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domingo, outubro 20, 2024

Dia do poeta

Hoje é dia do poeta. Um dia que, como tantos outros, passa quase despercebido, na pressa cotidiana das redes sociais, do trânsito apressado e das telas iluminadas que nos distraem. Por conta da passagem de meu aniversário no dia de ontem, ganhei dois livros, ambos de poesia: Patativa do Assaré e Fernando Pessoa. Hoje não é um dia qualquer. É um dia que nos convida a pensar sobre o papel de quem se arrisca a colocar palavras no mundo, a criar realidades, a desvelar os sentimentos e os pensamentos que muitas vezes preferiríamos esconder, até de nós mesmos.

Em uma de suas obras mais conhecidas, A República, Platão expulsa os poetas de sua cidade ideal. Platão, o filósofo aristocrata, criador de uma utopia fundamentada no mundo das ideias, na qual, em tese, imperam razão e ordem, temia o poder da poesia. Para ele, os poetas não eram apenas artistas, mas perturbadores da harmonia da alma. Eles, em sua capacidade de evocar emoções e fantasias, poderiam desviar os cidadãos da busca pela verdade. Isso porque, para o filósofo, a poesia era um reflexo imperfeito da realidade, e como tal, deveria ser afastada de sua suposta república perfeita.

Platão temia as emoções que os poetas despertam. Ele sabia que a arte pode incitar, inspirar e até provocar revoluções internas. No entanto, o filósofo achava que a emoção, a paixão, era algo a ser controlado. Afinal, se os cidadãos se entregassem às delícias da poesia, como poderiam manter a racionalidade e a disciplina necessárias para o que ele considerava uma sociedade justa? Os poetas seriam, portanto, perigosos. Mas, ao expulsá-los, Platão não estava apenas afastando esses criadores de mundos, estava também, em certo sentido, excluindo todos os artistas. Pois, afinal, o que é a arte senão a busca constante por aquilo que rompe com os limites das caixinhas que a sociedade nos impõe? Daí o constante questionar das estruturas, das convenções de uma sociedade e da própria arte, ao menos como busca. Pode-se questionar: mas nem toda arte vai nessa direção de ruptura e inovação! É verdade, mas quando miramos a história da arte em geral, parece-nos que é isso que fica como legado. 

Se Platão tivesse razão em sua concepção, a arte seria um veneno que corrompe a alma. Porém, a história tem mostrado o contrário. Quanto aos poetas, eles não se limitam a criar meras ilustrações da realidade; eles a (re)constroem, desafiando-nos a ver o mundo de outra maneira. Eles criam imagens que provocam reflexões, sentimentos e questionamentos. Em A triste partida, cordel de Patativa do Assaré e depois musicado por Luiz Gonzaga, a minha (e de milhares e milhares) condição de migrante é recriada, seja devido a seca, como está no poema, seja pelo abandono político a que são submetidas essas pessoas. A poesia seria limitada se tocasse apenas quem viveu a situação, sua força está em justamente criar e recriar esse mundo para todos/as os/as outros/as que a leem. Um pequeno fragmento do citado poema:

[...]

E assim vão deixando 

Com choro e gemido 

Do berço querido 

Céu lindo azul 

O pai, pesaroso 

Nos filho pensando 

E o carro rodando 

Na estrada do Sul 

Chegaram em São Paulo 

Sem cobre quebrado 

E o pobre acanhado 

Procura um patrão 

Só vê cara estranha 

De estranha gente 

Tudo é diferente 

Do caro torrão

[...]

A função do poeta, em qualquer sociedade, é essa: a de provocar. Provocar reflexões, emoções, escavar emoções... Ele é um farol que ilumina as zonas de sombra da existência, que põe luz sobre o que normalmente preferiríamos ignorar. Os poetas não fazem poesia apenas para embelezar o mundo, mas para escancarar sua complexidade. Eles são os tradutores do caos, da beleza e da dor. Eles nos mostram que, em meio ao absurdo da vida, ainda há espaço para a reflexão, para o amor, para o inconformismo.

Por isso o poeta é também um rebelde. Ele não se submete às convenções e na maioria das vezes se opõe às ordens estabelecidas. Se Platão temia o poder da poesia, ele temia também o poder de questionar a ordem que era imposta. Os grandes poetas nos desafiam a irmos mais fundo, a questionarmos o sentido da vida e a própria natureza da verdade.

E é por isso que, mesmo sem grandes celebrações, o dia do poeta merece nossa atenção. Afinal, se a arte da poesia tem o poder de nos tocar profundamente, é porque ela não busca apenas nos entreter, mas, principalmente, nos fazer pensar. Por mais que Platão tentasse, os poetas nunca foram verdadeiramente expulsos. Eles permanecem aqui, desafiando-nos a ver o mundo com outros olhos. E é justamente essa a função de um poeta em qualquer sociedade: lembrar-nos daquilo que ainda não sabemos, ou daquilo que, por medo ou comodidade, deixamos de lado. viva os poetas e a poesia!

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