As águas, em seus fluxos persistentes,
guardam modos de ensinar que escapam à pressa do mundo contemporâneo. Entre o
gesto artístico e a escuta ancestral, este texto aproxima experiências
distintas do teatro e dos saberes indígenas, de modo a refletir sobre forma,
essência e movimento. Evoco três mestres e três modos de ver um mesmo elemento:
a água, que se adapta sem perder sua natureza.
Há alguns anos, eu estava
apresentando em um festival de teatro. O espaço era uma grande arena, nos
moldes gregos, com capacidade para milhares de pessoas. Seríamos (pois se
tratava do coletivo do qual eu fazia parte) a última apresentação da noite,
encerrando a programação. Estávamos todos preocupados, e eu, particularmente,
ainda mais apreensivo.
Manifestei essa inquietação a
um dos nossos mestres do teatro, Amir Haddad, que também participava do
festival como convidado. Ele me olhou e disse algo mais ou menos nestes termos:
imagine que o conteúdo do seu espetáculo é a água dentro de um balde; o balde é
a forma atual. Porém, quando você esparramar essa água no espaço, naquela arena,
ela não deixará de ser água. Seu conteúdo continuará a comunicar. Portanto,
esparrame-o nesse espaço. A forma pode mudar, mas a essência permanece.
Ontem, no programa Roda
Viva[1],
Daniel Munduruku contou uma história vivida com seu avô. Como relatou, em
conflito com a vida urbana, Daniel se sentia angustiado. Certo dia, já na
aldeia, o avô, percebendo seu estado, chamou-o para um banho em uma queda
d’água. Pediu que o neto escutasse o rio. Ele obedeceu, mas, depois de muito
tentar, disse que nada havia escutado. O avô insistiu: o rio falou, sim; o neto
não escutou porque estava muito cheio, e quando estamos assim, só ouvimos as
vozes de nossa própria cabeça.
O avô então prosseguiu: o rio
não reclama, ele segue seu curso. Quando encontra um obstáculo, passa por cima,
por baixo, pelo lado; encontra um jeito, pois não pode parar de correr. Um rio
que não corre apodrece, perde sua vitalidade. Ele precisa continuar, porque tem
uma missão a cumprir: mergulhar no mar. Há, nessa imagem, uma ética do
movimento e da persistência, uma sabedoria antiga em que precisamos mergulhar.
Ailton Krenak, outro pensador
e liderança indígena, ao se referir ao Rio Doce, em Minas Gerais, o nomeia como
Watu, que, em sua língua, significa “avô”. Ele lembra que, para o povo Krenak,
o rio não é apenas um recurso natural, mas um ente vivo, ancestral. Portanto,
parte da família, digno de respeito e proteção. Na cosmologia Krenak, como em
muitos outros povos originários, a natureza tem nome, tem espírito, é familiar;
por isso, é possível dialogarmos com esses entes.
É por meio do seu avô, o rio,
que se reafirma o vínculo com a ancestralidade e com o próprio povo. Desse
modo, Ailton Krenak contrapõe a ideia de que o rio, e outros elementos
naturais, sejam apenas recursos à nossa disposição, prontos para exploração. Ao
contrário, são presenças com as quais nos relacionamos. Não por acaso, ele abre
seu livro Futuro ancestral (Companhia das Letras, 2022) com o seguinte
chamado-alerta: “Os rios, esses seres que sempre habitaram os mundos em
diferentes formas, são quem me sugerem que, se há futuro a ser cogitado, esse
futuro é ancestral, porque já estava aqui”.
[1] O programa completo pode ser assistido
no YouTube, disponível em: https://www.youtube.com/live/dXb9i01WKhQ?si=3RL5k2z_0NOs6Yrm.
Um comentário:
Parabéns! Lindo texto. ❤️
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