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quinta-feira, dezembro 12, 2024

Dolores

Ela margeava o terreno baldio, encharcado após a chuva. O medo que sempre a acometera ao passar por ali, não veio. Abstraíra-se do mundo, anestesiada pela sua dor. Não era dor física, mas cortava como gilete.

O passo ligeiro. Na cabeça não parava pensamento: turbilhão, boiada desembestada. Por isso não se ateve àquela parte que sempre a inquietava. Josias lhe pagaria por tudo isso. Seria capaz até de matá-lo, isso se ele já não estivesse morto. Estancou.

- Como é possível? Se perguntava, enquanto tudo girava em meio aquele turbilhão de dor. Nada fazia sentido.

Deu alguns passos, cruzou os braços no alto e tornou a estancar. Um raio anunciou a descida do próprio Xangô ao seu corpo. Fez-se o silêncio. Tudo à sua volta tornou-se nítido. Via a si mesma, aquele corpo magro de tanta peleja na vida. A dor anestesiou. Explodiu em gigantesco grito. Toda a comunidade tremeu.

Era pororoca desordenada:

- Hoje ninguém dorme. É hora do basta!

Chamava alto, batia às portas, puxava pela mão... redemoinho de gente. Paus, móveis velhos e tudo o mais que pudesse queimar. Barricada, pedras nas mãos... Gritava e repetia incessantemente:

- A polícia nunca mais vai entrar aqui pra nos matar.

De longe, a parte da cidade que insistia em ignorar aquele pedaço, pressentia o furor e já avistava o clarão do fogo.

6 comentários:

Calixto de Inhamuns disse...

Belo conto, Adailton, parabéns, garoto. Grandes abraços, saudades.

Quadrinhos do JackBera disse...

Muito massa !!

Ana Maria Quintal disse...

Eita ócio produtivo! 👏⚘💕

Adailtom Alves disse...

Grato!

Adailtom Alves disse...

Valeu!

Adailtom Alves disse...

Viva o ócio!