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segunda-feira, janeiro 13, 2025

Sonhar acordado


Era uma manhã como qualquer outra, ou assim parecia. O sol, como quase todos os dias por estes lados do Brasil, mostrava sua força. O relógio na parede marcava 6h30 da manhã, mas o professor Jorge Marques, ainda deitado, não conseguia se mover. Seus olhos estavam abertos, mas sua mente continuava presa em um pesadelo que, até agora, não o havia soltado.

No sonho, ele estava em sala de aula, como sempre, diante de uma turma de alunos distraídos, rabiscando nos cadernos ou mexendo no celular. Tudo parecia rotineiro, exceto por uma coisa: os alunos começavam a flutuar. Primeiro, foi apenas um, depois dois, e logo todos estavam no ar, levitando suavemente, seus pés deixando o chão com a mesma naturalidade com que respiravam.

O professor observava, sem saber o que fazer, sem entender o porquê. As cadeiras continuavam no lugar, mas os alunos, agora flutuando acima delas, pareciam mais calmos, mais concentrados, como se o simples ato de estar no ar os tivesse levado a um estado de serenidade total. Alguns até sorriam, como se gostassem da sensação... liberdade? A sala estava em completo silêncio, exceto pelos murmúrios baixos de quem observava o fenômeno.

"Isso não pode estar acontecendo", pensou Jorge, tentando controlar a crescente ansiedade que o envolvia. Ele olhou para o quadro-negro, na esperança de se agarrar à normalidade de um objeto real e no qual havia escrito algumas informações. Mas, para sua surpresa, o quadro estava vazio. Não havia mais nada ali. Tudo se desfez diante de seus olhos, como se ele estivesse em um sonho sem regras, sem limites. Os alunos, agora completamente fora de controle, começaram a se mover pela sala como se flutuassem em um mar invisível, trocando de lugar, alguns até atravessando uns aos outros no ar.

O professor tentou chamar a atenção deles, mas sua voz saiu abafada, como se ele estivesse preso embaixo d'água. Levantou as mãos, mas não conseguiu falar. Os alunos agora flutuavam em direção ao teto, deixando-o ainda mais atônito. Um deles, a estudante mais quieta da turma, a Pietra, passou por ele com um sorriso sereno no rosto. "Professor, você vai se acostumar", ela disse, com uma suavidade desconcertante. De modo assertivo disse: "Tudo flutua no final."

Foi nesse momento que Jorge acordou.

O suor frio escorria pela sua testa. Ele ainda estava deitado em sua cama, mas sentia uma sensação de vertigem, como se estivesse flutuando também. Respirou fundo, tentando afastar os vestígios do sonho que ainda pairavam em sua mente. Olhou para o relógio, que agora marcava 7h15. Ele precisava se levantar, se preparar para mais um dia de aula. Mas uma sensação estranha persistia, algo que ele não conseguia identificar: a impressão de que algo fora da sua compreensão estava prestes a acontecer.

Ao chegar na escola, seu corpo ainda carregava o peso do sonho. A porta da sala de aula estava aberta, e ele entrou, tentando dissipar os resquícios do pesadelo. Seus alunos começaram a chegar, um por um, cumprimentando-o com o habitual "Bom dia, professor!". Mas, ao se sentar em sua mesa, Jorge não pôde deixar de notar algo peculiar: a estudante Pietra estava mais calma do que o normal. Ela não falava com os demais, como de costume, e parecia olhar fixamente para o vazio, como se estivesse em outro lugar.

A aula começou, mas uma sensação estranha tomou conta do ambiente. Enquanto Jorge explicava a matéria no quadro, ele notou um movimento sutil no canto do olho. Um dos estudantes, Lucas, estava com os pés ligeiramente elevados do chão, flutuando lentamente. Jorge parou de falar, atônito, mas Lucas não parecia perceber. Outros começaram a notar, mas, ao contrário da sua reação, eles não estavam surpresos. Era como se aquilo fosse algo esperado, como que natural.

Jorge engoliu em seco. A visão dos estudantes flutuando em sua sala de aula o fez lembrar do pesadelo. "Não... isso não pode ser real", pensou, tentando não perder a compostura. Ele pediu se sentassem, mas, ao olhar em volta, percebeu que a sala estava cheia de figuras que levitavam suavemente, os pés tocando o chão apenas de vez em quando, como se estivessem flutuando em um transe coletivo.

"Professor, o que você vai fazer agora?" perguntou Pietra, com aquele sorriso enigmático que ele lembrava de seu sonho. "Vai nos ensinar a voar, ou vai tentar nos parar?"

Jorge não sabia mais o que fazer. Ele sentia o chão abaixo de si, mas ao mesmo tempo a sensação de gravidade parecia fraca, distante. Ele olhou pela janela e viu o mundo lá fora, tão distante e, ao mesmo tempo, tão próximo. Um mundo onde tudo era possível, até mesmo a levitação.

No fundo, sabia que o que acontecia na sala de aula não era apenas um fenômeno inexplicável. Era um reflexo de algo muito maior, algo que ele começava a perceber, mas que ainda não conseguia compreender.

"O mundo flutua... é hora de lançar âncora ou começar a voar?", pensou Jorge, com uma leveza que nunca imaginara possível. E, antes que percebesse, seus próprios pés se elevaram do chão.

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