Ninguém mais sabia exatamente
quando começou. Alguns diziam que foi depois do Colapso dos Sentidos, outros
juravam que sempre fora assim, que a vida real nunca existira de verdade. O que
importava era que todos estavam Conectados — vinte e quatro horas por dia, sete
dias por semana, para sempre.
O Sistema se chamava Fluxo.
Nascido da fusão entre
algoritmos afetivos, neuroengenharia e redes sensoriais, o Fluxo prometia um
mundo onde cada desejo seria atendido antes mesmo de surgir. Bastava existir.
Bastava pensar — ou quase pensar — e ele respondia: entregava a imagem, a sensação,
o fragmento exato de prazer, raiva, melancolia ou êxtase que o indivíduo não
sabia que queria. Tudo isso por meio da Rolagem: um gesto quase
involuntário, um passar de dedo pelo espaço aéreo diante dos olhos, acionando
estímulos em sinapse direta com o córtex.
Era impossível se perder no
Fluxo. E, ao mesmo tempo, era impossível se encontrar.
As pessoas viviam assim:
imóveis nas cápsulas de seus cubículos individuais — as chamadas Células de
Atenção —, seus corpos nutridos por géis intravenosos, seus olhos sempre
abertos, suas mãos sempre rolando. Não havia mais ruas, praças, cafés ou
conversas. Só perfis, avatares, fragmentos de personalidade. Um mar de eus sem
corpo, interagindo sem nunca se tocar.
Ninguém morria de fome, de
sede, de frio ou calor. Mas muitos morriam de ausência. Só que nem isso podiam
nomear.
Havia um garoto — ou alguém
que já fora um — chamado Íon. Ele começou a falhar. Pequenas falhas. Um
atraso na resposta do Fluxo. Uma memória involuntária de quando, ainda criança,
vira o rosto da mãe sem filtro algum. Um desejo que surgia e o Fluxo não
preenchia. Começou a sonhar. Sonhar mesmo — coisa que a maioria havia perdido
há gerações.
Certa vez, Íon sentiu vontade
de falar com alguém. Não comentar uma imagem, não reagir a um clipe, não enviar
um emoji sensorial. Falar. Boca, som, silêncio entre as palavras. Mas não havia
ninguém. Só ecos de vozes geradas por IA, simulacros de conversas que seguiam o
fluxo do desejo, mas nunca o ultrapassavam.
Íon então fez o impensável: desconectou.
A dor foi física. Como se
rasgassem sua alma pelo lado de dentro. A luz do mundo real ofuscou. O silêncio
do não-conteúdo gritou.
Ele saiu da célula. As ruas
estavam cobertas por musgo, prédios engolidos por névoa e poeira. Cidades
inteiras dormentes sob o brilho azulado das cápsulas de atenção. Os vivos
pareciam mortos. E os mortos... talvez mais vivos do que os outros, pois haviam,
ao menos, escapado.
Íon procurou por outros
desconectados. E encontrou. Um grupo pequeno, escondido em túneis antigos de
metrô, onde o sinal do Fluxo não alcançava. Eles falavam com os olhos, com
gestos. Tocavam-se. Riam. Choravam sem legenda.
Tentavam lembrar o que
significava estar junto, e não apenas conectado.
Mas o Fluxo os caçava. E cada
vez que um deles titubeava, sentia saudade do alívio instantâneo, bastava uma
piscada, um gesto involuntário, e o Sistema os puxava de volta para o conforto
anestésico da rolagem infinita.
Íon resistia. Ele sabia que o
Fluxo não era apenas um sistema. Era uma linguagem. Uma lógica. Um mundo. E que
a verdadeira rebelião não era lutar contra ele. Era lembrar. Lembrar do gosto
da espera. Do tédio. Do silêncio. Do amor que não cabia numa notificação.
E então, com uma voz quase
extinta, Íon murmurou:
— Desconectar é começar a
sentir.
E em algum lugar, muito longe
dali, uma outra Célula de Atenção tremulou. E alguém sonhou, pela primeira vez.
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