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domingo, dezembro 07, 2025

BRECHA


A região era um enclave estreito e abrupto, encravado entre montes que pareciam ter sido empilhados às pressas pelos deuses. As encostas, eram íngremes e pedregosas, formavam caminhos tortuosos que serpenteavam como cicatrizes antigas. Pequenos terraços cultivados se equilibravam nos barrancos, sustentados por muros de pedras empilhadas à mão. Tudo a seu tempo era intenso: o calor, o vento, o frio, a chuva. No centro de tudo erguia-se a Montanha do Meio. Não era a maior ou a mais bela, mas lançava sua sombra diária sobre o povoado espremido abaixo, moldando suas rotinas, superstições e, mais tarde, seu destino.

Por não recorrerem a calendários, ninguém sabia exatamente quando começou. O fato é que tudo se originara de uma trivialidade tão pequena, tão ridícula, que qualquer registro pareceria uma piada. A Montanha do Meio, um afloramento de pedra cinzenta entre dois vales apertados, projetava uma sombra irregular sobre o chão ao amanhecer. E era essa sombra, apenas isso, que estava no centro da discórdia. A humanidade tem tido a capacidade de, ao longo de sua história, cair na armadilha de se autodestruir por pequenas banalidades. Coisas insignificantes, mas que captadas por imagens de prestígio ou poder, leva à perdição.

A região era um fiapo de mundo comprimido entre penhascos: meia dúzia de casas espremidas, hortas que mal se equilibravam no desnível, rios ou fios d`água que corriam montanha abaixo com sua pressa habitual. Ali vivia a Comunidade da Serra, gente acostumada a dividir o pouco e a rir do próprio azar. Certo dia, no entanto, por puro capricho da vida ou de algum deus cultuado por aquela gente, a sombra da Montanha do Meio avançou alguns passos a mais sobre o terreno do senhor Mirta. E isso bastou.

— A sombra é minha, sempre foi — assim disse ele. E emendou: Foi assim no tempo do meu pai.

— A sombra não tem dono — retrucou seu vizinho, Raul —, e mesmo que tivesse, caiu hoje no meu terreno. É o que vale. Não se pode controla-la, pois como temos observado ao longo dos tempos, ela muda. Só o sol sabe e a montanha saberá.

A discussão espalhou-se como fumaça, ardendo olhos e corações. Primeiro vieram as risadas, depois as zombarias, depois as tentativas de mediação. Mas cada pessoa que se metia no assunto passava a defender um lado. Será que os homens se cansam da monotonia e por isso buscam aventuras? Pode ser, mas deveriam lembrar que quase sempre há violência no final. Era vida espremida, mas em harmonia. Assim, aquela disputa foi só um pretexto que incendiou o lugar.

Em pouco tempo, dividiram-se em dois grupos: Os Donos da Sombra e Os Guardiões do Sol. Os nomes começaram como chacota, mas rapidamente ganharam peso, bandeiras improvisadas, slogans, músicas. Uma verdadeira disputa de mentes e corações instalou-se pela região. Os Donos da Sombra diziam que a estabilidade vinha do passado, e que a sombra simbolizava tradição. Os Guardiões do Sol afirmavam que o futuro só poderia existir onde a luz tocava o chão.

E assim, por causa de um retalho escuro sobre o solo, ergueram-se paliçadas, cavaram trincheiras, esconderam ferramentas que antes eram de uso comum. A violência surgiu como um tropeço: primeiro uma pedrada, depois um empurrão, mais tarde uma casa incendiada, um corpo esquecido no desfiladeiro.

As crianças passaram a aprender a ignorar e esnobar seus vizinhos, depois aos insultos, tudo isso antes mesmo de aprender a ler. As festas comuns desapareceram. Os casamentos entre as duas comunidades foram proibidos e aqueles que já viviam nesse tipo de união passaram a ser ignorados ou hostilizados pelos dois lados; era preciso ter lado a qualquer custo. Qualquer tentativa de reconciliação era vista como traição. A Montanha do Meio, silenciosa e indiferente, continuava lançando sua sombra sobre o vale, às vezes maior, às vezes menor, sempre mudando, como tem sido o movimento da vida natural e, desse modo, ignorava por completo o destino daquelas pessoas.

A guerra tornou-se permanente. Não havia batalhas grandiosas, apenas emboscadas contínuas, agressões permanentes e volta e meia, uma morte que alimentava a continuidade daquele absurdo. Era uma guerra que não cabia nos mapas, pois acontecia em pedaços ínfimos de terra, em olhos semicerrados, em pequenas vinganças acumuladas. O passado de harmonia foi sendo esquecido. Ninguém teve a capacidade de perguntar em alto e bom som:

— Mas por que estamos lutando mesmo?

Ninguém. A memória é sempre seletiva, por isso é importante cuidá-la, alimentá-la, pois um lapso e ela pode se perder. Foi assim que uma simples sombra instalou a cizânia naquela região. Na verdade, a sombra foi apenas o pequeno motivo para um coração mal cuidado, de uma raiva casual transformou-se em obsessão de poder. Assim, todos que viviam na Comunidade da Serra sabiam que o inimigo estava do outro lado, e que desistir daquela disputa, seria perder.

A sombra, alheia, seguia seu percurso diário. A cada manhã, estendia-se sobre o terreno de um, de outro, de ninguém. A guerra, ao contrário, permanecia imóvel, como uma pedra cravada no peito de cada habitante e que estranhamente, alimentada pelo ódio, crescia tomando todo o corpo daquela gente.

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