Pesquisar este blog

quinta-feira, agosto 27, 2026

que dia!

 

a estupidez grassa

sinto o mormaço

em plena praça

olho o asfalto

parece se dissolver

sigo a caminhar 

a luz intensa e difusa

explode em traços abstratos

a canção ao fundo, longe...

meu coração clama por Socorro

em plena Sete de Setembro

desperto com a moça gritar

– pega, pega ladrão!

 

tempo que não passa

gente, vitrines, correria

tudo é sem graça

 

domingo, agosto 02, 2026

De Porto Velho à Manaus

 

O ser humano não é confiável. A frase ecoava em minha cabeça, embora não soubesse se por convicção adquirida na vida, se eu havia lido ou escutado recentemente de alguém. Fato é que, cada vez mais, tenho me sentido um pessimista convicto — embora sempre otimista em minhas práticas e ações, como afirmou certo teórico italiano.

Mas o importante aqui é que eu teria que ir a Manaus realizar algumas pesquisas e decidi ir por terra, encarar a BR-319 em uma linha de ônibus que promete chegar em 24 horas. O período escolhido foi o do recesso, quando eu estaria alguns dias de férias — misto de férias e pesquisa, como diz aquela frase popular: descansar carregando pedras. Eu estava decidido a percorrer o trajeto antes que venha o asfalto pra toda a rodovia, que, como já vem acontecendo, imagino que será terrível para a floresta. Destruição.

BR-319. Foto DNIT, disponível em:
https://oeco.org.br/noticias/ibama-emite-licenca-previa-para-reconstrucao-da-br-319-no-am/












A passagem foi comprada com bastante antecedência e, naquele momento, sequer passou pela minha cabeça perguntar se havia a opção de ônibus leito — então o percurso foi no econômico. No osso. A recomendação que escutei na compra era que, no dia da viagem, eu chegasse ao menos 30 minutos antes do embarque. Como o ônibus sairia às 9h, então que eu estivesse às 8h30. Quarenta minutos antes, lá estava eu. A companheira mobilizou o namorado de nossa filha pra me levar até a rodoviária, então, todo mundo lá. Todo mundo lá e passa o tempo e nada de chegar o ônibus. Falei com o atendente, disse que logo chegaria. Dado o horário de saída e nada do ônibus chegar, retorno ao guichê pra pedir que verificasse, o atendente: "Ah, mudou para às 10h". Eu replico que não fui informado, não havia recebido nenhuma notificação. O rapaz no guichê apenas responde: "Aí não é com a gente, é com a central. Nem eu sabia que tinha mudado". E fica por isso mesmo e se dá por satisfeito. O jeito é engolir seco e continuar a esperar. Porém, naquele momento, insisti para que os familiares voltassem para casa e continuar seus afazeres ou a dormir, e lá fiquei sozinho à espera.

Sabia que, pelo fato de a estrada em sua maior parte ser de terra, havia colocado a mala em um saco e uma sacola, mas deixei pra fazer isso na própria rodoviária, após confirmar com o pessoal da empresa — que, aliás, informou que eles próprios colocam em sacos de lixo, visando proteger da imensa poeira do caminho. Após a chegada do ônibus, passagem já quase apagada devido ao tempo da compra, e após a mala despachada, subi no ônibus e sentei bem na frente. Por isso comprei com bastante antecedência: imaginava que teria uma boa visão da estrada, mas, do mesmo modo que as fotos de sanduíches nas lanchonetes não correspondem aos lanches vendidos, a imagem da época da compra não correspondeu ao ônibus, agora real. Ao menos havia espaço para esticar as pernas, posto ser a primeira cadeira, do lado oposto do motorista, mas o assento era bem apertado.

Após todos despacharem suas bagagens e subirem, o motorista veio falar que, ao longo do percurso, seriam três motoristas, cada um durante certo trecho. Ele até disse quais seriam os trechos, mas sua fala embolada, apesar de estar próximo a mim, não consegui compreender. Como eu não conhecia o percurso, não faria a menor diferença. Depois vieram outras instruções: pediu que usassem fones de ouvido nos celulares, "não quero ninguém incomodando o vizinho com celular alto". A voz era de alguém bravo, insinuando até que, com o fone, poderia estourar os tímpanos, se assim quisesse. Como eu temia que isso ocorresse no trajeto, confirmei com um "é isso mesmo", imaginando que ao menos os sons dos celulares ficariam restritos aos seus proprietários.

