mudavam de curso para evitar derramar suas águas em terras amaldiçoadas. Era uma região onde o impossível era apenas uma questão de perspectiva, e a realidade se dobrava como um tecido sob os dedos de um artesão invisível.

Mas em uma parte, um grande pedaço dessa região, algo havia mudado. O ar, outrora carregado de promessas e lendas, agora pesava como chumbo. O céu, antes tão azul que parecia pintado por mãos divinas, estava agora tingido de um cinza opaco, como se o sol tivesse desistido de brilhar. E no meio desse cenário desolador, surgiu ele: o político da motosserra.

Seu nome era Ignácio Fúria, mas ninguém o chamava assim. Era conhecido apenas como "A Motosserra". Ele carregava na cabeça, como uma coroa grotesca, uma motosserra enferrujada que rangia a cada movimento. Quando falava, espumava pela boca, como um cão raivoso, e suas palavras eram cortantes, afiadas, como as lâminas que giravam sem parar acima de sua testa. Suas promessas eram feitas de fumaça e fúria, e seus discursos, uma cacofonia de ameaças e delírios.

O mais estranho era que boa parte de seus eleitores era jovem. Gerações que cresceram diante de telas brilhantes, onde a realidade se confundia com ficção, e as fake news eram mais sedutoras do que a verdade. Para eles, Ignácio Fúria não era um homem, mas um personagem, um ícone, uma figura que transcendia a lógica. Sendo assim, ele se tornou herói de uma narrativa distorcida, em que o caos era glamourizado e a destruição, romantizada.

Ignácio alinhou-se com nações poderosas, líderes que viam nele um fantoche útil, um cãozinho frágil que latia alto, mas se curvava diante de seus donos. Ele lambia as mãos que o alimentavam com migalhas de poder, enquanto sua população empobrecia a cada dia. As ruas, outrora vibrantes de vida, agora eram cenários de desespero. Pessoas vendiam sonhos em garrafas, crianças comiam brincadeiras para saciar a fome, e os rios, antes mágicos, secavam sob o peso da indiferença.

Enquanto isso, a motosserra girava, cortando não apenas árvores, mas memórias, esperanças, futuros. Ignácio Fúria governava com a lâmina da destruição, e seu reinado era uma dança macabra entre o real e o absurdo. Ele prometia um futuro cheio de passado glorioso. Passado, que aliás, nunca existiu. Prometia um tempo mítico onde a América do Sul seria grande, poderosa, intocável. Mas o que ele oferecia era apenas ruína, um espelho quebrado que refletia apenas fragmentos de um sonho perdido.

No meio dessa distopia, uma jovem chamada Luzia começou a ouvir vozes. Eram sussurros que vinham das árvores, dos rios secos, das paredes rachadas das casas abandonadas. As vozes contavam histórias de um tempo antes da motosserra, antes mesmo do que se chamava América do Sul, um tempo que respirava magia e os sonhos tinham raízes profundas. Luzia, com olhos que brilhavam como estrelas em uma noite sem lua, decidiu seguir esses sussurros.

Ela encontrou um grupo de resistência, pessoas que ainda acreditavam na magia daquele tempo ancestral. Havia um velho que tecia tapetes que contavam o futuro, uma mulher que cantava canções que curavam feridas, e um menino que podia falar com os ventos. Juntos, eles planejaram um ritual, uma cerimônia que uniria o futuro-ancestral à resistência política. Eles chamariam de volta os espíritos da terra, os guardiões esquecidos que poderiam deter a motosserra; segurariam o céu.

Na noite do ritual, o céu escureceu de uma forma diferente. As estrelas pareciam se aproximar, como se quisessem testemunhar o que estava por vir. Luzia e seu grupo dançaram em círculos, entoando cantos antigos que ecoavam como trovões. A terra tremeu, e das rachaduras surgiram luzes, formas, seres que há muito haviam sido esquecidos.

