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domingo, novembro 30, 2025

O Brasil que nos perde e nos salva

 

Quando olhamos atentamente nossa realidade, percebemos que o sistema tem nos deixado todos doentes, uma realidade gritando por mudanças profundas e uma parte querendo segurar ou retroceder por meio das várias formas de negacionismos. Porém, o real resiste, cantou Arnaldo Antunes. Se a questão é ampla e complexa, olhemos para o nosso país. Estamos doentes de Brasil.

Estar doente de Brasil é sentir, no corpo e na alma, o peso das mazelas que parecem repetir-se como feridas que nunca cicatrizam. É perceber que nossas crises políticas, nossas injustiças sociais e nossos abismos econômicos não são episódios isolados, mas sintomas de algo mais profundo: um país que ainda não se reconciliou consigo mesmo, com sua história. A cada escândalo, a cada violência banalizada, a cada ataque às instituições ou às diferenças, sentimos uma espécie de febre moral, uma exaustão cívica que nos atravessa.

Mas, paradoxalmente, é desse mesmo Brasil adoecido que nasce a possibilidade de cura. Porque, apesar de tudo, há no povo brasileiro uma força vital que insiste em não sucumbir. Uma força feita de diversidade, de reinvenção cotidiana, de solidariedade que brota mesmo em meio ao caos. A cura não virá como um remédio externo ou como um gesto salvador vindo “de cima”. Ela nasce no encontro entre as pessoas, na compreensão de que somos múltiplos, plurais, contraditórios; a nossa mistura constitui nossa maior potência.

Quando olhamos para as expressões culturais do país (danças, músicas, teatro, festas, oralidades, rituais, artes visuais, modos de contar e de existir) encontramos não apenas beleza, mas um mar de possibilidades existenciais. Cada manifestação cultural é uma resposta ao mundo, um modo de significá-lo e também de transformá-lo. São nessas manifestações que o Brasil revela sua força mais profunda: a capacidade de criar em meio ao caos e a dor; uma fértil imaginação, apesar do desalento; uma capacidade de celebrar, apesar das ruínas que nos cerca. A cultura é nossa argila com o qual nos moldamos, por isso é também nosso remédio. Em um dos aspectos, o campo das artes por exemplo, reconhecemos o que verdadeiramente somos e, ao mesmo tempo, o que ainda podemos vir a ser.

Estar doente de Brasil é legítimo. É difícil respirar sob o peso das contradições que se acumulam. Mas é também compreender que a cura é possível, está entre nós no povo que dança, canta, inventa, protesta, reza, celebra, narra e resiste. Um povo que, mesmo ferido, nunca deixou de construir mundos. E não se trata de romantismo barato, pois é impossível não reconhecer essa potência. A cura começará quando entendermos que esse país, em toda a sua complexidade e exuberância, é feito de nós. Como canta Emicida: “Nóis e nesse nóis / Não existe um porém / Nóis e se não for nóis / Não vai ser ninguém / Com nóis é nóis / Que corre no caminho do bem”. Então, cuidemo-nos, pois se cuidarmos uns dos outros, estamos também cuidando do Brasil que ainda queremos, para lembrarmos de outro grande artista. Milton Nascimento, “há que se cuidar do broto para que a vida nos dê flor e fruto”. Se estamos doente de Brasil, a cura também daí, especialmente daquilo que brota de nosso povo.

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