Os pais, intrigados com aquela criatura nascida com um
mecanismo mágico, decidiram moldá-lo para a grandeza, tornar-se-ia um vencedor.
Ele poderia ser o melhor, pois, acreditou, aquele relógio não era uma maldição,
mas uma dádiva. Começou a estudar antes que pudesse falar direito. Aprendeu a
ler os ponteiros antes mesmo das palavras e, em sua mente de criança, o
tique-taque tornou-se parte inextricável de sua carne. Aprendeu línguas,
especialmente o inglês, por ter nascido em solo brasileiro, esta era a língua
imprescindível. Tivera este azar, o de não nascer em país de língua anglo-saxã,
caso em que seria desnecessário aprender outro idioma.
Depois de muitos anos estudando, pouco sabia da vida e do
mundo, mas sentia-se preparado para dar o seu melhor. Adentrou o mundo do
trabalho, sempre regulado por seu relógio, era um exímio cumpridor de horários
e compromissos. Reclamava nos mais próximos a displicência, mas sempre ouvia
deles que não tiveram a mesma sorte de nascerem com um relógio.
Regulado pelos segundos, sentia uma alegria feroz por cumprir
todos seus compromissos no tempo correto. Passados alguns anos, começou a empalidecer.
Todos os dias, antes de dormir, sentia seu sangue sendo drenado, não se
perguntou o porquê. Compreendia apenas que após algumas horas de sono acordava
renovado, então passou a ver como normal aquelas drenagens diárias.
Certo dia se questionou sobre o fato de ainda não ter se
tornado um vencedor, afinal fora preparado para isso desde muito cedo. Ele, tão
especial, nascera com um relógio. Seus pais o consolavam: “Há de chegar o tempo,
filho”.
Sentia-se íntimo do tempo, senhor soberano de todas as vidas,
pois o acompanhava segundo a segundo em seu relógio, que jamais atrasara. O tempo
levou seus pais, um pouco abalado, ele, pela segunda vez, se questionou: por
que ainda não se sentia um vencedor? É certo que tivera algumas conquistas, mas
longe do que imaginava e do que prometeram para ele, ser tão especial.
Empalidecia a olhos vistos e cada vez mais rápido. Para onde
iria seu sangue? Tal questionamento passou rapidamente por sua cabeça, mas a
fraqueza não o deixou ir além. Continuou firme em seu propósito: haveria de ser
um vencedor. Às vezes é preciso paciência, pois a vitória pode está na
esquina... Confiava no mundo à sua volta e nas propagandas ditas desde sempre. Mais
que isso, não cansava de repetir para si: ele se preparou para isso.
Certa noite sentiu que sugaram seu sangue além da conta. O sono
não foi suficiente para se recuperar. Dali em diante, as horas dormidas não
mais repunham suas energias, mas continuou a cumprir todos os horários, não
tinha direito de atrasar, afinal era o homem-relógio. A fraqueza não o deixava
desacreditar: a vitória não tardaria.
Mesmo já tendo idade, preferiu não se aposentar. O relógio
continuava a ser seu guia inflexível. Era um exemplo para as pessoas à sua
volta. Tudo era costume, não conseguia desviar da rota que o mundo traçara para
si. Teve a certeza de tornar-se um vencedor até o seu segundo final.
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