Ignácio Fúria sentiu o chamado. Ele veio, como um cão raivoso, sua motosserra rangendo furiosamente. Mas quando ele chegou ao local do ritual, algo aconteceu. As lâminas de sua motosserra pararam de girar, e ele caiu de joelhos, como se o peso de sua própria destruição finalmente o atingisse. As vozes que Luzia ouvira agora ecoavam em sua mente, eram poderosas e começavam a modifica-lo em suas moléculas, ao mesmo tempo em que ele via o que havia destruído.

E então, de modo inusitado, Ignácio Fúria começou a se desfazer. Sua motosserra virou pó, e ele próprio se dissolveu em uma névoa que foi levada pelo vento. O céu clareou, e as árvores começaram a crescer novamente, como se a terra estivesse respirando aliviada.

A América do Sul não se curou da noite para o dia. As cicatrizes de Ignácio Fúria ainda estavam lá, profundas e dolorosas. Mas, pela primeira vez em muito tempo, havia esperança. Luzia e seu grupo continuaram seu trabalho, tecendo magia e resistência, lembrando a todos que a região era, e sempre seria, um lugar onde o impossível podia acontecer.

E assim, sob um céu que lentamente recuperava seu azul, o lugar começou a renascer.

terça-feira, janeiro 28, 2025

O Despertar do Século Passado

 

No coração do Norte, uma nação outrora conhecida por sua diversidade e liberalismo, algo estranho começou a acontecer. As eleições presidenciais trouxeram ao poder uma figura que, à primeira vista, parecia uma piada: um homem de pele alaranjada, cuja tonalidade vibrante era tão surpreendente quanto suas ideias políticas. Ele não era apenas uma curiosidade visual; suas propostas e discursos ecoavam um passado distante, como se o tempo tivesse se invertido e o século XIX tivesse ressurgido no meio do século XXI.

O presidente, cujo nome era Thaddeus Laranja, tinha um carisma peculiar. Sua retórica era simples, direta e, para muitos, assustadoramente convincente. Ele falava de "destino manifesto" e de uma "missão sagrada" que o povo do Norte havia recebido dos céus. No início, muitos riram, achando que suas palavras eram apenas bravatas de um excêntrico. Mas, aos poucos, suas ações começaram a mostrar que ele estava falando sério.

Um dia, em uma cerimônia transmitida para todo o país, Thaddeus Laranja apresentou um documento antigo, amarelado e frágil, que ele afirmava ter desenterrado de um arquivo secreto. O texto, datado de dois séculos atrás, falava de uma profecia: o povo do Norte era "predestinado" a guiar o mundo, a impor sua cultura, seus valores e sua visão sobre todas as outras nações. Era um chamado ao expansionismo, ao domínio global, e Thaddeus Laranja parecia determinado a cumpri-lo.

Aos poucos, o presidente começou a formar alianças com outras figuras excêntricas ao redor do mundo. Havia um líder de um país distante que acreditava que a Terra era plana, outro que defendia abertamente a volta da monarquia absoluta, e ainda outro que pregava o fim da ciência moderna em favor de um retorno às "verdades antigas". Juntos, eles formaram uma coalizão bizarra, unidos pela crença de que o mundo precisava ser "corrigido" e que eles eram os escolhidos para fazer isso.

As decisões de Thaddeus Laranja começaram a chocar o mundo. Ele revogou leis que protegiam os direitos das minorias, argumentando que "a pureza cultural" precisava ser preservada. Ele cortou fundos para a educação e a ciência, dizendo que o conhecimento moderno era "corrupto" e que as pessoas deveriam se voltar para os "ensinamentos do passado". Ele até mesmo propôs a construção de um grande muro ao redor do país, não para manter as pessoas fora, mas para evitar que as ideias modernas entrassem.

Enquanto isso, o documento antigo era exibido como uma relíquia sagrada. Thaddeus Laranja o chamava de "A Carta do Destino" e dizia que ele havia sido escrito pelos fundadores da nação, que tinham vislumbrado o futuro e visto o papel crucial que o povo do Norte desempenharia no mundo. Muitos historiadores contestavam a autenticidade do documento, mas suas vozes eram abafadas pelo fervor nacionalista que varria o país.

