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sexta-feira, fevereiro 13, 2026

A luta vã da escrita

 Carlos Drummond de Andrade, em seu poema O lutador, abre a escrita afirmando que apesar da luta ser vã, mal raia o dia e já se debate com as palavras. Carrego essa imagem como um espelho do momento em que vivo: há três anos me debato com um pequeno livro — pequeno aí talvez tenha muitas dimensões e significados, muitas camadas de sentido. É um livro que me atravessa. Não sei se o livro nascerá, mas o desejo de trazê-lo à luz persiste, como se existisse em alguma zona escura dentro de mim, guardando temas que ainda não compreendo totalmente.

O destino pareceu contrariar ou alertar acerca do projeto quando perdi quase tudo em uma pane no computador. Restaram poucos arquivos, salvos nas nuvens — essas estruturas invisíveis, sustentadas por máquinas e que bebe muitos recursos naturais, mas distantes da nossa percepção cotidiana. Mas o livro mesmo, daquela versão tudo se perdeu. Era já o segundo rascunho, e a perda teve gosto de recomeço forçado, quase como se o texto pedisse outra forma de existir.

Retomei porque a origem dele nunca esteve no digital. A primeira escrita foi à mão. Ainda tenho o caderno: páginas de palavras empilhadas, rápidas anotações... Há algo de orgânico nisso, como se o pensamento deixasse rastros físicos. Voltar ao caderno foi voltar ao impulso inicial, ao momento em que a história ainda não tinha medo de ser imperfeita (nenhum escritor deveria ter medo da imperfeição, afinal, estamos fatalmente condenados).

É um livro profundamente pessoal, mas atravessado pela imaginação, pela invenção. Aproximo-me da autoficção, ainda que desconfie dos rótulos, mas é a “moda” vigente. Talvez toda escrita carregue fragmentos de quem escreve, mesmo quando disfarçados pela fantasia. Tenho evitado ler autores do momento nesse campo, especialmente os franceses, talvez por cautela. Sei que sou permeável às vozes alheias, e agora preciso ouvir a minha até o fim.

Talvez demore. Quiçá, quando terminar (se terminar), o mundo já tenha mudado de interesse e autoficção seja apenas uma lembrança... Ainda assim, escreverei como um gesto de minha permanência, uma tentativa de existir além do silêncio do que vivi. Do que será real disso tudo? Quem sabe, já que tudo que é recontado carrega muito de invento e devaneio.

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