A região era um enclave
estreito e abrupto, encravado entre montes que pareciam ter sido empilhados às
pressas pelos deuses. As encostas, eram íngremes e pedregosas, formavam
caminhos tortuosos que serpenteavam como cicatrizes antigas. Pequenos terraços
cultivados se equilibravam nos barrancos, sustentados por muros de pedras
empilhadas à mão. Tudo a seu tempo era intenso: o calor, o vento, o frio, a
chuva. No centro de tudo erguia-se a Montanha do Meio. Não era a maior ou a
mais bela, mas lançava sua sombra diária sobre o povoado espremido abaixo,
moldando suas rotinas, superstições e, mais tarde, seu destino.
Por não recorrerem a
calendários, ninguém sabia exatamente quando começou. O fato é que tudo se
originara de uma trivialidade tão pequena, tão ridícula, que qualquer registro
pareceria uma piada. A Montanha do Meio, um afloramento de pedra cinzenta entre
dois vales apertados, projetava uma sombra irregular sobre o chão ao amanhecer.
E era essa sombra, apenas isso, que estava no centro da discórdia. A humanidade
tem tido a capacidade de, ao longo de sua história, cair na armadilha de se
autodestruir por pequenas banalidades. Coisas insignificantes, mas que captadas
por imagens de prestígio ou poder, leva à perdição.
A região era um fiapo de mundo
comprimido entre penhascos: meia dúzia de casas espremidas, hortas que mal se
equilibravam no desnível, rios ou fios d`água que corriam montanha abaixo com sua
pressa habitual. Ali vivia a Comunidade da Serra, gente acostumada a dividir o pouco
e a rir do próprio azar. Certo dia, no entanto, por puro capricho da vida ou de
algum deus cultuado por aquela gente, a sombra da Montanha do Meio avançou
alguns passos a mais sobre o terreno do senhor Mirta. E isso bastou.
— A
sombra é minha, sempre foi — assim disse ele. E emendou: Foi assim no tempo do
meu pai.
— A
sombra não tem dono — retrucou seu vizinho, Raul —, e mesmo que tivesse, caiu
hoje no meu terreno. É o que vale. Não se pode controla-la, pois como temos
observado ao longo dos tempos, ela muda. Só o sol sabe e a montanha saberá.
A discussão espalhou-se como
fumaça, ardendo olhos e corações. Primeiro vieram as risadas, depois as
zombarias, depois as tentativas de mediação. Mas cada pessoa que se metia no
assunto passava a defender um lado. Será que os homens se cansam da monotonia e
por isso buscam aventuras? Pode ser, mas deveriam lembrar que quase sempre há
violência no final. Era vida espremida, mas em harmonia. Assim, aquela disputa foi
só um pretexto que incendiou o lugar.
Em pouco tempo, dividiram-se
em dois grupos: Os Donos da Sombra e Os Guardiões do Sol. Os nomes começaram
como chacota, mas rapidamente ganharam peso, bandeiras improvisadas, slogans,
músicas. Uma verdadeira disputa de mentes e corações instalou-se pela região.
Os Donos da Sombra diziam que a estabilidade vinha do passado, e que a sombra
simbolizava tradição. Os Guardiões do Sol afirmavam que o futuro só poderia
existir onde a luz tocava o chão.
E assim, por causa de um
retalho escuro sobre o solo, ergueram-se paliçadas, cavaram trincheiras,
esconderam ferramentas que antes eram de uso comum. A violência surgiu como um
tropeço: primeiro uma pedrada, depois um empurrão, mais tarde uma casa
incendiada, um corpo esquecido no desfiladeiro.
As crianças passaram a
aprender a ignorar e esnobar seus vizinhos, depois aos insultos, tudo isso
antes mesmo de aprender a ler. As festas comuns desapareceram. Os casamentos entre
as duas comunidades foram proibidos e aqueles que já viviam nesse tipo de união
passaram a ser ignorados ou hostilizados pelos dois lados; era preciso ter lado
a qualquer custo. Qualquer tentativa de reconciliação era vista como traição. A
Montanha do Meio, silenciosa e indiferente, continuava lançando sua sombra
sobre o vale, às vezes maior, às vezes menor, sempre mudando, como tem sido o
movimento da vida natural e, desse modo, ignorava por completo o destino
daquelas pessoas.
A guerra tornou-se permanente.
Não havia batalhas grandiosas, apenas emboscadas contínuas, agressões
permanentes e volta e meia, uma morte que alimentava a continuidade daquele
absurdo. Era uma guerra que não cabia nos mapas, pois acontecia em pedaços
ínfimos de terra, em olhos semicerrados, em pequenas vinganças acumuladas. O
passado de harmonia foi sendo esquecido. Ninguém teve a capacidade de perguntar
em alto e bom som:
— Mas por que estamos lutando mesmo?
Ninguém. A memória é sempre
seletiva, por isso é importante cuidá-la, alimentá-la, pois um lapso e ela pode
se perder. Foi assim que uma simples sombra instalou a cizânia naquela região.
Na verdade, a sombra foi apenas o pequeno motivo para um coração mal cuidado, de
uma raiva casual transformou-se em obsessão de poder. Assim, todos que viviam
na Comunidade da Serra sabiam que o inimigo estava do outro lado, e que
desistir daquela disputa, seria perder.
A sombra, alheia, seguia seu
percurso diário. A cada manhã, estendia-se sobre o terreno de um, de outro, de
ninguém. A guerra, ao contrário, permanecia imóvel, como uma pedra cravada no
peito de cada habitante e que estranhamente, alimentada pelo ódio, crescia
tomando todo o corpo daquela gente.
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