Aos poucos, o Norte começou a interferir em outras nações. Tropas foram enviadas para "ajudar" países vizinhos a "restaurar a ordem". Empresas do Norte começaram a comprar terras e recursos em outros continentes, sempre com a justificativa de que estavam cumprindo o "destino manifesto". A comunidade internacional tentou reagir, mas a coalizão de líderes excêntricos que Thaddeus Laranja havia formado era poderosa demais para ser contida.

Dentro do país, a sociedade começou a se dividir. Havia os que apoiavam cegamente o presidente, acreditando que ele era um enviado dos céus. E havia os que viam com horror o retrocesso das conquistas sociais e científicas dos últimos séculos. Movimentos de resistência começaram a surgir, mas eram rapidamente reprimidos pelo governo, que agora se via como o guardião de uma missão divina.

No meio do caos, uma jovem historiadora chamada Elara começou a investigar a origem do documento que Thaddeus Laranja tanto venerava. Ela descobriu que o texto não era uma relíquia antiga, mas uma falsificação criada no século XIX por um grupo extremista que nunca havia conseguido apoio. O documento havia sido esquecido, até que alguém o encontrou e decidiu usá-lo para justificar uma agenda perigosa.

Elara tentou alertar o mundo, mas sua voz foi abafada pelo barulho da propaganda governamental. Ainda assim, ela não desistiu. Junto com um grupo de dissidentes, ela começou a espalhar a verdade, tentando abrir os olhos daqueles que ainda conseguiam pensar por si mesmos.

Enquanto isso, Thaddeus Laranja continuava sua marcha rumo ao passado, determinado a transformar o mundo em uma versão distorcida de um tempo que nunca deveria ter voltado. Mas, em meio ao retrocesso, pequenas faíscas de resistência começavam a surgir, sugerindo que talvez o futuro ainda não estivesse perdido.

E assim, o Norte seguia em frente, dividido entre o peso do passado e a esperança de um futuro que ainda poderia ser salvo.

domingo, janeiro 26, 2025

Encontro com a Amazônia

 

Carlos sempre sonhou em conhecer a Amazônia. Desde criança, via nos livros didáticos imagens da densa floresta, dos rios que cortavam o horizonte como veias pulsantes e dos animais exóticos que pareciam saídos de um conto de fadas. Conforme crescia, porém, as notícias sobre a região mudaram. A Amazônia, outrora retratada como um paraíso intocado, agora aparecia em manchetes sobre queimadas, desmatamento e conflitos ambientais. Carlos via, com crescente angústia, como os problemas climáticos se agravavam a cada dia, apesar dos negacionistas que insistiam em minimizar a crise. Para ele, a Amazônia era mais do que uma floresta; era um baluarte, um símbolo de resistência da natureza contra a ganância humana.

Aos 32 anos, Carlos finalmente decidiu que era hora de ver com os próprios olhos o que tanto lia e estudava. Economizou por meses, planejou cada detalhe da viagem e, com uma mochila nas costas e um coração cheio de expectativas, embarcou para Manaus. De lá, seguiu de barco para uma pequena comunidade no interior da floresta, onde havia combinado de se hospedar com uma família local.

No primeiro dia, Carlos acordou cedo, ansioso para explorar a floresta. O sol ainda mal havia nascido, mas o calor já se fazia presente, denso e opressivo. Ele vestiu roupas leves, calçou botas resistentes e saiu para caminhar. A paisagem era deslumbrante: árvores gigantescas, o canto dos pássaros, o cheiro de terra molhada e vida. Ele se sentia pequeno, insignificante diante da grandiosidade da natureza.

Mas, conforme as horas passavam, o calor começou a pesar. O mormaço, como os locais chamavam, era algo que Carlos não havia imaginado. Era como se o ar estivesse impregnado de uma umidade quente que grudava na pele e dificultava a respiração. Ele sentiu o suor escorrer pelo rosto, as roupas colando no corpo. Aos poucos, começou a sentir tonturas, uma leve náusea. Parou para descansar à sombra de uma árvore, mas o mal-estar só aumentava.

