Pesquisar este blog

terça-feira, abril 21, 2026

Aprendizagem das águas

 

As águas, em seus fluxos persistentes, guardam modos de ensinar que escapam à pressa do mundo contemporâneo. Entre o gesto artístico e a escuta ancestral, este texto aproxima experiências distintas do teatro e dos saberes indígenas, de modo a refletir sobre forma, essência e movimento. Evoco três mestres e três modos de ver um mesmo elemento: a água, que se adapta sem perder sua natureza.

Há alguns anos, eu estava apresentando em um festival de teatro. O espaço era uma grande arena, nos moldes gregos, com capacidade para milhares de pessoas. Seríamos (pois se tratava do coletivo do qual eu fazia parte) a última apresentação da noite, encerrando a programação. Estávamos todos preocupados, e eu, particularmente, ainda mais apreensivo.

Manifestei essa inquietação a um dos nossos mestres do teatro, Amir Haddad, que também participava do festival como convidado. Ele me olhou e disse algo mais ou menos nestes termos: imagine que o conteúdo do seu espetáculo é a água dentro de um balde; o balde é a forma atual. Porém, quando você esparramar essa água no espaço, naquela arena, ela não deixará de ser água. Seu conteúdo continuará a comunicar. Portanto, esparrame-o nesse espaço. A forma pode mudar, mas a essência permanece.

Ontem, no programa Roda Viva[1], Daniel Munduruku contou uma história vivida com seu avô. Como relatou, em conflito com a vida urbana, Daniel se sentia angustiado. Certo dia, já na aldeia, o avô, percebendo seu estado, chamou-o para um banho em uma queda d’água. Pediu que o neto escutasse o rio. Ele obedeceu, mas, depois de muito tentar, disse que nada havia escutado. O avô insistiu: o rio falou, sim; o neto não escutou porque estava muito cheio, e quando estamos assim, só ouvimos as vozes de nossa própria cabeça.

O avô então prosseguiu: o rio não reclama, ele segue seu curso. Quando encontra um obstáculo, passa por cima, por baixo, pelo lado; encontra um jeito, pois não pode parar de correr. Um rio que não corre apodrece, perde sua vitalidade. Ele precisa continuar, porque tem uma missão a cumprir: mergulhar no mar. Há, nessa imagem, uma ética do movimento e da persistência, uma sabedoria antiga em que precisamos mergulhar.

Ailton Krenak, outro pensador e liderança indígena, ao se referir ao Rio Doce, em Minas Gerais, o nomeia como Watu, que, em sua língua, significa “avô”. Ele lembra que, para o povo Krenak, o rio não é apenas um recurso natural, mas um ente vivo, ancestral. Portanto, parte da família, digno de respeito e proteção. Na cosmologia Krenak, como em muitos outros povos originários, a natureza tem nome, tem espírito, é familiar; por isso, é possível dialogarmos com esses entes.

É por meio do seu avô, o rio, que se reafirma o vínculo com a ancestralidade e com o próprio povo. Desse modo, Ailton Krenak contrapõe a ideia de que o rio, e outros elementos naturais, sejam apenas recursos à nossa disposição, prontos para exploração. Ao contrário, são presenças com as quais nos relacionamos. Não por acaso, ele abre seu livro Futuro ancestral (Companhia das Letras, 2022) com o seguinte chamado-alerta: “Os rios, esses seres que sempre habitaram os mundos em diferentes formas, são quem me sugerem que, se há futuro a ser cogitado, esse futuro é ancestral, porque já estava aqui”.



[1] O programa completo pode ser assistido no YouTube, disponível em: https://www.youtube.com/live/dXb9i01WKhQ?si=3RL5k2z_0NOs6Yrm.

Um comentário:

Anônimo disse...

Parabéns! Lindo texto. ❤️