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domingo, outubro 13, 2024

Cidade-memória

 

É o rio que corta a cidade

Ou é a cidade que enforca o rio

Elizeu Braga

 

Ontem fui ao Complexo Madeira Mamoré (CMM) para apreciar o pôr do sol, após tantos dias de uma cidade tomada pela fumaça, foram quase dois meses. As primeiras chuvas – ainda escassas – limparam um pouco o horizonte e foi possível ter a nossa beleza de volta: céu azul e um sol que morre lentamente, tendo à nossa frente o rio Madeira. O rio continua revelando a seca extrema a que foi submetida toda a Amazônia, os bancos de areia e a navegação de apenas pequenos barcos pelo Madeira são provas que ainda temos um longo caminho a percorrer.

O marco zero da cidade, Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, continua a ser um ponto muito querido e apreciado pelos/as porto-velhenses. Muitas pessoas foram pra lá com o mesmo objetivo que eu. Outros aproveitaram bem mais, pois era dia das crianças, atividades como piquenique, passeio no trenzinho e outras atividades realizadas em frente à estação, transformada (ótima ideia!) em sala de exposição. Aliás, está em cartaz a 2ª Mostra Coletiva Destemidos Pioneiros (acho o nome horrível, pois quem se pressupõe “pioneiro” apaga a história indígena – mas isso é conversa pra outro dia) com muita gente bamba, como Silvia Feliciano, Marcela Bonfim – sempre nos revelando a negritude amazônica, que a história oficial tenta apagar –, Homero dos Santos e o incrível Flávio Dutka, inclusive com sua impressionante série 23:59`22 que nos aponta para o apocalipse se continuarmos a queimar a Amazônia e outros biomas brasileiros. A Mostra é uma realização do Sesc Rondônia e vale muito a pena conferir.

Foto Adailtom Alves. Memória do tempo de um rio cheio. 

Fiquei atento ao Museu, completamente vazio, afinal agora há cobrança de R$ 30,00, um valor pouco acessível aos cidadãos e cidadãs, afinal, imaginem uma família com dois filhos que tenham que desembolsar o ingresso para quatro pessoas o quanto isso impacta no orçamento familiar. Por outro lado, Porto Velho não é uma cidade que receba tantos turistas assim, quem mais usufrui daquele espaço são os/as moradores/as locais. Vale ressaltar que a visita ao Museu é fundamental, mas a cobrança se tornou um impeditivo para muitos/as.

Mas eu fui também para ver a Feira do Sol, que após intensa negociação voltou para o espaço de onde nunca deveria ter saído. Ela está um pouco escondida, embaixo da marquise do segundo grande barracão à esquerda, onde, dizem, futuramente haverá um restaurante imponente. Está lá com toda a sua diversidade, incluso com a arte – não ousaria chamá-la de artesanato – dos povos originários. Visitem e comprem. Em conversa com Chicão, um dos organizadores da feira, foi acertado inicialmente apenas por 90 dias, mas esperamos que a feira permaneça no local por muito mais tempo.

Após a feira, como tantos fui apreciar a vista com mais vagar. Tornei a sonhar, como faço desde que cheguei aqui em 2014, com o dia em que teremos no poder executivo alguém que governe preocupado com o bem-estar da maioria e construa uma orla que saia do CMM e siga até o Memorial Rondon (Santo Antônio), integrando dois pontos históricos da cidade. Nesse dia, a cidade que cresceu de costa para o rio, devolverá o Madeira aos cidadãos e cidadãs. Afinal, como escreveu Luiz Antonio Simas em seu O corpo encantado das ruas: “Quem pretende ser feliz, ensinam os caboclos da beira d`água, deve se dirigir ao rio nas horas do poente, pois é o momento em que os botos vermelhos suspiram suas artimanhas de delicadezas e felicidades, rememorando faceiros seus amores de quando eram homens e mulheres viventes” (2022, p. 162).

Fechando o rolê desse sábado, fui a outro ponto histórico: a Praça das Três Caixas d`Água. Fui porque já era noite e queria comer algo. Lá estão diversos quiosques de alimento e artesanato. São pequenas barracas de “latas” que fazem parte do projeto Giro Empreendedor. As barracas são bonitas, mas é certo, no calor amazônico, funcionam como verdadeiras panelas de pressão para os trabalhadores que cozinham lá dentro.

Alimentado, passei ao lado da recém inaugurada Calçada Criativa, ali próximo (Rua Santos Dumont), completamente vazia. Pois, como diz o nome, ainda é apenas uma calçada, ainda que bonita. Mais uma vez, fiquei sonhando com o dia que se tenha uma programação cultural todo fim de semana naquele lugar para que a população, de fato, possa aproveitar o espaço. Nesse dia, a calçada será pouca e será necessário fechar toda a rua. Fica a dica!

Referências

BRAGA, Elizeu. Mormaço. Porto Velho: edição do autor, s.d.

SIMAS, Luiz Antonio. O corpo encantado das ruas. 11ªed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2022.

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