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domingo, dezembro 15, 2024

O relógio

Nascera com um relógio vivo incrustado no peito. Os ponteiros não eram feitos de metal, mas de algo que pulsava como veias douradas, movendo-se ao ritmo de um coração que não era só seu. Desde o início, porém, soubera que o tempo não lhe pertencia.

Os pais, intrigados com aquela criatura nascida com um mecanismo mágico, decidiram moldá-lo para a grandeza, tornar-se-ia um vencedor. Ele poderia ser o melhor, pois, acreditou, aquele relógio não era uma maldição, mas uma dádiva. Começou a estudar antes que pudesse falar direito. Aprendeu a ler os ponteiros antes mesmo das palavras e, em sua mente de criança, o tique-taque tornou-se parte inextricável de sua carne. Aprendeu línguas, especialmente o inglês, por ter nascido em solo brasileiro, esta era a língua imprescindível. Tivera este azar, o de não nascer em país de língua anglo-saxã, caso em que seria desnecessário aprender outro idioma.

Depois de muitos anos estudando, pouco sabia da vida e do mundo, mas sentia-se preparado para dar o seu melhor. Adentrou o mundo do trabalho, sempre regulado por seu relógio, era um exímio cumpridor de horários e compromissos. Reclamava nos mais próximos a displicência, mas sempre ouvia deles que não tiveram a mesma sorte de nascerem com um relógio.

Regulado pelos segundos, sentia uma alegria feroz por cumprir todos seus compromissos no tempo correto. Passados alguns anos, começou a empalidecer. Todos os dias, antes de dormir, sentia seu sangue sendo drenado, não se perguntou o porquê. Compreendia apenas que após algumas horas de sono acordava renovado, então passou a ver como normal aquelas drenagens diárias.

Certo dia se questionou sobre o fato de ainda não ter se tornado um vencedor, afinal fora preparado para isso desde muito cedo. Ele, tão especial, nascera com um relógio. Seus pais o consolavam: “Há de chegar o tempo, filho”.

Sentia-se íntimo do tempo, senhor soberano de todas as vidas, pois o acompanhava segundo a segundo em seu relógio, que jamais atrasara. O tempo levou seus pais, um pouco abalado, ele, pela segunda vez, se questionou: por que ainda não se sentia um vencedor? É certo que tivera algumas conquistas, mas longe do que imaginava e do que prometeram para ele, ser tão especial.

Empalidecia a olhos vistos e cada vez mais rápido. Para onde iria seu sangue? Tal questionamento passou rapidamente por sua cabeça, mas a fraqueza não o deixou ir além. Continuou firme em seu propósito: haveria de ser um vencedor. Às vezes é preciso paciência, pois a vitória pode está na esquina... Confiava no mundo à sua volta e nas propagandas ditas desde sempre. Mais que isso, não cansava de repetir para si: ele se preparou para isso.

Certa noite sentiu que sugaram seu sangue além da conta. O sono não foi suficiente para se recuperar. Dali em diante, as horas dormidas não mais repunham suas energias, mas continuou a cumprir todos os horários, não tinha direito de atrasar, afinal era o homem-relógio. A fraqueza não o deixava desacreditar: a vitória não tardaria.

Mesmo já tendo idade, preferiu não se aposentar. O relógio continuava a ser seu guia inflexível. Era um exemplo para as pessoas à sua volta. Tudo era costume, não conseguia desviar da rota que o mundo traçara para si. Teve a certeza de tornar-se um vencedor até o seu segundo final.

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