Ler é, em alguma medida,
encontrar-se; e constitui-nos socialmente. Mas reler é medir a distância entre
quem fomos e quem nos tornamos. A primeira leitura costuma ser atravessada pela
surpresa, pela descoberta quase ingênua do mundo que se abre nas páginas à
nossa frente. Já a releitura carrega o peso e a mudança do tempo ou o que ele fez conosco: não é mais o
mesmo livro que chegou até nós pela primeira vez, pois somos outra pessoa,
estamos modificados. Tal constatação, simples à primeira vista, guarda
trajetórias, percursos dos quais, no correr do cotidiano, não nos damos conta,
mas que a releitura revela.
As obras nos formam
silenciosamente. Um livro lido na infância pode deixar profundas marcas, moldar
sensibilidades, sugerir caminhos. No entanto, o reencontro com esse mesmo
livro, anos depois, pode ser desconcertante. Aquilo que antes parecia grandioso
pode revelar limites, preconceitos, visões estreitas que, naquele momento
inicial, não éramos capazes de perceber. A frustração com a obra revela, por outro
lado, a alegria da constatação de que crescemos, e de que certos encantamentos
não sobrevivem ao amadurecimento do olhar. Ainda bem!
Lembro de um livro que me
marcou profundamente na minha infância, Os Segredos de Taquara-Póca, de
Francisco Marins, com elementos de aventura e do fantástico. Consegui ler o
livro graças a um projeto chamado Ciranda Hoechst, que penso que era vinculado
à Fundação Roberto Marinho. Eu não queria devolvê-lo à pequena biblioteca da
escola. Trata-se de um livro infanto-juvenil, publicado, salvo engano nos anos
1960 e que em novas edições eu tive acesso ali no início dos anos 1980. Enfim,
aquela aventura me marcou demais e quando adulto quis retomar. Finalmente
encontrei em um sebo e o comprei. As aventuras ainda estavam lá, mas já não encantavam
mais e, o pior, foi perceber elementos preconceituosos, fruto evidentemente do
tempo do escritor. Hoje procuro não olhar um autor com anacronismo, isto é, procuro
compreender seu tempo histórico, mas naquele momento de retomada do livro, foi
decepcionante.
Mas há também o movimento
inverso, talvez ainda mais revelador. Certos livros, revisitados, parecem expandir,
crescem conosco. O que antes passava despercebido ganha densidade; temas
secundários tornam-se centrais; nuances emergem onde antes o olhar alcançava apenas a superfície. A releitura, então, amplia a obra e também nossa capacidade humana de
vermos o que não está necessariamente dito. Ler as entrelinhas, os contextos, o
inaudito que nossos limites não foram capazes de captar em um primeiro momento,
é maravilhoso! Ora, tal processo de acúmulo de experiências, de leituras e
vivências que a vida vai nos fornecendo (quando não nos fechamos para ela, claro) é o
que cria novas camadas de interpretação, como se o livro se transformasse sem
jamais ter mudado uma só palavra.
Nesse sentido, o exemplo que mais me marca é Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Nesse caso, o tempo
não pesou sobre a obra, afinal é um romance de 1938, ao contrário. Talvez fale
mais alto para mim do que para outras pessoas, pelo fato de ser nordestino, que tive
que migrar, mas, para além disso, a condição animalesca a que está submetido
Fabiano e sua família, penso que toca qualquer pessoa sensível e que não
aceita tais condições. Voltar à obra é sempre mergulhar no universo renovado
das injustiças sociais, das desigualdades e das opressões dos poderosos sobre
os desamparados; é fortalecer a certeza de que nossa humanidade não pode nunca
aceitar tais condições como naturais - ainda que tenha um lastro natural na obra, a seca.
Reler é, portanto, um gesto
crítico e íntimo. Funciona como uma espécie de espelho deslocado no tempo: ao
encarar novamente o texto, somos obrigados a encarar a nós mesmos. O que mudou?
O que permanece? O que já não aceitamos? O que agora compreendemos melhor?
Assim, voltar a certos livros é também um exercício de
autoconhecimento, uma forma de testar o nosso próprio crescimento, seja
intelectual, ético, sensível, humano.
Se ler é abrir portas, reler é
atravessá-las outra vez, porém, com outros olhos. E nem sempre o que encontramos do
outro lado é confortável. Mas é justamente nesse desconforto, nessa tensão
entre o passado e o presente, que reside a potência da leitura como prática
viva: não um ato encerrado no momento em que viramos a última página, mas um
diálogo contínuo entre o texto e as transformações de quem o lê.
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