A cadeira ao meu lado ficou vazia — eu, feliz, pensei: "poxa, se for até lá, será ótimo!" Mas pobre não pode sonhar, e o sonho durou só até Humaitá. O combinado de não usar celular sem fone de ouvido também durou bem pouco. Água havia, mas, por não saber, tinha levado a minha por garantia. Banheiro limpo. O primeiro motorista, o de fala brava, conduziu por cinco horas e meia e, pode-se dizer, pelo melhor trajeto, posto que a maior parte era asfaltada.

Já o segundo motorista dirigiu por quase onze horas. Porém, tanto o primeiro como o segundo dirigiam devagar, atentos. O primeiro não escutou músicas, o segundo escutava rock e Roberto Carlos em sua cabine. Quando ocorreu a troca do primeiro para o segundo, o ônibus já estava lotado; no entanto, havia duas pessoas que queriam carona até um certo trecho. Os motoristas conversaram entre si e decidiram, mesmo sem cadeiras vazias, levar os dois caroneiros até onde pediam. Descobri depois o nome do primeiro que desceu: um senhor negro, idoso, com roupas bem humildes — chamava-se irmão Anselmo. Soube o nome dele por meio do segundo caroneiro, que, aliás, conseguiu sentar no trajeto, pois desceram algumas pessoas — a conversa dos motoristas deve ter tratado disso, da família de quatro pessoas que logo à frente desceria —, mas do próprio segundo caroneiro, aliás, não soube o nome.

O segundo caroneiro, um homem baixo, magro e com ar de alegria, quando estava próximo de seu lugar de descida, perguntou pro motorista se podia ir na frente, a seu lado, já que logo desceria, ao que o motorista acedeu. Ele então disparou a contar o que havia lhe ocorrido, que há duas noites não conseguia dormir, pois um berne havia entrado em seu ouvido. "E o bicho mexe demais, sô! Tentei arrancar de tudo que é jeito e num deu, aí hoje eu dei um pulo no posto. A enfermeira que me atendeu, tentou pegar o bicho, fez lavagem e nada. Ligou pro médico, que disse pra eu tomar ivermectina... Ai gente, já tomei um monte dessas porcaria na época da covid e num adiantou de nada, vou tomar não". Aí o rapaz ao meu lado, que subiu em Humaitá, mas é de Ipuí e é advogado, embora trabalhe com a terra, foi falando o nome de uns venenos pro bicho. Ambos, na conversa, falaram de um que, pelo jeito, é forte e perigoso, pois, quando o rapaz disse que pingaria dois ml no ouvido, ele se assustou e disse: "Faz isso não, sô! Um ml é pra 50 quilos, ocê não tem 100 quilos, não". Logo depois, ele desceu e sumiu na escuridão.

Mas faltou dizer que, no lugar da troca de motorista — espécie de rodoviária improvisada —, ainda era meio da tarde, e ali, antes de pararmos, foi possível ver pela janela três pessoas esperando: um jovem de camisa da Argentina, uma moça e um senhor que, provavelmente, era pai de um deles. Depois percebi que era de ambos. Era final de Copa do Mundo e a Argentina jogaria com a Espanha naquele dia, mas acho que ainda não tinha começado o jogo. O rapaz ao meu lado falou: "olha o argentino". Como tínhamos no ônibus dois hermanos — um venezuelano, que já estava dias na estrada, pois vinha de Cascavel, no Paraná, e tinha como destino final seu país; e outro do qual não consegui saber a nacionalidade (sei apenas de seu ronco desproporcional ao longo do trajeto, ronco daqueles que lembram filme de terror, isso quando não parecia que ia sufocar — não ouso tentar escrever nenhuma onomatopeia que possa imitar seu ronco) —, aquele jovem branco, de camiseta da Argentina, poderia, de fato, ser daquela nação. Ao descer, aguçei os ouvidos para escutar a conversa dos três — falavam embolado, mas era português mesmo, uma espécie de fala que lembra o som caipira. Apenas dois embarcaram no ônibus: o pai e o filho trajado com a camiseta da seleção argentina, que, diga-se de passagem, perderam para a Espanha. A moça, a filha, ficou; havia ido apenas acompanhá-los. Ela esboçou certo choro, mas se conteve. O nome do lugar onde isso ocorreu chama-se Realidade. E olha, a Realidade é feia! Mas parece que quer melhorar, pois havia uma imensa placa onde se lia: "Queremos uma Realidade sem poeira". Por isso mesmo estavam em obras — pelo jeito, Realidade será um dos primeiros povoados desse longo trecho a receber asfalto na rodovia. Toda Realidade tem dois lados: o lado de cá e o lado de lá, com casas e comércios de ambos os lados.