Carlos tentou seguir em frente, determinado a não deixar que o desconforto o impedisse de explorar a floresta. Mas, após alguns passos, sentiu as pernas fraquejarem. A visão escureceu por um instante, e ele precisou se apoiar em uma rocha para não cair. Foi então que percebeu: a Amazônia não era apenas um cenário de sonhos ou um símbolo de resistência. Era um lugar real, concreto, que exigia respeito e adaptação. Ele havia subestimado a força da natureza, e agora ela lhe mostrava, de maneira crua, que não era um mero observador, mas parte integrante daquele ecossistema.

Com dificuldade, Carlos voltou para a comunidade. A família que o hospedava percebeu seu estado e logo lhe ofereceu água fresca e um lugar para descansar. Enquanto se recuperava, ele ouviu histórias sobre como os moradores lidavam com o calor, as chuvas torrenciais e os desafios de viver na floresta. Aprendeu sobre as plantas medicinais que usavam para tratar mal-estares, sobre os rituais que realizavam para agradecer à natureza e sobre a luta diária para preservar seu modo de vida diante das ameaças externas.

Naquela noite, Carlos deitou em sua rede, olhando para o céu estrelado que parecia tão próximo. Refletiu sobre como sua visão romântica da Amazônia havia sido abalada, mas também enriquecida. Ele percebeu que a floresta não era apenas um lugar a ser admirado de longe, mas um organismo vivo, complexo e cheio de contradições. Sentiu uma profunda conexão com aquela terra, não mais como um turista, mas como alguém que havia sido tocado por sua realidade crua e bela.

Nos dias seguintes, Carlos adaptou-se ao ritmo da floresta. Aprendeu a caminhar devagar, a respeitar o calor, a ouvir os sons da natureza. Descobriu que a Amazônia não era apenas um baluarte contra as mudanças climáticas, mas também um professor severo e sábio. E, ao partir, levou consigo não apenas fotos e lembranças, mas uma nova compreensão do que significava lutar pela preservação daquela terra. A Amazônia havia deixado de ser um sonho distante para se tornar uma parte indelével de sua história.

sexta-feira, janeiro 17, 2025

No País do Futebol


Ah, o Brasil! Terra do samba, do carnaval e, claro, do futebol. Se tem uma coisa que a gente sabe fazer de olhos fechados, é botar uma bola no chão e mostrar que, para o brasileiro, a vida é uma pelada. Não importa onde, não importa quando, só importa que a pelada esteja rolando. E foi em uma dessas partidas de bairro, entre amigos de infância e outros perdidos na vida, que Zedovsky, o verdadeiro craque da quebrada, aprendeu que ser boleiro no Brasil vai muito além de dribles e gols. Vai também de atendimento médico e uma boa dose de paciência.

Zedovsky – e o nome dele é Zedovsky mesmo, porque, se você é da quebrada, seu nome precisa ser sonoro e incomum para se destacar – estava fazendo o que mais sabe: encarando uma pelada, claro. O gramado? Um campo de terra batida onde, quando chove, vira um lamaçal só. O time? Basicamente um bando de gente que tenta impressionar o pessoal da rua, mesmo que não manje de esquema tático.

Tudo estava indo bem, até que Zedovsky, em um de seus dribles geniais (ou seriam apenas vacilos?), acabou se lesionando de maneira épica. Um torção no tornozelo que mais parecia cena de filme de ação, daqueles em que o herói tenta pular de um prédio e o final não é nada bonito. A dor foi tão intensa que ele, no susto, berrou mais que o técnico do Flamengo na final do campeonato.

"É agora, moço, é agora!" – pensou ele, com o semblante de quem sabia que, em qualquer país civilizado, uma lesão dessa magnitude seria tratada com dignidade e respeito. Mas Zedovsky estava no Brasil, o país do futebol... e da saúde pública?

Quando chegou ao hospital público, Zedovsky foi imediatamente encaminhado para uma fila que mais parecia um desfile de novos atletas para o time do "quem tem mais paciência". Os corredores estavam abarrotados. Uns sentados, outros deitados, todos com aquele olhar perdido de quem já perdeu a conta de quanto tempo espera e esperará.

