Durante toda a sua vida, Madalena soube que não deveria atravessar a ponte.
Não era uma proibição explícita, tampouco um decreto de sua família — era mais como um sussurro enraizado na memória, um aviso que havia se instalado em seu corpo desde a infância, no tempo em que as coisas não precisavam ser explicadas para serem temidas. A ponte de madeira arqueava-se sobre o igarapé, um fio d’água escuro que cortava a mata e que, nas épocas de cheia, tornava-se um braço largo e lento que desaguava no rio próximo dali. O nome do igarapé, Demarcação, fora dado pelos mais velhos, e ninguém nunca explicou por quê. Só diziam: “Não vá por ali, Madalena. Isso não é lugar de menina”.
Ela cresceu ouvindo isso com a naturalidade de quem aprende que fogo queima e que a noite tem bicho. Era mais uma verdade, dentre as tantas que aprendera. Um dia, ainda pequena, Madalena escutou um rumor à beira do poço: algo sobre uma mulher que atravessara a ponte e nunca mais voltara. “Virou bicho, ou virou árvore”, disse alguém. “Ou se libertou”, murmurou outra voz, quase inaudível.
Agora, aos dezesseis anos, Madalena estava diante da ponte.
A madeira, velha e marcada por musgos e sol, rangia sob suaves ventos da tarde. Era uma estrutura simples, nada imponente, mas diante dela o coração de Madalena batia como se estivesse prestes a desatar uma enchente. Ela trazia um caderno de anotações — onde registrava seus sonhos, dúvidas e pressentimentos. Ali, rabiscara o desejo, uma vontade estranha e crescente de saber o que havia do outro lado. Não era curiosidade, tornara-se necessidade.
A mãe havia saído para vender produtos da horta na vila, o pai dormia depois do roçado, e os irmãos brincavam com cacos de frutos do outro lado da casa. Madalena saiu sem que ninguém percebesse. Chegara ali sozinha, o céu aberto e a água do igarapé refletindo sombras da mata. Fechou os olhos por um instante e lembrou da primeira vez que vira a ponte com medo: tinha sete anos, e estava procurando uma animal que se afastara do curral. Quando viu a estrutura adiante, sentiu um calafrio — como se uma mão invisível a puxasse para trás. Há leis inscritas em nossa mente que, mesmo sem saber sua origens, nos prendem e nos condenam.
Mas agora não. Agora, algo empurrava Madalena para a frente.
Deu o primeiro passo. A madeira estalou. O som fez seu peito doer, como se cada estalo fosse o romper de uma linha invisível com o passado. Outro passo. Lembrou-se da avó, que dizia: “A gente carrega o mundo nos pés, menina. Cada caminho que se pisa é uma escolha”.
Ao chegar ao meio da ponte, parou. Olhou o rio. A água, escura como o silêncio, parecia guardar segredos. O cheiro da floresta era forte, e por um instante Madalena sentiu-se pequena demais, quase desfeita. Pensou em voltar.
Mas então, ouviu. Não era voz, nem som. Era como um calor que vinha de dentro. Como se a ponte estivesse viva, e a convocasse a marchar adiante.
Ela continuou.
Do outro lado, a mata se abria em um descampado, grande e rodeado pela floresta. Madalena sentiu o cheiro de terra mudada, de memória ressignificada.
Mas também algo mais: ao longe, uma mulher plantava algo. Curvada, com as mãos no chão, ela pressionava pequenas sementes na terra. Ao vê-la, Madalena sentiu o coração disparar de novo, mas não de medo — era reconhecimento. A mulher olhou para ela e sorriu. Era a mesma mulher da história de sua infância. Estava ali. Tinha certeza que era ela. Não havia virado bicho, nem árvore. Havia permanecido.
Madalena se aproximou. A mulher ofereceu-lhe uma semente e apontou para o solo.
Sem perguntar nada, Madalena ajoelhou-se e plantou.
2 comentários:
Belo conto, Adailtom.
Obrigado!
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