Ela margeava o terreno baldio, encharcado após a chuva. O medo que sempre a acometera ao passar por ali, não veio. Abstraíra-se do mundo, anestesiada pela sua dor. Não era dor física, mas cortava como gilete.
O passo ligeiro. Na cabeça não parava pensamento: turbilhão, boiada desembestada. Por isso não se ateve àquela parte que sempre a inquietava. Josias lhe pagaria por tudo isso. Seria capaz até de matá-lo, isso se ele já não estivesse morto. Estancou.
- Como é possível? Se perguntava, enquanto tudo girava em meio aquele turbilhão de dor. Nada fazia sentido.
Deu alguns passos, cruzou os braços no alto e tornou a estancar. Um raio anunciou a descida do próprio Xangô ao seu corpo. Fez-se o silêncio. Tudo à sua volta tornou-se nítido. Via a si mesma, aquele corpo magro de tanta peleja na vida. A dor anestesiou. Explodiu em gigantesco grito. Toda a comunidade tremeu.
Era pororoca desordenada:
- Hoje ninguém dorme. É hora do basta!
Chamava alto, batia às portas, puxava pela mão... redemoinho de gente. Paus, móveis velhos e tudo o mais que pudesse queimar. Barricada, pedras nas mãos... Gritava e repetia incessantemente:
- A polícia nunca mais vai entrar aqui pra nos matar.
De longe, a parte da cidade que insistia em ignorar aquele pedaço, pressentia o furor e já avistava o clarão do fogo.
6 comentários:
Belo conto, Adailton, parabéns, garoto. Grandes abraços, saudades.
Muito massa !!
Eita ócio produtivo! 👏⚘💕
Grato!
Valeu!
Viva o ócio!
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