Depois de muito tempo – nessas horas contas marcadas em relógio pouco importa –, Zedovsky finalmente foi chamado. “Aqui, meu filho, vai para aquela maca e espera que já vou”, disse a enfermeira, que mais parecia uma cartomante tentando adivinhar o futuro do paciente. Sentou, depois deitou, esperando pelo atendimento que começaria em breve... Uma olhada rápida no paciente e o desloca, para fazer uma “chapa” na radiologia, que ficava no outro lado do hospital. E lá foi Zedovsky, como um jogador de futebol sendo deslocado de um lado para o outro no campo, em busca da famosa "sorte de ser atendido".

Passaram-se umas boas horas, e o craque da quebrada já estava quase se sentindo parte do cenário hospitalar: a cadeira desconfortável, os pacientes ao redor, os enfermeiros com cara de quem não sabia mais o que estavam fazendo ali. Mas Zedovsky não se abalou. Afinal, o futebol, com sua carga dramática, sempre nos prepara para o inesperado. Se perguntava em termos de tempo, quantas partidas teria jogado até ali?

Quando, finalmente, chegou o momento do diagnóstico, o médico com pinta de humorista disse: "Você não fraturou, mas esse tornozelo aí vai precisar de repouso. Se continuar jogando assim, meu filho, vai terminar igual o time do Brasil na última Copa."

Zedovsky, claro, saiu de lá com a sensação de que havia jogado uma partida importante, digna de título mundial, mas sem nem saber qual foi o placar final, mas sabia que ele tinha sido a bola. A lesão? Melhor que tivesse sido uma canelada de um zagueiro. Pelo menos ali ele saberia o que fazer.

É minha gente, o Brasil segue sendo o país do futebol, onde os craques de rua se tornam heróis da quebrada e, às vezes, pacientes de alas hospitalares. No fim, Zedovsky sabia que não importava o quanto o atendimento fosse enrolado, ele sempre estaria pronto para mais uma "pelada". Porque aqui, meu amigo, o futebol nunca para... mas o atendimento médico, ah, esse sempre dá um bom drible.

segunda-feira, janeiro 13, 2025

Sonhar acordado


Era uma manhã como qualquer outra, ou assim parecia. O sol, como quase todos os dias por estes lados do Brasil, mostrava sua força. O relógio na parede marcava 6h30 da manhã, mas o professor Jorge Marques, ainda deitado, não conseguia se mover. Seus olhos estavam abertos, mas sua mente continuava presa em um pesadelo que, até agora, não o havia soltado.

No sonho, ele estava em sala de aula, como sempre, diante de uma turma de alunos distraídos, rabiscando nos cadernos ou mexendo no celular. Tudo parecia rotineiro, exceto por uma coisa: os alunos começavam a flutuar. Primeiro, foi apenas um, depois dois, e logo todos estavam no ar, levitando suavemente, seus pés deixando o chão com a mesma naturalidade com que respiravam.

O professor observava, sem saber o que fazer, sem entender o porquê. As cadeiras continuavam no lugar, mas os alunos, agora flutuando acima delas, pareciam mais calmos, mais concentrados, como se o simples ato de estar no ar os tivesse levado a um estado de serenidade total. Alguns até sorriam, como se gostassem da sensação... liberdade? A sala estava em completo silêncio, exceto pelos murmúrios baixos de quem observava o fenômeno.

"Isso não pode estar acontecendo", pensou Jorge, tentando controlar a crescente ansiedade que o envolvia. Ele olhou para o quadro-negro, na esperança de se agarrar à normalidade de um objeto real e no qual havia escrito algumas informações. Mas, para sua surpresa, o quadro estava vazio. Não havia mais nada ali. Tudo se desfez diante de seus olhos, como se ele estivesse em um sonho sem regras, sem limites. Os alunos, agora completamente fora de controle, começaram a se mover pela sala como se flutuassem em um mar invisível, trocando de lugar, alguns até atravessando uns aos outros no ar.