Penso que o segundo motorista, o rapaz que gosta de rock e Roberto Carlos, não só dirigiu por mais tempo como pegou o pior trecho. Foram quase onze horas. Deu carona ao irmão Anselmo e ao moço com berne no ouvido. Quando a família desceu, logo após a saída de Realidade, como ele parara um pouco à frente, deu ré com cuidado até em frente à porteira onde ficariam. Sempre educado e cuidadoso. Ele é um romântico. E não é só força de expressão: ele é um romântico, pois parou em um lugar que parecia um bordel de beira de estrada para entregar um pequeno pacote (presente?) a uma moça de decote generoso e seios fartos, que estava atrás do balcão. Ele sorriu, brincou naquela rápida conversa e, ao final, abraçou-a, puxando-a para junto de si, e beijou sua testa de modo delicado. Teria aprontado e estaria se desculpando?... Enfim, prefiro vê-lo como um romântico.

Ainda nesse percurso, faltou falar um pouco do rapaz ao meu lado — conversador, sempre sorridente e, ao que parece, entendido em terra. Como ele mesmo disse: "trabalho com isso há bastante tempo e tenho um amigo agrônomo" — ainda que seus cuidados possam não ser adequados a certos olhos. Quando ainda era dia e, à medida que a paisagem se desenrolava à nossa vista pela janela, ele ia analisando: "Olha, tem muitas castanheiras, a terra é boa." Terra boa, leia-se fértil. "Nossa, quanto babaçu!" Eu, que nada entendo, afirmei: "Sim, uma grande plantação." Logo ele replicou: "Não. Não é plantação, nasce. Isso é uma praga. Mas tem veneno bom: você corta e joga no tronco que aí ele não brota mais." Em outro trecho: "Olha isso daqui, dois tratores faz um arraste e fica só a terra".

O jantar foi na Toca da Onça e seguimos até o ponto em que haveria mudança de motorista, o terceiro e último, que nos conduziria até Manaus. Foi no ponto da primeira balsa. Tudo desligado, mas não às escuras — havia iluminação, embora não se visse uma viva alma do lugar, só os passageiros do ônibus. A balsa estava do outro lado do rio. O terceiro motorista assumiu já mostrando a que veio: ligou as luzes do ônibus e buzinou para que o balseiro viesse levar o ônibus para o outro lado do rio. Os passageiros aguardavam na beira do rio — tínhamos, inclusive, feito uma caminhada até ali, pois o ônibus parara distante, e ninguém entendeu bem o porquê. "Podem descer aqui e caminhar até a beira do rio para esticarem as pernas", avisou o motorista romântico. Logo veio um, dois, quatro, seis cachorros. Todos amigáveis, querendo um carinho ou, quem sabe, algo para comer, pois água tinham bastante à disposição. Dois tinham patas machucadas, um outro, três patas... e, como ninguém deu muita atenção àquela hora da noite, eles começaram a brincar entre eles mesmos, exibindo-se para a plateia de transeuntes.

