Ah, o Brasil! Terra do samba,
do carnaval e, claro, do futebol. Se tem uma coisa que a gente sabe fazer de
olhos fechados, é botar uma bola no chão e mostrar que, para o brasileiro, a
vida é uma pelada. Não importa onde, não importa quando, só importa que a
pelada esteja rolando. E foi em uma dessas partidas de bairro, entre amigos de
infância e outros perdidos na vida, que Zedovsky, o verdadeiro craque da
quebrada, aprendeu que ser boleiro no Brasil vai muito além de dribles e gols.
Vai também de atendimento médico e uma boa dose de paciência.
Zedovsky – e o nome dele é
Zedovsky mesmo, porque, se você é da quebrada, seu nome precisa ser sonoro e
incomum para se destacar – estava fazendo o que mais sabe: encarando uma
pelada, claro. O gramado? Um campo de terra batida onde, quando chove, vira um
lamaçal só. O time? Basicamente um bando de gente que tenta impressionar o
pessoal da rua, mesmo que não manje de esquema tático.
Tudo estava indo bem, até que
Zedovsky, em um de seus dribles geniais (ou seriam apenas vacilos?), acabou se
lesionando de maneira épica. Um torção no tornozelo que mais parecia cena de
filme de ação, daqueles em que o herói tenta pular de um prédio e o final não é
nada bonito. A dor foi tão intensa que ele, no susto, berrou mais que o técnico
do Flamengo na final do campeonato.
"É agora, moço, é
agora!" – pensou ele, com o semblante de quem sabia que, em qualquer país
civilizado, uma lesão dessa magnitude seria tratada com dignidade e respeito.
Mas Zedovsky estava no Brasil, o país do futebol... e da saúde pública?
Quando chegou ao hospital
público, Zedovsky foi imediatamente encaminhado para uma fila que mais parecia
um desfile de novos atletas para o time do "quem tem mais paciência".
Os corredores estavam abarrotados. Uns sentados, outros deitados, todos com
aquele olhar perdido de quem já perdeu a conta de quanto tempo espera e
esperará.
Depois de muito tempo – nessas
horas contas marcadas em relógio pouco importa –, Zedovsky finalmente foi
chamado. “Aqui, meu filho, vai para aquela maca e espera que já vou”, disse a
enfermeira, que mais parecia uma cartomante tentando adivinhar o futuro do
paciente. Sentou, depois deitou, esperando pelo atendimento que começaria em
breve... Uma olhada rápida no paciente e o desloca, para fazer uma “chapa” na
radiologia, que ficava no outro lado do hospital. E lá foi Zedovsky, como um
jogador de futebol sendo deslocado de um lado para o outro no campo, em busca
da famosa "sorte de ser atendido".
Passaram-se umas boas horas, e
o craque da quebrada já estava quase se sentindo parte do cenário hospitalar: a
cadeira desconfortável, os pacientes ao redor, os enfermeiros com cara de quem
não sabia mais o que estavam fazendo ali. Mas Zedovsky não se abalou. Afinal, o
futebol, com sua carga dramática, sempre nos prepara para o inesperado. Se
perguntava em termos de tempo, quantas partidas teria jogado até ali?
Quando, finalmente, chegou o
momento do diagnóstico, o médico com pinta de humorista disse: "Você não
fraturou, mas esse tornozelo aí vai precisar de repouso. Se continuar jogando
assim, meu filho, vai terminar igual o time do Brasil na última Copa."
Zedovsky, claro, saiu de lá
com a sensação de que havia jogado uma partida importante, digna de título
mundial, mas sem nem saber qual foi o placar final, mas sabia que ele tinha
sido a bola. A lesão? Melhor que tivesse sido uma canelada de um zagueiro. Pelo
menos ali ele saberia o que fazer.
É minha gente, o Brasil segue
sendo o país do futebol, onde os craques de rua se tornam heróis da quebrada e,
às vezes, pacientes de alas hospitalares. No fim, Zedovsky sabia que não
importava o quanto o atendimento fosse enrolado, ele sempre estaria pronto para
mais uma "pelada". Porque aqui, meu amigo, o futebol nunca para...
mas o atendimento médico, ah, esse sempre dá um bom drible.
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