É o
rio que corta a cidade
Ou é a
cidade que enforca o rio
Elizeu
Braga
Ontem
fui ao Complexo Madeira Mamoré (CMM) para apreciar o pôr do sol, após tantos
dias de uma cidade tomada pela fumaça, foram quase dois meses. As primeiras
chuvas – ainda escassas – limparam um pouco o horizonte e foi possível ter a
nossa beleza de volta: céu azul e um sol que morre lentamente, tendo à nossa
frente o rio Madeira. O rio continua revelando a seca extrema a que foi
submetida toda a Amazônia, os bancos de areia e a navegação de apenas pequenos
barcos pelo Madeira são provas que ainda temos um longo caminho a percorrer.
O
marco zero da cidade, Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, continua a ser um ponto
muito querido e apreciado pelos/as porto-velhenses. Muitas pessoas foram pra lá
com o mesmo objetivo que eu. Outros aproveitaram bem mais, pois era dia das
crianças, atividades como piquenique, passeio no trenzinho e outras atividades
realizadas em frente à estação, transformada (ótima ideia!) em sala de
exposição. Aliás, está em cartaz a 2ª Mostra Coletiva Destemidos Pioneiros
(acho o nome horrível, pois quem se pressupõe “pioneiro” apaga a história
indígena – mas isso é conversa pra outro dia) com muita gente bamba, como
Silvia Feliciano, Marcela Bonfim – sempre nos revelando a negritude amazônica,
que a história oficial tenta apagar –, Homero dos Santos e o incrível Flávio
Dutka, inclusive com sua impressionante série 23:59`22 que nos aponta para o apocalipse se continuarmos a queimar
a Amazônia e outros biomas brasileiros. A Mostra é uma realização do Sesc
Rondônia e vale muito a pena conferir.Foto Adailtom Alves. Memória do tempo de um rio cheio.
Fiquei
atento ao Museu, completamente vazio, afinal agora há cobrança de R$ 30,00, um
valor pouco acessível aos cidadãos e cidadãs, afinal, imaginem uma família com
dois filhos que tenham que desembolsar o ingresso para quatro pessoas o quanto
isso impacta no orçamento familiar. Por outro lado, Porto Velho não é uma
cidade que receba tantos turistas assim, quem mais usufrui daquele espaço são
os/as moradores/as locais. Vale ressaltar que a visita ao Museu é fundamental,
mas a cobrança se tornou um impeditivo para muitos/as.
Mas
eu fui também para ver a Feira do Sol, que após intensa negociação voltou para
o espaço de onde nunca deveria ter saído. Ela está um pouco escondida, embaixo
da marquise do segundo grande barracão à esquerda, onde, dizem, futuramente haverá
um restaurante imponente. Está lá com toda a sua diversidade, incluso com a
arte – não ousaria chamá-la de artesanato – dos povos originários. Visitem e
comprem. Em conversa com Chicão, um dos organizadores da feira, foi acertado
inicialmente apenas por 90 dias, mas esperamos que a feira permaneça no local
por muito mais tempo.
Após
a feira, como tantos fui apreciar a vista com mais vagar. Tornei a sonhar, como
faço desde que cheguei aqui em 2014, com o dia em que teremos no poder
executivo alguém que governe preocupado com o bem-estar da maioria e construa
uma orla que saia do CMM e siga até o Memorial Rondon (Santo Antônio),
integrando dois pontos históricos da cidade. Nesse dia, a cidade que cresceu de
costa para o rio, devolverá o Madeira aos cidadãos e cidadãs. Afinal, como
escreveu Luiz Antonio Simas em seu O
corpo encantado das ruas: “Quem pretende ser feliz, ensinam os caboclos da
beira d`água, deve se dirigir ao rio nas horas do poente, pois é o momento em
que os botos vermelhos suspiram suas artimanhas de delicadezas e felicidades,
rememorando faceiros seus amores de quando eram homens e mulheres viventes”
(2022, p. 162).
Fechando
o rolê desse sábado, fui a outro ponto histórico: a Praça das Três Caixas
d`Água. Fui porque já era noite e queria comer algo. Lá estão diversos
quiosques de alimento e artesanato. São pequenas barracas de “latas” que fazem
parte do projeto Giro Empreendedor. As barracas são bonitas, mas é certo, no
calor amazônico, funcionam como verdadeiras panelas de pressão para os
trabalhadores que cozinham lá dentro.
Alimentado,
passei ao lado da recém inaugurada Calçada Criativa, ali próximo (Rua Santos
Dumont), completamente vazia. Pois, como diz o nome, ainda é apenas uma
calçada, ainda que bonita. Mais uma vez, fiquei sonhando com o dia que se tenha
uma programação cultural todo fim de semana naquele lugar para que a população,
de fato, possa aproveitar o espaço. Nesse dia, a calçada será pouca e será
necessário fechar toda a rua. Fica a dica!
Referências
BRAGA,
Elizeu. Mormaço. Porto Velho: edição do
autor, s.d.
SIMAS,
Luiz Antonio. O corpo encantado das ruas.
11ªed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2022.
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