O professor tentou chamar a atenção deles, mas sua voz saiu abafada, como se ele estivesse preso embaixo d'água. Levantou as mãos, mas não conseguiu falar. Os alunos agora flutuavam em direção ao teto, deixando-o ainda mais atônito. Um deles, a estudante mais quieta da turma, a Pietra, passou por ele com um sorriso sereno no rosto. "Professor, você vai se acostumar", ela disse, com uma suavidade desconcertante. De modo assertivo disse: "Tudo flutua no final."

Foi nesse momento que Jorge acordou.

O suor frio escorria pela sua testa. Ele ainda estava deitado em sua cama, mas sentia uma sensação de vertigem, como se estivesse flutuando também. Respirou fundo, tentando afastar os vestígios do sonho que ainda pairavam em sua mente. Olhou para o relógio, que agora marcava 7h15. Ele precisava se levantar, se preparar para mais um dia de aula. Mas uma sensação estranha persistia, algo que ele não conseguia identificar: a impressão de que algo fora da sua compreensão estava prestes a acontecer.

Ao chegar na escola, seu corpo ainda carregava o peso do sonho. A porta da sala de aula estava aberta, e ele entrou, tentando dissipar os resquícios do pesadelo. Seus alunos começaram a chegar, um por um, cumprimentando-o com o habitual "Bom dia, professor!". Mas, ao se sentar em sua mesa, Jorge não pôde deixar de notar algo peculiar: a estudante Pietra estava mais calma do que o normal. Ela não falava com os demais, como de costume, e parecia olhar fixamente para o vazio, como se estivesse em outro lugar.

A aula começou, mas uma sensação estranha tomou conta do ambiente. Enquanto Jorge explicava a matéria no quadro, ele notou um movimento sutil no canto do olho. Um dos estudantes, Lucas, estava com os pés ligeiramente elevados do chão, flutuando lentamente. Jorge parou de falar, atônito, mas Lucas não parecia perceber. Outros começaram a notar, mas, ao contrário da sua reação, eles não estavam surpresos. Era como se aquilo fosse algo esperado, como que natural.

Jorge engoliu em seco. A visão dos estudantes flutuando em sua sala de aula o fez lembrar do pesadelo. "Não... isso não pode ser real", pensou, tentando não perder a compostura. Ele pediu se sentassem, mas, ao olhar em volta, percebeu que a sala estava cheia de figuras que levitavam suavemente, os pés tocando o chão apenas de vez em quando, como se estivessem flutuando em um transe coletivo.

"Professor, o que você vai fazer agora?" perguntou Pietra, com aquele sorriso enigmático que ele lembrava de seu sonho. "Vai nos ensinar a voar, ou vai tentar nos parar?"

Jorge não sabia mais o que fazer. Ele sentia o chão abaixo de si, mas ao mesmo tempo a sensação de gravidade parecia fraca, distante. Ele olhou pela janela e viu o mundo lá fora, tão distante e, ao mesmo tempo, tão próximo. Um mundo onde tudo era possível, até mesmo a levitação.

No fundo, sabia que o que acontecia na sala de aula não era apenas um fenômeno inexplicável. Era um reflexo de algo muito maior, algo que ele começava a perceber, mas que ainda não conseguia compreender.

"O mundo flutua... é hora de lançar âncora ou começar a voar?", pensou Jorge, com uma leveza que nunca imaginara possível. E, antes que percebesse, seus próprios pés se elevaram do chão.

quinta-feira, janeiro 09, 2025

abraço

guardava os abraços em um armário,
funcional, não reconhecia seu tesouro.
era coisa simples, de pouco encanto, 
lata que jamais se tornaria ouro.

até que um dia, por um sopro do destino,
envolvido por um abraço profundo,
mergulhou na doçura desse abrigo,
guardou-o em seu coração, lá no fundo.

no peito, agora se encontra seguro.
o armário ficou vazio, sem calor...
e hoje, mesmo o abraço mais simples, 
é guardado onde brota o amor.