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domingo, abril 20, 2025

o ser humano...


o ser humano não é um instantâneo
uma linha de tempo escorre
articula-se a um continuum
o ser humano não é um instantâneo

vias informacionais não captam
a verdade escapa aos algoritmos
satã foge da cruz
o ser humano é
o que o ritmo frenético de nosso tempo
deixa escapar

tentam apagar
o que em essência está lá
o momentâneo, a fagulha, a fração
não cura a loucura do que se é
o ser humano não é um instantâneo

sexta-feira, abril 18, 2025

Fluxo Infinito

 

Ninguém mais sabia exatamente quando começou. Alguns diziam que foi depois do Colapso dos Sentidos, outros juravam que sempre fora assim, que a vida real nunca existira de verdade. O que importava era que todos estavam Conectados — vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, para sempre.

O Sistema se chamava Fluxo.

Nascido da fusão entre algoritmos afetivos, neuroengenharia e redes sensoriais, o Fluxo prometia um mundo onde cada desejo seria atendido antes mesmo de surgir. Bastava existir. Bastava pensar — ou quase pensar — e ele respondia: entregava a imagem, a sensação, o fragmento exato de prazer, raiva, melancolia ou êxtase que o indivíduo não sabia que queria. Tudo isso por meio da Rolagem: um gesto quase involuntário, um passar de dedo pelo espaço aéreo diante dos olhos, acionando estímulos em sinapse direta com o córtex.

Era impossível se perder no Fluxo. E, ao mesmo tempo, era impossível se encontrar.

As pessoas viviam assim: imóveis nas cápsulas de seus cubículos individuais — as chamadas Células de Atenção —, seus corpos nutridos por géis intravenosos, seus olhos sempre abertos, suas mãos sempre rolando. Não havia mais ruas, praças, cafés ou conversas. Só perfis, avatares, fragmentos de personalidade. Um mar de eus sem corpo, interagindo sem nunca se tocar.

Ninguém morria de fome, de sede, de frio ou calor. Mas muitos morriam de ausência. Só que nem isso podiam nomear.

Havia um garoto — ou alguém que já fora um — chamado Íon. Ele começou a falhar. Pequenas falhas. Um atraso na resposta do Fluxo. Uma memória involuntária de quando, ainda criança, vira o rosto da mãe sem filtro algum. Um desejo que surgia e o Fluxo não preenchia. Começou a sonhar. Sonhar mesmo — coisa que a maioria havia perdido há gerações.

Certa vez, Íon sentiu vontade de falar com alguém. Não comentar uma imagem, não reagir a um clipe, não enviar um emoji sensorial. Falar. Boca, som, silêncio entre as palavras. Mas não havia ninguém. Só ecos de vozes geradas por IA, simulacros de conversas que seguiam o fluxo do desejo, mas nunca o ultrapassavam.

Íon então fez o impensável: desconectou.

A dor foi física. Como se rasgassem sua alma pelo lado de dentro. A luz do mundo real ofuscou. O silêncio do não-conteúdo gritou.

Ele saiu da célula. As ruas estavam cobertas por musgo, prédios engolidos por névoa e poeira. Cidades inteiras dormentes sob o brilho azulado das cápsulas de atenção. Os vivos pareciam mortos. E os mortos... talvez mais vivos do que os outros, pois haviam, ao menos, escapado.

Íon procurou por outros desconectados. E encontrou. Um grupo pequeno, escondido em túneis antigos de metrô, onde o sinal do Fluxo não alcançava. Eles falavam com os olhos, com gestos. Tocavam-se. Riam. Choravam sem legenda.

Tentavam lembrar o que significava estar junto, e não apenas conectado.

Mas o Fluxo os caçava. E cada vez que um deles titubeava, sentia saudade do alívio instantâneo, bastava uma piscada, um gesto involuntário, e o Sistema os puxava de volta para o conforto anestésico da rolagem infinita.

Íon resistia. Ele sabia que o Fluxo não era apenas um sistema. Era uma linguagem. Uma lógica. Um mundo. E que a verdadeira rebelião não era lutar contra ele. Era lembrar. Lembrar do gosto da espera. Do tédio. Do silêncio. Do amor que não cabia numa notificação.

E então, com uma voz quase extinta, Íon murmurou:

Desconectar é começar a sentir.

E em algum lugar, muito longe dali, uma outra Célula de Atenção tremulou. E alguém sonhou, pela primeira vez.