Passado certo tempo e depois de algumas buzinadas, eis que as luzes do outro lado foram ligadas e logo a balsa começou a atravessar na escuridão do rio. Atracou. Subimos a pé e ficamos no lugar reservado aos pedestres. Um cachorro subiu também — talvez quisesse seguir viagem, ou apenas estivesse acostumado a ir e voltar naquele transporte; talvez quisesse um pouco de companhia daquela gente, ainda que breve, ou talvez houvesse outros cachorros à sua espera do outro lado, coisa que não soube, pois, antes mesmo de atracarmos, o motorista já foi dizendo para que todos subissem no ônibus. Percebi que esse motorista era diferente dos anteriores: gostava de escutar músicas evangélicas em alto volume e nada de dirigir devagar — até reclamou que o anterior havia atrasado. A pressa passava a ser a tônica. Minha sensação era que a estrada, do pouco que se podia ver, só piorava, mas, para quem já conhecia o trajeto, no caso o motorista, não havia problema.

Um dos passageiros, ainda na subida ao ônibus ali na balsa, quis ficar conversando com o motorista, ao que este disse "tudo bem". Se a recomendação é falar apenas o indispensável ao motorista, este entendia que "era bom conversar". Como já dito, eu estava na primeira cadeira, do lado oposto do motorista, então, mesmo com a porta da cabine fechada, era possível escutar muita coisa, pois, devido ao som ligado, a conversa também era em alto volume. Em dado momento, os dois resolveram se tornar analistas políticos e apresentaram suas ideias para solucionar os problemas do Brasil; dentre as propostas, uma chamou atenção: acabar com o Supremo Tribunal Federal. Os assuntos iam de como um governo sério deve trabalhar, passando por citações bíblicas, brigas físicas de que participaram, mostrando quão "machos" eram — o motorista, inclusive, disse ter atirado no suposto inimigo. E corre e vai pra contramão pra desviar de buraco e cai em buraco... O carro, que aparentemente estava bom, começou a apresentar problemas. Para nossa sorte, pequenos, como o limpador de para-brisa que parou de funcionar, especialmente o do lado do motorista, obrigando-o a parar de tempos em tempos para fazê-lo funcionar manualmente — principalmente quando chegamos a um trecho com densa neblina, ainda bem que já estávamos próximos da segunda balsa, a travessia do rio Solimões, onde se pode ver o encontro das águas, isto é, quando o rio Negro beija o Solimões, e ficamos todos deslumbrados com tal beleza. Para nossa sorte, já era dia (segundo soube, não há travessia à noite).

O fato é que parece que o terceiro motorista quis recuperar o tempo perdido pelos demais motoristas, pois, desde o início, quando ainda comprei a passagem, o trecho seria percorrido em 24 horas, mas o percurso pela BR-319 foi feito em 23 horas. Retomo a frase que abre o texto, talvez genérica demais, mas a vida e o encontro com certas pessoas têm feito com que eu pense que, ao menos, certas pessoas não sejam tão confiáveis, pois, se vi cuidado e solidariedade, também pude perceber, nesse trajeto, visões de mundo bastante problemáticas nos tempos que estamos a viver.

Cheguei em Manaus, comi um X-Caboquinho e pude conversar um pouco mais com o venezuelano, que voltava para cuidar de sua mãe doente — apesar de estar em um emprego estável, preferiu se demitir e voltar; continuaria por mais alguns dias na estrada. Conosco estava um jovem que ia também ainda para outra cidade do Amazonas encontrar uns amigos e tinha se dado conta que alguém levou seu perfume embora, afinal procurou bastante no ônibus e não encontrou. No meu pessimismo, peguei um Uber até o hotel que tinha reservado, na esperança de que fosse um lugar que desse ao menos para descansar bem à noite, pois essas coisas de internet, sabe como é, e as pessoas — digo, certas pessoas — não são confiáveis, que dirá máquinas. Cheguei ao hotel no centro histórico de Manaus; havia um motivo para ser este o local escolhido: a pesquisa. Chegando perto do hotel, me dei conta de que talvez à noite o movimento fosse pequeno e quiçá perigoso, e perguntei ao motorista do aplicativo se ali era tranquilo à noite e se tinha movimento. Ele, que também escutava música evangélica em seu carro, respondeu: "Aqui é bem movimentado, é o lugar da zona, então tem sempre movimento".

Fiquei imaginando como seriam as noites por ali, mas isso é outra história.