Dizia o avô, com a voz pesada de lenda:
— O coração do beija-flor, ainda quente,
te dará olhos de flecha e alma de caça.
E ele, menino de pés nus e alma crua,
acreditava no que lhe contavam com solenidade de reza.
Sabia mirar.
Sabia esperar.
E trazia nos olhos a febre dos que buscam
sem saber o que perderão ao encontrar.
Caçava cores.
Caçava cantos.
Caçava levezas.
Um dia — desses que mudam tudo sem avisar —
avistou um beija-flor em pleno gesto de milagre:
bailava entre as flores com a pressa de quem vive pouco.
E ele, o menino, silenciou o mundo.
Mirou.
Respirou.
Disparou.
A ave caiu, poema interrompido.
Ele a recolheu com mãos trêmulas
e, como lhe haviam ensinado,
arrancou o coração ainda morno,
e o engoliu como se fosse destino.
Mas algo mudou.
Naquela noite, não dormiu.
No escuro da rede, ouviu um zumbido —
não de asa, mas de arrependimento.
Sonhou que voava com o corpo do pássaro,
mas sem saber como pousar.
Sonhou que flores murchavam ao vê-lo chegar.
Amanheceu com os olhos mais atentos, sim,
mas não para o sangue,
nem para a presa —
mas para o espanto.
Passou a caminhar menos armado.
Parava ao ver as flores dançarem com o vento.
Desaprendeu a fome de caçador
e aprendeu a sede de contemplador.
Um dia, jogou fora o bodoque.
Outro, começou a plantar.
As crianças da aldeia o viram, certo dia,
deixar um coco cheio de água fresca
pendurado na árvore das visitas aladas.
E dizem — embora ninguém saiba ao certo —
que um beija-flor pousou em sua mão,
sem medo, sem pressa,
como se o perdoasse.
O menino, que já não era criança,
sorriu.
Naquele instante, aprendeu a voar.
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