Carlos Drummond de Andrade, em seu poema O lutador, abre a escrita afirmando que apesar da luta ser vã, mal raia o dia e já se debate com as palavras. Carrego essa imagem como um espelho do momento em que vivo: há três anos me debato com um pequeno livro — pequeno aí talvez tenha muitas dimensões e significados, muitas camadas de sentido. É um livro que me atravessa. Não sei se o livro nascerá, mas o desejo de trazê-lo à luz persiste, como se existisse em alguma zona escura dentro de mim, guardando temas que ainda não compreendo totalmente.
O destino pareceu contrariar ou alertar acerca do projeto
quando perdi quase tudo em uma pane no computador. Restaram poucos arquivos,
salvos nas nuvens — essas estruturas invisíveis, sustentadas por máquinas e que
bebe muitos recursos naturais, mas distantes da nossa percepção cotidiana. Mas
o livro mesmo, daquela versão tudo se perdeu. Era já o segundo rascunho, e a
perda teve gosto de recomeço forçado, quase como se o texto pedisse outra forma
de existir.
Retomei porque a origem dele nunca esteve no digital. A
primeira escrita foi à mão. Ainda tenho o caderno: páginas de palavras
empilhadas, rápidas anotações... Há algo de orgânico nisso, como se o
pensamento deixasse rastros físicos. Voltar ao caderno foi voltar ao impulso
inicial, ao momento em que a história ainda não tinha medo de ser imperfeita (nenhum
escritor deveria ter medo da imperfeição, afinal, estamos fatalmente condenados).
É um livro profundamente pessoal, mas atravessado pela
imaginação, pela invenção. Aproximo-me da autoficção, ainda que desconfie dos
rótulos, mas é a “moda” vigente. Talvez toda escrita carregue fragmentos de
quem escreve, mesmo quando disfarçados pela fantasia. Tenho evitado ler autores
do momento nesse campo, especialmente os franceses, talvez por cautela. Sei que
sou permeável às vozes alheias, e agora preciso ouvir a minha até o fim.
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